“Um brevíssimo estudo de caso”
Este artigo é um breve resumo do que poderíamos chamar de “um estudo de caso do paradigma de ‘aprender a aprender’ no contexto das TICs e da web 2.0”.
Os fatos relatados transcorreram no segundo semestre de 2008 e envolveram duas turmas de professores de escolas municipais de duas cidades paulistas, cada turma com uma média de 15 professores de diferentes escolas, todos envolvidos em um projeto de capacitação para o uso pedagógico dos computadores e da Internet.
Embora as duas turmas fossem compostas por professores com real interesse em aprender a usar a tecnologia para a melhoria da qualidade do ensino em suas escolas, em ambas havia ainda uma grande quantidade de professores bastante inseguros sobre o uso dos computadores e com forte tendência ao perfil do “Professor Tradicional”, bem distante do perfil do “Professor Digital” ou do “Professor Web 2.0”. Como esses dois perfis já estão descritos nos respectivos artigos (clique nos links para lê-los), vou tentar descrever resumidamente o perfil do “Professor Tradicional” no que diz respeito à maneira como ele vê e interage com as tecnologias digitais contemporâneas.
O “Professor Tradicional”, ou “Professor Web 0.0” é aquele que, dentre outras, tem as características a seguir:
1. Não aperta nenhuma tecla sem antes perguntar se pode ou deve e sem que saiba de antemão exatamente o que acontecerá após apertar a tecla;
2. Preferencialmente gosta de trabalhar em duplas diante do computador, tendo sempre um parceiro que manipule a máquina para ele;
3. Anota todas as instruções em seu caderno, passo a passo, sobre que ícones clicar, em que sequência e em que contextos e evita a todo custo fazer qualquer coisa diferente do que foi anotado;
4. Qualquer mudança no contexto faz com que ele fique longamente olhando para a tela do computador aguardando que o instrutor apareça lá para lhe dizer o que fazer então;
5. É um excelente professor, tem profunda experiência profissional, tem desejo de inovar, mas não tem a menor idéia de por onde deva começar; acha mesmo que é “difícil” fazer o que ele já sabe fazer usando agora as novas ferramentas tecnológicas;
6. Desiste, sem novas tentativas, sempre que não consegue completar uma tarefa ou quando não encontra a solução anotada em seu caderninho;
7. Perde regularmente suas senhas e nomes de usuário, ou anota-as erroneamente quando faz cadastros em sites ou para obtenção de e-mails; entende que cada atividade é desvinculada das demais e que senhas e cadastros servem apenas momentaneamente, estritamente para os propósitos da atividade atual;
8. Prefere tratar qualquer assunto por telefone, mesmo quando o assunto envolve a leitura e o envio de e-mails; prefere aguardar dias para que lhe tragam a resposta a um problema do que tentar obtê-la por si mesmo;
9. Acredita que seus alunos sejam especialistas em computação e que passem muitas horas diárias “estudando o computador”; apesar disso acha que esses alunos usam mal o computador e que deveriam usá-los melhor;
10. Tem computador em casa, mas quem usa são os filhos. Admira a capacidade destes em usar o computador, mas têm vergonha de pedir ajuda a eles.
Dado o perfil das turmas, e diante da necessidade de mudar alguns hábitos que pudessem mudar o perfil dos professores, foi-lhes proposta uma atividade com a seguinte comanda: “Acessar o site http://www.toondoo.com, realizar o cadastro no site e criar uma tira (história em quadrinhos com até três quadrinhos) sobre um tema de livre escolha, publicando-a no próprio site”.
Passada a comanda sentei-me confortavelmente em uma cadeira e passei apenas a observar o trabalho dos professores. Rapidamente alguém observou: “o site está em inglês”. Seguiram-se perguntas e frases soltas no ar, como: “onde que se faz o cadastro?”, “para que serve esse botão?”, “olha aqui que legal”, e eu me mantive quietinho no meu canto, no melhor estilo do “professor que não se importa com seus alunos”. Não foi fácil, mas valeu a pena e o esforço de me conter até que fosse realmente imprescindível a minha intervenção.
Meia hora depois eles já haviam descoberto sozinhos como fazer o cadastro, alguém já havia descoberto como criar a tira e estavam agora dando os primeiros passos na construção de suas tiras individuais.
Aos poucos descobriram como escolher personagens, como escolher cenários, como alterar figuras (aumentar, diminuir, mudar a roupa, etc.) e alguém até percebeu que os diálogos não poderiam receber acentos devido à linguagem usada na ferramenta (apenas inglês), mas que os balões de diálogo podiam ser manipulados e havia várias opções de tipos de letras.
Não tardou muito e a primeira tira foi finalizada, seguindo-se então de sua publicação no próprio site e da “visita” dos colegas para conferirem a tira pronta. Uma certa euforia foi tomando conta do grupo. Ao final de duas horas foi incrivelmente difícil tirar os professores da frente dos computadores para podermos discutir os aspectos pedagógicos da atividade e as implicações disso na metodologia de ensino e aprendizagem deles mesmos e de seus alunos.
A discussão da atividade iniciou-se com uma pergunta bem simples: “o que foi que aprendemos nessa atividade?”. Foram muitas as respostas: “aprendemos a fazer tirinhas”, “aprendemos a fazer cadastro”, “aprendemos a usar balões e a construir diálogos curtos e esclarecedores”, teve até quem disse que “aprendemos um pouco de inglês”, até que alguém notou que aquela atividade tinha um propósito bem maior e disse “aprendemos a aprender a usar a Internet”. E era esse mesmo, ou bem próximo disso, o objetivo da atividade: aprender a aprender no contexto das TICs.
O fato é que a maioria dos professores, mesmo os mais jovens que já convivem com a tecnologia dos computadores e da Internet desde a época da formação universitária, estiveram a vida toda submetidos a um paradigma de ensino e de aprendizagem onde eles mesmos eram receptores de informações que deveriam ser digeridas e armazenadas para uso posterior, sempre com muito poucas modificações. É por essa razão que esses professores “anotam tudo” e “raramente ousam explorar caminhos diferentes na resolução de um problema”.
Esse tipo de ensino linear, focado em conteúdos específicos e exercícios repetitivos de memorização, apoiado em materiais escritos e didaticamente engessados a um modelo de crescente dificuldade; um modelo de aprendizagem individual e individualista regido por punições e recompensas e, por fim, um modelo que foi repetido milhares de vezes durante a formação dos próprios professores… Bom, esse tipo de modelo tem uma relação quase nula com o modelo de aprendizagem ao qual nossos alunos e os jovens em geral estão submetidos. Não que a escola tenha mudado, infelizmente ela ainda tenta manter vivo aquele modelo antigo e capengante, mas sim porque o mundo onde vivemos exige esse novo formato de aprendizagem e, consequentemente, a capacidade de “aprender a aprender”.
Nesse formato de aprendizagem contemporâneo:
1. não há linearidade estritamente necessária em uma sequência de aprendizagem; você pode chegar ao mesmo lugar partindo de diferentes pontos e traçando diferentes rumos, ainda que por alguns caminhos a jornada seja mais longa e pedregosa;
2. a aprendizagem é focada em objetivos imediatos e sucessivos e nem sempre o aprendiz tem algum objetivo longínquo em mente; os objetivos mudam com a própria dinâmica da aprendizagem;
3. não há mais a necessidade de um “professor transmissor de conteúdos”; quando muito se faz necessário um “orientador de rumos”; o papel do professor não é restrito, mas antes amplificado, cabendo a ele a difícil tarefa de ensinar o aluno a fazer boas escolhas ao invés de apenas fornecer as melhores respostas;
4. a aprendizagem quase sempre se dá pela interação com outros aprendizes e, preferencialmente, ocorre em grupos e não individualmente; o conhecimento é construído coletivamente e apropriado de forma individual;
5. o erro é um parâmetro de acerto de rumo, não é visto como uma punição ou um fracasso na aprendizagem; errar passa a ser parte do próprio processo de aprendizagem, passa a ser um “método”, dentre outros, de se chegar aos acertos.
Foi exatamente esse modelo que os professores vivenciaram ao realizarem a atividade proposta “sem uma explicação sobre como deveriam fazê-la”. A angústia inicial do grupo diante de um problema absolutamente novo, de uma máquina e de um ambiente estranhos, sem poder contar com a ajuda sequer da linguagem (já que o site está todo em inglês), foi lentamente sendo substituída pela descoberta do trabalho em grupo, das soluções compartilhadas, dos erros que apontavam novos rumos e da liberdade de poder cometê-los “sem um professor corrigindo suas ações” a cada instante, das sucessivas conquistas (ora descobrindo como se faz isso, depois como se faz aquilo, e assim por diante) e com a liberdade de começar por onde quiser, explorar todas as possibilidades e compartilhar diferentes soluções para um mesmo problema.
Enfim, o que se viu ali foi uma aula sobre o que significa “aprender a aprender” e como isso é importante na solução de problemas contemporâneos, geralmente bastante diversos dos tipos de problema que enfrentávamos 20, 30 ou 40 anos atrás.
Após a discussão final da atividade todos foram embora visivelmente felizes e confiantes de que no próximo desafio estarão mais fortalecidos e, principalmente, que já sabem de onde partir: despojarem-se dos paradigmas de aprendizagem antigos e, como os jovens de hoje, se lançarem em descobertas sem o receio de às vezes errarem e, principalmente, sem a pretensão de querer acertar sempre.
E eu, que nunca tinha proposto essa atividade antes e apostei no sucesso dela com base apenas na reflexão teórica sobre modelos de aprendizagem, me convenci de vez por todas que capacitar professores para o uso pedagógico dos computadores e da Internet só faz sentido se realmente conseguirmos com que esses professores vivenciem as situações de aprendizagem com as quais seus alunos estão submetidos cotidianamente ou, em outras palavras, que não se pode ensinar a pensar de uma forma nova usando-se métodos e modelos antigos como base para essa aprendizagem.
Tags: aprender a aprender, Computador, paradigmas, Web 2.0


Fevereiro 11, 2009 às Quarta-feira, 11 11UTC Fevereiro 11UTC 2009 |
Olá Prof. José Carlos!
Fantástico seu texto… deveria ser utilizado em aberturas de semestres de licenciaturas, capacitações docentes e reuniões (xaropes) pedagógicas de incio de nao letivo
Eu falei, basicmente isto na minha tese e uma das integrantes da banca cai de pancada em cima!
A Academia forma hoje os professores no mesmo paradigma do século passado!
É esta contradição básica (e óbvia) que temos que lidar todos os dias!
abração
Fevereiro 11, 2009 às Quarta-feira, 11 11UTC Fevereiro 11UTC 2009 |
É isso aí Miriam! Òtimo texto! Romper barreiras só depende do esforço e realmente do “aprender a aprender”. A escola precisa e os alunos merecem essa mudança.
Fevereiro 11, 2009 às Quarta-feira, 11 11UTC Fevereiro 11UTC 2009 |
[...] Aprendendo a Aprender com as TICs [...]
Fevereiro 11, 2009 às Quarta-feira, 11 11UTC Fevereiro 11UTC 2009 |
GOSTEI MUITO .BASTANTE ÚTIL . ESTOU LEVANDO PARA A ESCOLA PARA DISCUSS.ÃO
Fevereiro 11, 2009 às Quarta-feira, 11 11UTC Fevereiro 11UTC 2009 |
O texto mostra de forma divertida, mas sem denegrir a imagem do professor ,que precisamos deixar de lado o medo de enfrentar as nossas dificuldades,não podemos ficar a margem desse processo.precisamos aprender que somos eternos aprendizes Segundo Paulo Freire, o professor do século XXI é alguém que, ensinando, está absolutamente aberto a aprender. Portanto podemos concluir que não precisamos ser especialistas em tecnologias educacionais para nos tornamos usuários dessas ferramentas. Aprendemos, com a convivência, a verbalizar como desejamos usá-las para o nosso trabalho. Assim nos capacitamos de acordo com as nossas necessidades.
Fevereiro 15, 2009 às Domingo, 15 15UTC Fevereiro 15UTC 2009 |
De todo o texto, o que fica martelando em minha cabeça é “o conhecimento é construído coletivamente e apropriado de forma individual”…
Fevereiro 22, 2009 às Domingo, 22 22UTC Fevereiro 22UTC 2009 |
Impressionantemente real!!!
Gostei muito,pbrigada.
Um grande abraço,
Graça
Fevereiro 25, 2009 às Quarta-feira, 25 25UTC Fevereiro 25UTC 2009 |
Oi José Carlos!
Gostei do texto, até parece que a abordagem tradicional é resultado da minha escola! (risos).
É isso mesmo. Mas tenho esperança que algo pode mudar…
Meu blog é sobre Informática Educativa apoiando projetos pedagógicos.
Abração.
Março 16, 2009 às Segunda-feira, 16 16UTC Março 16UTC 2009 |
Olá Professor Jose Carlos,
Na formação de professores o convencimento se dá pela prática, sem esquecer da teoria que o embasa…parabéns. Mais um belo exemplo de como se faz…
Abços
Abril 4, 2009 às Sábado, 04 04UTC Abril 04UTC 2009 |
Muito bom este texto, quem sabe a sua leitura ajude a romper as barreiras da apresentadas pelos tradicionais.
Abril 28, 2009 às Terça-feira, 28 28UTC Abril 28UTC 2009 |
Olá caro colega!
Sua abordagem foi magnífica!!! Temos vivido constantemente tais situações e como é importante discutí-las,analisá-las.
Eu realmente anseio que as “tics”prossigam agilizando a educação sem criar-se um outro problema em torno delas. Parabéns!!!
Um bom trabalho!
Maio 26, 2009 às Terça-feira, 26 26UTC Maio 26UTC 2009 |
olá! Colega.
Parabéns! sua maneira de colocar em prática uma situação tão difícil.
Me enconrei no teu texto, mas vou mudar radicalmente; obrigada.
Junho 18, 2009 às Quinta-feira, 18 18UTC Junho 18UTC 2009 |
Verdade que se trata de um texto significante para ser trabalhado em diversas situações!
Agosto 22, 2009 às Sábado, 22 22UTC Agosto 22UTC 2009 |
Caro colega,encontri-me neste texto, pois já me senti um destes educadores um dia… Hoje superei esta dificuldade e trabalho muito com minhas crianças na informática!
O caminho é este!
Parabéns!!!!!
Abraços
Setembro 21, 2009 às Segunda-feira, 21 21UTC Setembro 21UTC 2009 |
Muito interessante a jornada dos professores para a aprendizagem na linguagem dos computadres. Achei que eu sou “lesa” também mas não sou uma professora tradicional lendo o texto, me identifiquei apenas com as dificuldades na hora de enfrentar problemas novos no computador, mas meu conceito ainda é o básico e estou iniciando um curso de formação na rede municipal sobre mídias infantis para sair deste conceito básico: ainda não sei baixar musicas da internet, comprei o meu pen-drive este ano, não seu baixar fotos e nem tenho máquina digital, peço “ao meu pai” que escaneie para min atividades pedagogicas e fotos. Entendo que a necessidade é que põe a lebre a caminho. Quando vi a facilidade das minhas colegas em tirar atividades da internet com os seus pens corri atras, agora com o curso não tenho mais dúvidas para fazer o power point. Por isso é verdadeiro que o professor não tem necessidade de ensinar passo a passo como trabalhar no computador como um conceito pronto e acabado. Conheci gente que sabe realizar tarefas no computador como ninguém e que aprendeu sozinho mas observei muito nas aulas de informática nas escolas que colegas ainda fazem isso com as crianças, algumas delas por medo realizam as tarefas, outras vão além do que os professores dizem até porque já obtem a máquina em casa. Percebi que existe uma exclusão digital tanto lá e cá: o professor responsável pela sala de informática tem medo de que se quebre os computadres e obriga os alunos a se limitarem aos seus comandos, os alunos que não tem a máquina disponível para si se sujeitam e se dividem em três para uma máquina na escola quando eles pifavam no ambiente escolar é uma pena mas é necessário nós como professores nos incluirmos nas midias e lutarmos por melhorias na qualidade de ensino e também na inclusão digital.
Outubro 30, 2009 às Sexta-Feira, 30 30UTC Outubro 30UTC 2009 |
Olá professor José Carlos, a utilização dos recursos variados em sala de aula auxiliam muito, agora fazer uso da SAI e dos classmate têm auxiliado e ainda mais fazendo o aluno interagir! O texto fez refletir em nossas aulas, e a responsabilidade que o professor mediador tem abordar seus planos de aula. A inclusão digital precisa sim e nós professores temos que praticá-la.
Boa tarde,
Luzia
Novembro 3, 2009 às Terça-feira, 03 03UTC Novembro 03UTC 2009 |
Professor José Carlos, tenho pouca experiência no mundo tecnológico, mas confesso que gostei, de como a situação tradicional foi contornada, parabéns. Pensamento: