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As TICs, a Escola e o Futuro

20/01/2011

Ou… O futuro a Deus pertence.

Novas tecnologias

Esta nascendo uma nova maneira de aprender

Enquanto alguns professores se perguntam como é possível recuperar o tempo perdido para poderem se atualizar com relação ao uso pedagógico das TICs, eu me pergunto: e como seria estar atualizado hoje em dia?

A questão do uso pedagógico das TICs remete a uma questão mais ampla ainda: o que os nossos alunos precisam aprender? Onde as TICs entram nessa história?

Os especialistas em currículo passam a vida discutindo esse tema e acabam quase sempre concluindo que o currículo é vivo, dinâmico e deve sempre estar voltado a uma formação que permita ao aluno “adequar-se” a seu mundo. Mas que mundo é esse?

Na verdade, nós não sabemos. E é justamente aí que entra a história das TICs!

Ninguém em sã consciência sabe dizer com relativa precisão como será nosso mundo daqui a três anos. O que dizer então sobre um futuro de cinco, dez ou vinte anos? Muitas profissões deixarão de existir nesse curto período de tempo de apenas três anos, enquanto outras tantas surgirão. A tecnologia se reinventa a cada seis meses. O cotidiano, os hábitos, as relações sociais e econômicas, tudo está mudando muito rápido. Tão rápido que fazer previsões está cada dia mais difícil.

Nesse contexto, o que é estar atualizado? E qual é a importância de estar atualizado? Se o que sabemos hoje poderá não nos servir daqui a três anos, o que servirá, então, aos nossos alunos?

Web 2.0

O conhecimento agora está “na nuvem”

Vamos fazer um teste? No quadro abaixo, assinale as ferramentas da Web 2.0 que você conhece. Marque com um X o retângulo que corresponde, aproximadamente, ao tempo que você já conhece a ferramenta. Considere que “conhecer a ferramenta” signifique saber usá-la pelo menos de forma básica e para si mesmo (não é necessário que você saiba usar a ferramenta com os seus alunos, ou que a tenha usado com eles):

Ferramenta (*) 1 ano 2 anos 3 anos + de 3 anos
Twitter
YouTube
Google Docs
Delicious
Slideshare
Skype
Google Reader
WordPress
FaceBook
Moodle
(*) Essas ferramentas são as dez mais utilizadas no ensino, segundo levantamento do “Centre for Learning & Performance Technologies” junto a profissionais que utilizam TICs na educação. Essas dez ferramentas são as primeiras da lista das 150 ferramentas mais usadas por esses profissionais. (link visitado em 19/01/2011)

Agora “some” os “Xs” de cada coluna e olhe bem para os números. É muito provável que você não some 10 em nenhuma coluna, e é bem provável que a soma vá diminuindo, de coluna para coluna, no sentido da esquerda para a direita, na medida em que o período de tempo fica maior.

Não desanime com os resultados se você somou poucos “Xs”, há pelo menos mais 140 ferramentas bastante usadas por educadores e que poderiam ser colocadas nessa lista e, francamente, ninguém assinalaria nem metade desse total de 150 ferramentas. Além disso, a cada dia surgem várias novas ferramentas!

Então, se um dia você sonhou em se atualizar de forma a conhecer suficientemente bem todas as ferramentas da Web 2.0, para somente então poder escolher quais usar, esqueça! Isso já não lhe pertence!

Mas então, qual é a solução? Como podemos nos preparar para o uso das TICs e recuperar o tempo perdido? Como podemos usar as TICs com nossos alunos? E, porque deveríamos usá-las?

Moisés

Os dez novos mandamentos

Eu não pretendo lhe enrolar dizendo que a solução é muito particular, que cada um deve procurar o seu caminho, etc. etc. Aqui vai a resposta: é preciso mudar os paradigmas!

Já foi o tempo em que você precisava aprender tudo antes para, somente depois, poder ensinar um pouco do que sabia aos seus alunos, ou seja, para “passar” o seu conhecimento para eles. Os novos paradigmas de que você precisa são bastante diferentes daqueles que você tinha quando aprendeu com seus velhos professores. A seguir vão 10 “novos” (talvez nem tanto) paradigmas de que você precisará para os dias atuais:

1. Aprender enquanto utiliza, e utilizar enquanto aprende!

Você não precisa de um curso para aprender a usar o Twitter, o YouTube, o Google Docs ou as demais ferramentas para, somente depois, poder utilizá-las. Você só precisa começar a usá-las e, então, precisa entender que é utilizando-as que você aprenderá a utilizá-las cada melhor.

2. Aprender errando e corrigindo!

As ferramentas da Web 2.0 e as TICs em geral “admitem o erro como parte da aprendizagem”, por isso não se preocupe em fazer tudo certo já da primeira vez (ou da segunda, ou da terceira). Se você errar, não tem problema, não tem punição, você aprendeu! Se não der certo na primeira vez, tente de novo.

3. Explorar novas maneiras de aprender!

A aprendizagem das novas tecnologias e suas ferramentas não é linear. Não há mais “um passo antes do outro”. Assim como você pode navegar na internet por links (hipertexto!), você também pode aprender em pequenas doses, em passos não seqüenciais, explorando o que lhe parecer melhor naquele momento e criando seu próprio percurso de aprendizagem. Entenda isso como uma hiperaprendizagem.

4. Integrar-se às redes sociais e aprender colaborativamente!

Há livros, manuais, tutoriais e mesmo cursos para se aprender qualquer coisa que você quiser, e todos eles estão disponíveis na internet, mas a forma mais eficiente de aprender algo que você ainda não sabe, e nem sabe onde encontrar a resposta, consiste simplesmente em “perguntar para outras pessoas”! Quer dar seus primeiros passos no Twitter e não sabe por onde começar? Comece perguntando para alguém que já sabe! O conhecimento não está mais apenas nos livros, ele também está nas pessoas!

5. Explorar possibilidades e ser criativo!

Você pode ler muitos livros sobre o uso de certa ferramenta ou TIC, pode assistir a palestras, participar de simpósios, congressos, redes sociais, etc., e trocar idéias com pessoas que já utilizam essa ferramenta ou tecnologia. Tudo isso irá lhe ajudar bastante a aprender sobre o uso das TICs, mas você poderá obter resultados ainda melhores se o tempo todo perguntar para si mesmo coisas como: “o que eu posso fazer com isso? Como eu posso usar o Twitter para mim mesmo? E com os meus alunos?”. Só você conhece melhor que todos os outros a sua realidade, as suas necessidades e os seus próprios desejos.

6. Ser autônomo, não esperar passivamente por ajuda e nem desistir sem antes tentar!

Há pessoas que desistem de algo sem nem mesmo tentar antes. Ficam eternamente à espera de alguém que lhes mostre todos os caminhos, que lhes dê todas as respostas (corretas!). Não seja uma delas. Respostas perfeitas e pessoas que as saibam dar já não existem mais. Se tiver uma idéia que “gostaria que desse certo”, tente implementá-la. Se algumas tentativas falharem, não desista, isso não se chama “fracasso”, chama-se “aprendizagem”!

7. Aprender a ter prazer na aprendizagem!

Assim como os alunos não aprendem facilmente aquilo que eles desgostam, os professores também reagem da mesma forma. Só aprendemos coisas que queremos aprender, coisas que nos dão alguma satisfação, algum prazer, quando a aprendemos. Por isso, se você não aprender a ter prazer em dar uma aula melhor usando um novo recurso, nunca vai aprender a usar o recurso, e nem vai melhorar sua aula. E o que é pior: se você não aprende com prazer, então também não ensina com prazer e, por isso mesmo, não desperta o prazer no seu aprendiz. Tudo o que fazemos apenas por obrigação acaba caindo na vala comum da mediocridade. Ensino é paixão e o professor apaixonado pelo bom ensino é a melhor tecnologia que existe para ensinar.

8. Aprender a compartilhar conhecimento, dúvidas e sonhos!

Não basta aprender, não basta ser capaz de fazer; é preciso “fazer de fato” e compartilhar o conhecimento para que outros aprendam e façam. É preciso sonhar grande! Se você aprendeu como usar o Twitter, experimentou usá-lo e até já colecionou algumas dicas, então é hora de usar o potencial dessa ferramenta para compartilhar! Compartilhar seu conhecimento sobre a ferramenta, mas não só isso, pois agora você poderá compartilhar uma infinidade de outros conhecimentos usando essa ferramenta como instrumento de ensino. Você também faz parte da construção dos novos conhecimentos.

9. Aprender a ensinar o outro a aprender a aprender!

Para “estar atualizado” não é preciso ter “todas” as informações, mas é preciso aprender a encontrá-las, compreendê-las, utilizá-las, modificá-las, expandi-las e compartilhá-las. E é exatamente isso que precisamos ensinar às novas gerações! E não é nada fácil ensinar ao outro aquilo nem nós mesmos sabemos; por isso precisamos aprender a aprender antes de tentar ensinar isso aos nossos alunos. Se você mesmo não se sentir capaz de aprender, nunca vai desenvolver essa competência em seus alunos.

10. Aprender a estar eternamente insatisfeito!

Se você acha que esses “novos” paradigmas vão resolver o seu problema, se acha que eles bastam, ou apenas concorda com eles, sem ressalvas, então, talvez você não tenha entendido nada! Todos esses paradigmas juntos significam apenas que cabe a você compreendê-los, aplicá-los, reformulá-los, ampliá-los, reconstruí-los e, então, compartilhar com outros a “sua versão” deles. Aceite-os apenas como um desafio para que você mesmo possa reescrevê-los e compartilhá-los com outras pessoas.

Na verdade nós não precisamos saber como será o mundo daqui a vinte, dez, cinco, ou mesmo três anos, para sabermos o que e como ensinar aos nossos alunos. Nós já sabemos tudo o que é preciso saber: é preciso ensinar os alunos a aprenderem! E eles precisarão aprender sempre; precisarão descobrir soluções para problemas que nem eles, nem nós, imaginamos que surgirão um dia. Eles terão que agir no tempo deles exatamente como nós precisamos agir agora, diante de um mundo que jamais sonhamos, onde as “inovações” são muito mais rápidas do que nossa capacidade de compreender e dominar todas elas, e onde, mesmo assim, precisamos ser atores e não meros espectadores.

Jetsons x Flintstones

As coisas mudam…

É curioso notar aqui que nossos alunos já assimilaram grande parte desses “novos” paradigmas, já utilizam grande parte das ferramentas que ainda desconhecemos, mantêm-se abertos às novidades, experimentam, tentam, erram e tentam de novo, buscam ajuda e compartilham aquilo que sabem. Enquanto isso, muito de nós, seus professores, teimamos em rejeitar as novas possibilidades que as TICs nos oferecem ou, simplesmente, as ignoramos. Nossos alunos estão passando a perna em nós, descaradamente!

Assim como na construção dos currículos para nossas aulas, nós, professores, precisamos também fazer escolhas sobre nosso próprio currículo, e precisamos entender que ele estará eternamente em construção. Integrar-se às TICs e incorporá-las em nossas práticas cotidianas e pedagógicas é parte do nosso próprio currículo atual, e já não podemos contar com nossos velhos professores para nos ajudar com isso!

Uma das possibilidades é nos fazermos de tontos e fingirmos que nada está acontecendo de novo, que nada está mudando, que podemos ser sempre os mesmos e o mundo não se importará conosco da mesma forma como parecemos não nos importar com ele. A outra é nos lançarmos ao desafio do novo, ao grande desafio de aprendermos como se aprende nesse novo mundo, para podermos, somente então, ensinar nossos alunos a aprenderem a aprender.

Referências na Internet:

 

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. As TICs, a Escola e o Futuro, Professor Digital, SBO, 20 jan. 2011. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2011/01/20/as-tics-a-escola-e-o-futuro/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Professor X Inovação: uma batalha perdida?

10/06/2010

Há duas décadas atrás havia uma pergunta bastante frequente quando se falava em computadores e novas tecnologias: “será que um dia os computadores vão substituir os professores?”. Era o início da chegada dos computadores de forma massiva e, assim como ocorreu com o surgimento do rádio, e depois da televisão, do videocassete e tantas outras inovações, eram muitas as dúvidas sobre a possibilidade do professor perder a sua “função” e vir a ser substituído por uma dessas maquinetas. Mas uma coisa era tida como certa por quase todos: apesar das dúvidas, havia no fundo a certeza de que o professor jamais seria substituído por nenhuma máquina ou sistema tecnológico.

Estávamos errados! O tempo passou e, de fato, o professor daqueles tempos perdeu mesmo sua “função” para o computador e para as novas tecnologias de informação e comunicação que foram surgindo. Ainda temos professores nas escolas, e continuaremos a tê-los por muito tempo (pelo menos pelo tempo que durar a escola formal), mas a “função” que esse professor tinha há 20 anos atrás já amarelou e se apagou como as fotos antigas, e hoje já pode ser dispensada.

Alguns professores mudaram sua forma de atuação e “evoluíram junto com a sociedade”, mas aquele professor cuja metodologia de hoje é a mesma de 20 anos atrás, esse já pode ser substituído pelos computadores com grande vantagem para o aluno e para a sociedade. Dito dessa forma pode até parecer cruel demais, ou mesmo um “exagero”, mas essa é a dura realidade que vemos nas escolas reais.

Há 20 anos atrás a escola era essencialmente conteudista, propedêutica, excludente, hierárquica e mecanicista. O professor era uma figura adaptada a seu tempo, porque a escola de então tinha as mesmas características fundamentais da escola de quando ele, professor, esteve sentado em seus bancos, e de quando seus professores a frequentaram. Na verdade, a escola como instituição formal de ensino, e o professor, como figura central no processo de ensino e aprendizagem, tem mantida suas características principais desde que foi trazida da Europa pelos jesuítas, ainda no século XVI.

Eu aprendi a ser professor com os meus professores. Os meus professores aprenderam com os professores deles, que aprenderam com os professores deles, que aprenderam… E a regressão continua quase “ad infinitum“. Professores não aprendem a ser professores apenas na universidade, em cursos de pedagogia ou licenciaturas, ou lendo “teorias educacionais”. Professores aprendem a ser professores com todos os seus próprios professores, desde a primeira série escolar até o último ano da faculdade (ou da pós-graduação). Professores reproduzem não apenas conhecimentos curriculares, mas também técnicas, comportamentos, atitudes e ideologias que assimilaram durante sua formação. Professores são, essencialmente, réplicas ligeiramente modificadas de outros professores. E, se não fosse assim, como teriam se tornado em professores?

É certo que com o passar de muitos anos o professor vai adquirindo sua própria personalidade pedagógica, da mesma forma que adquire sua personalidade individual, em uma eterna luta para superar aquilo que ele mesmo julgava falho nos modelos de professores que ele teve quando era aluno. Mas, se por um lado essa é uma atitude consciente do professor que busca sua identidade própria, por outro, há milhares de comportamentos inconscientes que apenas reproduzem os modelos que ele teve durante sua própria formação. O professor que não toma consciência da necessidade de mudar sempre, este acaba não mudando quase nunca.

O que nós, professores, fazemos hoje de forma diferente da maneira como nossos professores fizeram a seu tempo? O que podemos julgar inovador, moderno, ajustado aos novos tempos e benéfico para nossos alunos? Quantos somos realmente “originais”? Nossos alunos são diferentes a cada ano, o mundo é diferente a cada novo dia, e nossa escola? E nós, professores?

A arquitetura dos prédios escolares, a disposição das salas de aula, o quadro negro (ou branco, ou verde, pouco importa), o giz, a caderneta, o caderno de anotações, as provas e a forma de avaliação, os conteúdos curriculares, a dinâmica das aulas, as cadeiras enfileiradas, a relação hierárquica com os alunos…. O que mudou na escola? O que mudou em nossas práticas pedagógicas, em relação aos nossos próprios professores?

Para alguns de nós, professores, há uma percepção clara de que muita coisa mudou. Mas mudou no mundo, não necessariamente em nós mesmos. Vemos uma escola complexa, alunos complexos, uma sociedade complexa, uma tecnologia complexa… Mas não nos vemos nessa complexidade. Nem sempre queremos ser parte dessa complexidade. Ainda pensamos “simples”, de forma “linear”, somos pautados por exemplos de pensar e agir que foram os únicos que tivemos. Então tudo nos parece estranho e complexo. Por isso tendemos a julgar que tudo piorou: porque não compreendemos, e porque tememos e desgostamos de tudo aquilo que não somos capazes de compreender.

É nesse contexto que “perdemos nossa função”. A escola atual, os alunos atuais, o mundo atual e suas múltiplas complexidades já não precisam mais de um professor “simples”, “linear” e limitado a reproduzir apenas aquilo que já foi reproduzido nele mesmo por seus próprios professores. Devemos muito aos nossos professores, sem dúvida, mas devemos mais ainda aos nossos alunos. Nossos professores estavam certos, ao tempo deles, e nossos alunos estão certos agora, no tempo que a eles pertence. O erro, que muitas vezes dói em nós ao ser percebido, a ponto de fazermos tudo para não percebê-lo, é que muitos de nós ainda lecionamos como nossos pais, avós e bisavós pedagógicos.

O computador e as novas tecnologias não poderão nunca substituir o professor como figura central do processo de ensino e aprendizagem, mas certamente já pode exercer a “função” que muitos professores exerciam há 20 anos atrás e que alguns de nós ainda tenta exercer hoje: “servir de depósito de informações”. A internet é, com certeza, um repositório de informações e respostas prontas muito maior do que qualquer professor individualmente.

Se pudéssemos traduzir o pensamento que nossos alunos expressam em suas atitudes de pouco caso, desinteresse e mesmo de desilusão com a escola, estabelecendo um paralelo entre o que fomos, nós professores, e o que são eles, os nossos alunos de hoje, talvez encontrássemos algo como: “Já não precisamos de professores que apenas tragam as informações para nós, o Google é mais rápido e eficaz nessa função. Não precisamos mais de lousa, ou mesmo de livros, para apenas copiar textos e depois reproduzir em provas e trabalhos, pois um simples CTRL+C seguido de um CTRL+V faz isso por nós. Não podemos ficar 50 minutos oferecendo nossa atenção integral a um professor que faz um monólogo triste sobre um tema que não nos interessa; nós queremos mais ação, mais rapidez, mais objetividade, mais interatividade, mais mobilidade, mais socialização, mais desafios. Já não tememos vocês, professores, e não compreendemos o significado de ‘hierarquia'; não queremos ficar enfileirados o tempo todo e nem presos às nossas cadeiras, ou trancados em nossas salas. Enfim, não queremos ser como vocês foram“.

A opção pelo uso pedagógico dos computadores e das novas tecnologias não é, e jamais deve ser entendida como, simplesmente “uma nova maneira de maquiar velhas práticas educacionais”, mas sim uma opção ideológica por romper com essas práticas. Não se pode pensar no uso das novas tecnologias sem pensarmos na mobilidade da informação, mas também, na mobilidade dos alunos. Não se pode pensar no uso dos computadores e da internet sem termos em mente que eles implicam em novas dinâmicas de aula, novas abordagens curriculares e novos currículos, novas práticas de ensino, uma nova didática e novas regras de convivência social no ambiente da escola.

As TICs não cabem no espaço pedagógico reduzido e pobre da velha escola, elas precisam de uma nova escola, de um novo professor. Talvez por isso seu uso tenha sido um fracasso em muitas escolas. As TICs e os alunos já vivem uma sinergia natural fora dos muros da escola; não se pode inseri-las na escola apenas como uma muleta para uma pedagogia capenga. A escola tornou-se uma ilha de exclusão, um museu pedagógico de velharias didáticas. E esta ilha está afundando rapidamente no meio do oceano das novas tecnologias, novas metodologias de aprendizagem e novas práticas didáticas.

O professor que atua hoje como atuava há 20 anos atrás já perdeu a batalha contra as “modernizações” e já pode ser considerado um dinossauro pedagógico em extinção. Tudo o que ele pode fazer por seus alunos é ensinar história: a história de como éramos quando o mundo era muito diferente do que é hoje e ainda mais diferente do que será quando seus alunos já estiverem fora da escola formal. Qualquer computador conectado à internet pode dar mais oportunidades de aprendizagem ao aluno atual do que esse professor.

A causa primeira que levou esse professor ultrapassado a perder a batalha que todos pensávamos ser imperdível, a ponto de poder ser substituído por máquinas que não pensam, não foi apenas o descaso para com as novas tecnologias digitais, a preguiça que o impediu de continuar aprendendo sempre, ou toda a lista de dificuldades que esse mesmo professor aponta como razões para seu fracasso. O que tornou esse professor ultrapassado foi a falta da modernização de sua  tecnologia educacional. As TICs podem não ser a solução para os problemas desse professor, mas certamente são parte importante dos problemas que ele não soube enfrentar.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Professor X Inovação: uma batalha perdida?, Professor Digital, SBO, 10 jun. 2010. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2010/06/10/professor-x-inovacao-uma-batalha-perdida/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Pesquisa escolar na Internet: Ctrl+C & Ctrl+V versus Cópia Manuscrita

31/01/2010

Classe tradicional

Enquanto as redes se desenvolvem com computação quântica e teoria do Caos, a escola insiste em querer manter uma ordem que nunca existiu.

Este é mais um relato de case sobre como práticas obsoletas tendem a resistir em ambientes onde os novos paradigmas de aprendizagem introduzidos pelo uso das TICs não são bem compreendidos pelos educadores e sobre como e porque isso deve ser mudado.

A situação em questão deu-se na escola do meu filho, que agora cursa a quarta série de nove anos (antiga terceira série). A escola é uma escola particular de uma cidade média do interior paulista que atende a um público das classes C e D (classe média e média baixa) e todas as séries, do Maternal ao Ensino Médio, incluindo alguns Cursos Técnicos. É uma escola grande e tradicional, porém bem cuidada e com uma boa qualidade de ensino comparada à média das escolas paulistas.

Embora a escola seja tradicional e não tenha nenhum enfoque significativo no uso pedagógico das TICs, como muitas outras, ela oferece algumas “aulas na sala de informática”, mas são raros os professores que utilizam as TICs de forma significativa em suas práticas ou com seus alunos e a escola não oferece suporte para esse uso em sala de aula. Assim, o perfil pedagógico dos professores e de suas aulas é o perfil tradicional de uso da lousa e do giz como suas principais ferramentas tecnológicas.

Este case trata da forma truncada e superficial como a pesquisa na Internet é vista pelo corpo docente (e pela escola) e sobre como é possível propor mudanças nessas concepções a fim de se mudarem também algumas práticas pedagógicas que visem promover uma melhor adequação da escola à realidade do aluno atual.

Papiro antigo.

Papiro antigo. Podemos copiá-lo na íntegra sem que, no entanto, saibamos o significado de nenhuma de suas palavras.

Resumidamente, o problema discutido aqui pode ser descrito como se segue: “A professora da quarta série de nove anos, em reunião de início de ano, anuncia que durante o ano serão solicitadas algumas pesquisas aos alunos e que estes devem devolver suas produções em papel, com textos copiados à mão”. A justificativa para tal proposta é que “os alunos tendem a copiar e colar integralmente os textos que encontram na Internet”.

Embora essa metodologia possa parecer que faça algum sentido e sua justificativa pareça ser “bem intencionada”, e assim foi compreendida pela quase totalidade dos pais presentes à reunião, veremos a seguir que esse tipo de atividade de pesquisa escolar, onde se usa a Internet como uma das fontes de informação, não condiz com a metodologia proposta (cópia à mão e apresentação em papel) e que, essa metodologia de cópias à mão não apenas é obsoleta como também é sensivelmente prejudicial à aprendizagem dos alunos.

O problema da pesquisa escolar na Internet

Já dispomos de milhares de publicações, livros, artigos e papers tratando do uso da Internet como ferramenta de pesquisa e é um consenso entre educadores que utilizam as TICs que a Internet é, sem dúvida, a maior fonte de pesquisa disponível de forma acessível aos alunos. Portanto, não pretendo focar aqui na utilidade da Internet como fonte de pesquisa, o que estou dando como fato concreto, e sim nas mudanças do percurso de aprendizagem dos alunos ao utilizarem a Internet como meio de obtenção de informações e na necessidade de compreender essas mudanças para ensinar melhor e permitir que o aluno aprenda mais.

Toda pesquisa é, em sua essência, uma coleta de informações a partir das quais se podem produzir resultados variados, que vão desde o uso imediato da informação coletada até a produção de novas informações e novos conhecimentos a partir da análise, desconstrução e reconstrução dos conhecimentos obtidos com a pesquisa.

A pesquisa escolar, quando voltada aos alunos do Ensino Básico e, em especial, aos alunos do Ensino Fundamental, visa objetivos bastante amplos, dos quais, para efeitos ilustrativos, relaciono apenas dez objetivos gerais e mais cinco relativos ao uso das TICs:

  1. desenvolver atitudes autônomas de busca de informações;
  2. desenvolver a habilidade de usar diferentes meios de pesquisa (livros, revistas, entrevistas, experimentações, Internet, CDROMs e muitas outras fontes);
  3. desenvolver a habilidade de leitura e interpretação de textos;
  4. expandir o universo textual do aluno, colocando-o diante de diferentes formas de linguagem (textos com diversas formas de linguagem, figuras, gráficos, ilustrações, imagens, filmes, etc.);
  5. desenvolver a capacidade de análise e síntese das informações (respeitado o nível de desenvolvimento cognitivo da série e faixa etária do aluno);
  6. desenvolver habilidades artísticas relativas à apresentação gráfica dos trabalhos de pesquisa produzidos, fazendo-se uso de imagens e ilustrações diversas, bem como de programas e instrumentos de produção artística;
  7. desenvolver a habilidade de escrita, reescrita e produção textual;
  8. desenvolver habilidades de comunicação ao apresentar os resultados da pesquisa;
  9. desenvolver habilidades de trabalho colaborativo (pesquisando-se em grupos e contando com apoio de adultos);
  10. trabalhar questões de ética e cidadania relativas à propriedade intelectual;
  11. desenvolver habilidades no uso das TICs (computadores, Internet, gravadores, filmadoras e outras tecnologias de pesquisa, armazenamento de informações, tratamento de textos e imagens, etc.);
  12. desenvolver habilidades de pesquisa usando-se bancos de dados não classificados (uso da Internet);
  13. desenvolver habilidades de comunicação digital (produzir textos, apresentações, filmes e outros materiais em mídias digitais, trocar informações e colaborar por meios digitais);
  14. desenvolver habilidades de publicação digital (publicar em blogs, comunidades, galerias de imagens, etc.);
  15. desenvolver habilidades de integração de diferentes mídias (uso de multimídia: texto,som e imagem).
Google

Os “buscadores” são parte de uma revolução gigantesca na forma de se acessar informações dispersas por todo o planeta.

Embora o universo de aprendizagens relativo à pesquisa escolar seja imenso, poucos são os professores que têm consciência da maioria dessas possibilidades de aprendizagem e, portanto, poucos planejam pesquisas voltadas a essas aprendizagens – principalmente as cinco últimas listadas, que dizem respeito ao uso das TICs. O resultado que normalmente se vê, e se critica, são trabalhos de pesquisa que consistem basicamente nos processos de Ctrl+C & Ctrl+V, ou seja, na cópia e cola de textos ou excertos de documentos e imagens que depois são impressos e entregues ao professor.

Vendo-se diante do problema de receber trabalhos de pesquisa que são meras cópias, muitos professores tentam impedir que o aluno faça uso do computador e da Internet e, nessa tentativa, solicitam que os alunos lhes entreguem os trabalhos “escritos à mão”, como se “escrever à mão” fosse alguma espécie de garantia de que o aluno fez o trabalho ao invés de apenas copiá-lo. Argumentam também que, tendo que copiar à mão, o aluno é obrigado a ler o texto que está copiando. Esquecem-se, esses professores, de que “copiar à mão” é tão somente uma forma rudimentar de cópia e que todos nós podemos copiar textos escritos em línguas que não compreendemos sem cometer nenhum erro gramatical e sem compreender absolutamente nada do que estamos copiando.

As origens do problema

Monges copistas

Monges copistas (Gravura do século XIII). Sugestão de filme sobre o tema: “O nome da Rosa”.

Com o advento das tecnologias digitais, e principalmente da Internet, as queixas sobre pesquisas escolares copiadas na íntegra parecem ter aumentado muito e a facilidade com que se pode copiar textos integral ou parcialmente dá-nos a idéia de que a Internet criou uma cultura de copiar e colar que até então não existia. Mas isso não é verdade. A reprodução de textos na íntegra ou de excertos reorganizados em um novo texto é uma prática que remonta o advento da escrita.

Os alunos sempre copiaram textos nas pesquisas escolares e os trabalhos que eram antes entregues com cópias à mão não possuíam um conteúdo melhor do que os que são hoje copiados eletronicamente. Na verdade os trabalhos copiados eletronicamente são bem mais ricos em informações e conteúdos do que os de “antigamente” porque a mídia digital permite agregar mais textos e imagens com um custo de elaboração muito menor.

A única diferença entre os trabalhos copiados antes da era da Internet e os trabalhos copiados agora está no pressuposto altamente questionável de que ao fazer uma cópia “à mão” o aluno aprende aquilo que copia. Esse pressuposto é questionável porque a prática da cópia manuscrita não implica em aprendizagem do conteúdo que se copia e a leitura empregada em uma atividade de cópia não tem o caráter de busca de compreensão do texto copiado.

Pesquisas escolares apresentadas como simples cópias de textos, sejam eles obtidos na Internet ou em algum livro da biblioteca escolar, originam-se de uma série de fatores que estão diretamente ligados à atuação do professor. Dentre eles cito alguns:

  1. Falta de planejamento pedagógico do professor. Como em qualquer atividade pedagógica, é preciso ter claros os objetivos, recursos, métodos, formas de avaliação e redirecionamentos futuros. Pesquisas precisam ser “planejadas como projetos” e não apenas “solicitadas como atividades”;
  2. Falta de clareza na proposta de pesquisa e falta de orientação adequada aos alunos sobre os procedimentos envolvidos em uma pesquisa escolar de forma geral. Os alunos precisam ter claros os procedimentos que terão de empregar para executar a pesquisa. Isso equivale a produzir e distribuir inicialmente aos alunos um rubrica de avaliação do trabalho de pesquisa solicitado a eles;
  3. Forma pobre com que a pesquisa é proposta, geralmente como uma “coleta genérica de dados”. Trabalhos de pesquisa são bem mais interessantes quando propostos como “caça ao tesouro”, “webquest”, “desafios” e “problemas abertos” que demandem a pesquisa proposta como ferramenta de resolução e não como produção final;
  4. Falta de disposição do professor para analisar as produções de maneira crítica e construtiva, resumindo-se apenas ao trabalho de “coletar e classificar a pesquisa”. Se, por um lado o aluno usa do artifício de copiar e colar, por outro, muitos professores apenas “pesam o trabalho” e o avaliam pelo número de páginas ou pela apresentação visual, sem realmente analisarem a pesquisa em si, o roteiro de produção do aluno e, principalmente, a efetividade da aprendizagem decorrente da pesquisa;
  5. Abandono intelectual do aluno durante o processo de pesquisa. Para muitos professores o aluno deve ser capaz de fazer, de uma única vez e sem apoio do professor, uma pesquisa que retorne exatamente o que o professor deseja e da forma como ele gostaria que a pesquisa fosse feita. Uma pesquisa escolar é um processo que precisa ser assistido, apoiado e redirecionado enquanto ocorre e não apenas avaliado depois de finalizado.

Portanto, a origem do problema da metodologia de copiar e colar empregada pelos alunos não está em uma “falha de caráter dos alunos”, na sua “preguiça de ler e resumir” ou na “facilidade com que se pode copiar e colar textos inteiros ou excertos e imagens da Internet”, mas sim na incapacidade do professor de propor, apoiar, acompanhar e participar com o aluno de pesquisas onde a cópia pura e simples não atenda aos requisitos previamente definidos na tarefa.

Se o professor quiser ensinar ao seu aluno sobre energia solar e seu uso e, para tanto, pedir ao aluno que simplesmente “faça uma pesquisa sobre energia solar”, ele retornará com uma grande pilha de papéis que podem não ter nenhuma relação com a informação que se gostaria que ele tivesse acessado e compreendido, mas que certamente terão alguma vaga relação com o tema “energia solar e seus usos”. Mas se o professor propor ao aluno que construa um “fogão solar” ele certamente fará pesquisas sobre energia, energia solar, fogões, usos da energia, etc., e, possivelmente, terá que conversar com outras pessoas, solicitar mais ajuda, coletar dados, resumir, ler e compreender, obter recursos, criar um protótipo e ser capaz de apresentá-lo, explicando seu uso e a relação entre a energia solar e o aparato tecnológico propriamente dito. Para isso tudo ele consultará a Internet e talvez copie e cole muitas coisas, mas ao final ele não retornará simplesmente com uma pilha de papéis cujo conteúdo ele mesmo desconhece.

Observe que no exemplo acima a pesquisa é tratada como um “processo” e não como um fim em si mesma.

Os novos percursos de aprendizagem com o uso das TICs

A solução proposta pela professora do meu filho, que consistia em “exigir que o aluno copiasse sua pesquisa à mão” é uma das muitas soluções que nada solucionam e sobre as quais pouco se reflete. Além dessa, também há outras soluções igualmente esdrúxulas, como fazer uma prova para comprovar que o aluno aprendeu (que leva o aluno ao duplo fracasso se ele fracassou na pesquisa) ou apresentar trabalhos de pesquisa individuais e “diferentes” dos trabalhos dos colegas que pesquisaram a mesma coisa (que se baseia no pressuposto errado de que todas as pesquisas sobre um mesmo tema devem resultar diferentes).

Para entender porque a solução proposta pela professora do meu filho é uma péssima solução é preciso entender o processo pelo qual meu filho, e o aluno da atual geração digital, faz uma pesquisa escolar usando as tecnologias digitais e a Internet. Vou tentar exemplificar esse processo a partir de um exemplo real ocorrido no ano passado, quando sua professora de inglês solicitou que fosse feita uma pesquisa sobre os lugares pitorescos de New York. Para fazer essa pesquisa foram seguidos os passos abaixo (que eu acompanhei pessoalmente durante todo o processo):

1 – Compreender o que significa “lugar pitoresco” e saber identificar um deles quando o encontrar. Para isso meu filho usou um dicionário e a Internet e descobriu que se tratava dos “pontos turísticos” de New York. O dicionário lhe deu o significado da palavra e a busca na Internet lhe mostrou alguns exemplos desses lugares. Usar dicionários (impressos ou digitais) e mecanismos de busca na Internet para obter o significado das palavras e exemplos de sua ocorrência é parte natural do “método de aprendizagem da geração atual”;

2 – Criar um documento de edição de texto (ou apresentação de slides) em branco, onde serão copiados os textos, excertos, imagens e outros dados obtidos na Internet. O uso de editores de texto (como o Word ou o editor do OpenOffice) para armazenar, organizar e editar as informações obtidas, para que depois se possa formatar o trabalho final digitalmente, é um recurso imprescindível hoje em dia e substitui com inúmeras vantagens o procedimento de fotocopiar, ou copiar à mão, todo o material;

3 – Pesquisar em diversas fontes as informações desejadas. Meu filho pesquisou em vários sites e páginas da Internet, buscou imagens e até mesmo vídeos. Além disso ele também pesquisou em enciclopédias e revistas impressas. As informações digitais consideradas “úteis” foram recortadas, copiadas e coladas no documento de edição de texto. As informações encontradas em impressos serviram de apoio para busca de informações digitais correspondestes. O uso de informações digitalizadas, em detrimento daquelas impressas em papel, deve-se a maior facilidade de manipular informações digitais nos dias de hoje.

4 – Selecionar e organizar as informações encontradas. Muitas informações encontradas são redundantes, algumas fontes são mais completas, algumas imagens são mais atraentes, etc. Toda a informação encontrada foi pré-selecionada e organizada por critérios de classificação que demandam comparações e análises. O uso de um documento eletrônico de texto permite inserir, organizar, excluir e modificar textos, figuras e layouts com uma facilidade que somente essa mídia permite.

5 – Editar, formatar e criar uma versão publicável do documento de resumo da pesquisa. Como a professora do ano passado solicitou que o trabalho fosse apresentado em uma “cartolina”, a formatação do documento de resumo da pesquisa procurou criar páginas que pudessem ser impressas e então coladas na cartolina. Documentos eletrônicos não deveriam ser impressos, salvo raras exceções, e deveriam ser apresentados com projetores multimídia, lousas digitais ou mesmo na Internet para acesso a partir da rede.

É evidente que meu filho, então com oito anos de idade, não tem ainda autonomia e habilidades para executar sozinho todos esses passos, e principalmente as etapas que envolvem análise, reescrita no padrão formal da língua e formatação final do documento. É nesse ponto que eu, como pai, interfiro procurando ajudar no desenvolvimento dessas habilidades. No entanto essa não deveria ser uma função apenas minha, mas sim da escola! É à escola que cabe preparar os alunos para o uso dos recursos tecnológicos de que eles dispõem na sociedade e que podem auxiliá-lo na realização de tarefas como essa. Em nenhum outro lugar fora da escola se pede às pessoas que façam um trabalho de pesquisa e o apresente em uma cartolina!

Geração Digital

A geração digital lida com naturalidade com o hipertexto e as TICs.

Os alunos da geração digital, como o meu filho, não percorrem os mesmo caminhos de aprendizagem que seus professores percorreram. Não há sentido ou propósito pedagógico em pedir a eles que copiem à mão um texto que podem copiar teclando Ctrl+C e Ctrl+V. Eles não fazem essas cópias digitais por preguiça, e sim porque são inteligentes e é uma grande burrice desperdiçar minutos preciosos da vida copiando à mão aquilo que se pode copiar em pouco segundos apertando-se umas poucas teclas.

Por outro lado, apesar dos aparatos e facilidades tecnológicas atuais, as aprendizagens realmente relevantes continuam sendo as mesmas de antes da era digital, apenas acrescida agora de outras aprendizagens que permitem o uso proficiente das novas tecnologias. Solicitar aos alunos que façam trabalhos de pesquisas copiados à mão não supre as necessidades de aprendizagem que já existiam antes e impedem as novas aprendizagens sendo, portanto, um duplo erro.

O resultado final da pesquisa feita pelo meu filho no ano passado, e que estou tomando como exemplo aqui, foi a produção de uma folha de cartolina que deveria então ser fixada na parede da classe. Poderia ter sido bem melhor se o resultado final fosse “mostrado em um filme” ou em uma apresentação de slides multimídia, mas mesmo sem se chegar a esse nível de exigência de uso das TICs, as aprendizagens relevantes ocorreram de forma bastante significativa. Percebi que depois dessa pesquisa a capacidade de busca de informações na Internet e de lidar com diversas informações conflitantes, redundantes ou irrelevantes melhorou bastante.

Mudando paradigmas

No caso atual o desfecho foi bastante positivo. Logo após a reunião com a professora, que pareceu não compreender muito bem que sua atitude é anti-pedagógica e prejudicial aos alunos, reuni-me com a coordenação da escola e, depois de expor os argumentos que exponho nesse artigo, a coordenação decidiu reorientar o corpo docente com relação ao uso das TICs na escola. Porém, se não fosse pela minha intervenção e pela decisão da coordenação da escola de promover o uso pedagógico das TICs, a situação seria bem diferente.

Cartoon Google

Muitos professores sentem-se em “crise existencial” diante das TICs. É preciso se inserir na nova realidade para não se sentir um “excluído do mundo”.

Um número muito grande de professores desconhece os novos paradigmas de aprendizagem baseados no uso das novas tecnologias digitais e ignoram o fato de que a aprendizagem dos seus alunos não se dá apenas dentro do ambiente de sala de aula. A professora do meu filho nesse ano é uma moça ainda bem nova e só tem cinco anos de experiência no magistério, o que a colocaria dentro de um universo de professores que já vem fazendo uso das novas tecnologias em sua própria aprendizagem. Porém, fazer uso das novas tecnologias não é garantia, por si só, da compreensão correta do seu potencial pedagógico. Mesmo professores que já são eles mesmos da era digital se vêm ainda presos a práticas antiquadas e a paradigmas e mitos que vem sendo reproduzidos geração após geração de novos professores.

O papel da gestão escolar nesse momento de mudança de paradigmas é fundamental, pois é a ela e, em especial, à coordenação pedagógica, que cabe a responsabilidade pelo aperfeiçoamento do corpo docente, a disponibilização de recursos e, principalmente, a orientação pedagógica adequada para o uso proficiente não apenas das novas tecnologias, mas também das novas metodologias de ensino e aprendizagem.

Investir pesadamente nessa mudança de paradigmas é papel de todos nós. Ao discutir isso com a coordenação pedagógica da escola do meu filho eu desempenhei vários papéis, inclusive o meu papel de educador que não se extingue quando saio da minha própria sala de aula. Mas meu papel como pai e cidadão, que exige uma escola adequada às necessidades dos alunos atuais, talvez tenha sido o mais importante para a conclusão desse case.

Educadores, formadores de opinião, gestores de políticas públicas e todos os cidadãos precisam se empenhar em exigir das escolas práticas pedagógicas e metodologias mais afinadas com os tempos atuais. Não podemos permitir que a escola continue sendo uma instituição à parte da sociedade, como se fosse uma espécie de dinossauro não extinto vivendo em um mundo perdido e distante da realidade. As TICs não são apenas uma opção a mais na Educação, elas são parte de uma realidade onde todos nós, inclusive a escola, estamos inseridos. Não se pode ignorá-las e, sobretudo, não se pode dar continuidade a práticas pedagógicas que dificultem a apropriação do uso dessas TICs pelos alunos. Por isso é preciso investir pesadamente na capacitação dos professores que ainda não compreendem esses novos paradigmas. A própria escola precisa refletir e aprender se quiser produzir alunos reflexivos e capazes de aprender a aprenderem de forma autônoma.

Sugestões de leituras na Internet:

  1. As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação e a Pesquisa Escolar: O artigo aborda a pesquisa baseada em fontes pessoais, bibliográficas e eletrônicas e as formas de procedimentos dos alunos para a realização do trabalho.
  2. A Pesquisa Escolar em Tempos de Internet: A problemática da pesquisa da e para a escola. As autoras buscam compreender, através do discurso de adolescentes entrevistados, a construção/produção da pesquisa escolar na Internet, buscando a sua funcionalidade no contexto do ensino e o seu papel na constituição do sujeito leitor-escritor. Com suporte na teoria enunciativa da linguagem de Bakhtin, elas procuram analisar a questão da autoria da pesquisa escolar, focalizando-a em sua dimensão textual/discursiva.
  3. A Internet na pesquisa escolar: um panorama do uso da web por alunos do ensino fundamental: Estudo de pesquisadores da UFMG que tem como objetivo verificar o uso da internet por alunos do ensino fundamental, com ênfase nos seus trabalhos escolares.
  4. Mudanças geradas pela Internet no cotidiano escolar: as reações dos professores: Análise de 20 entrevistas realizadas com professores do ensino Fundamental e Médio de escolas particulares do Rio de Janeiro. Respostas, reações, comentários e atitudes indicam que tais mudanças os têm atingido profundamente e feito enfrentar dolorosos conflitos internos.
  5. A Internet como ambiente de pesquisa na escola: Último capítulo do livro “novas tecnologias na educaçao: reflexoes sobre a pratica” de Luis Paulo Leopoldo Mercado, disponível para leitura no Google Livros.
  6. Oficina de Pesquisa na Internet: Uma oficina de formação de professores desenvolvida pela equipe do Educarede visando capacitar professores para o uso da Internet como fonte de pesquisa e, assim, possibilitar que esses professores capacitem seus próprios alunos para o uso proficiente da Internet como meio de pesquisa.
  7. Dez conselhos para evitar o “copiar e colar”: Apresentação de slides disponibilizada no blog Informática Educacional e Meio Ambiente da professora Miriam Salles (que fez a tradução da apresentação para o português).

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Pesquisa escolar na Internet: Ctrl+C & Ctrl+V versus Cópia Manuscrita, Professor Digital, SBO, 31 jan. 2010. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2010/01/31/pesquisa-escolar-na-internet-ctrlc-ctrlv-versus-copia-manuscrita/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Aprendendo a aprender com as TICs

11/02/2009

“Um brevíssimo estudo de caso”

Este artigo é um breve resumo do que poderíamos chamar de “um estudo de caso do paradigma de ‘aprender a aprender’ no contexto das TICs e da web 2.0”.

Os fatos relatados transcorreram no segundo semestre de 2008 e envolveram duas turmas de professores de escolas municipais de duas cidades paulistas, cada turma com uma média de 15 professores de diferentes escolas, todos envolvidos em um projeto de capacitação para o uso pedagógico dos computadores e da Internet.

Embora as duas turmas fossem compostas por professores com real interesse em aprender a usar a tecnologia para a melhoria da qualidade do ensino em suas escolas, em ambas havia ainda uma grande quantidade de professores bastante inseguros sobre o uso dos computadores e com forte tendência ao perfil do “Professor Tradicional”, bem distante do perfil do “Professor Digital” ou do “Professor Web 2.0”. Como esses dois perfis já estão descritos nos respectivos artigos (clique nos links para lê-los), vou tentar descrever resumidamente o perfil do “Professor Tradicional” no que diz respeito à maneira como ele vê e interage com as tecnologias digitais contemporâneas.

O “Professor Tradicional”, ou “Professor Web 0.0” é aquele que, dentre outras, tem as características a seguir:
1.    Não aperta nenhuma tecla sem antes perguntar se pode ou deve e sem que saiba de antemão exatamente o que acontecerá após apertar a tecla;
2.    Preferencialmente gosta de trabalhar em duplas diante do computador, tendo sempre um parceiro que manipule a máquina para ele;
3.    Anota todas as instruções em seu caderno, passo a passo, sobre que ícones clicar, em que sequência e em que contextos e evita a todo custo fazer qualquer coisa diferente do que foi anotado;
4.    Qualquer mudança no contexto faz com que ele fique longamente olhando para a tela do computador aguardando que o instrutor apareça lá para lhe dizer o que fazer então;
5.    É um excelente professor, tem profunda experiência profissional, tem desejo de inovar, mas não tem a menor idéia de por onde deva começar; acha mesmo que é “difícil” fazer o que ele já sabe fazer usando agora as novas ferramentas tecnológicas;
6.    Desiste, sem novas tentativas, sempre que não consegue completar uma tarefa ou quando não encontra a solução anotada em seu caderninho;
7.    Perde regularmente suas senhas e nomes de usuário, ou anota-as erroneamente quando faz cadastros em sites ou para obtenção de e-mails; entende que cada atividade é desvinculada das demais e que senhas e cadastros servem apenas momentaneamente, estritamente para os propósitos da atividade atual;
8.    Prefere tratar qualquer assunto por telefone, mesmo quando o assunto envolve a leitura e o envio de e-mails; prefere aguardar dias para que lhe tragam a resposta a um problema do que tentar obtê-la por si mesmo;
9.    Acredita que seus alunos sejam especialistas em computação e que passem muitas horas diárias “estudando o computador”; apesar disso acha que esses alunos usam mal o computador e que deveriam usá-los melhor;
10.    Tem computador em casa, mas quem usa são os filhos. Admira a capacidade destes em usar o computador, mas têm vergonha de pedir ajuda a eles.

Dado o perfil das turmas, e diante da necessidade de mudar alguns hábitos que pudessem mudar o perfil dos professores, foi-lhes proposta uma atividade com a seguinte comanda: “Acessar o site http://www.toondoo.com, realizar o cadastro no site e criar uma tira (história em quadrinhos com até três quadrinhos) sobre um tema de livre escolha, publicando-a no próprio site”.

O site "ToonDoo" é na verdade uma ferramenta Web 2.0

O site “ToonDoo” é na verdade uma ferramenta Web 2.0

Passada a comanda sentei-me confortavelmente em uma cadeira e passei apenas a observar o trabalho dos professores. Rapidamente alguém observou: “o site está em inglês”. Seguiram-se perguntas e frases soltas no ar, como: “onde que se faz o cadastro?”, “para que serve esse botão?”, “olha aqui que legal”, e eu me mantive quietinho no meu canto, no melhor estilo do “professor que não se importa com seus alunos”. Não foi fácil, mas valeu a pena e o esforço de me conter até que fosse realmente imprescindível a minha intervenção.

Meia hora depois eles já haviam descoberto sozinhos como fazer o cadastro, alguém já havia descoberto como criar a tira e estavam agora dando os primeiros passos na construção de suas tiras individuais.

Aos poucos descobriram como escolher personagens, como escolher cenários, como alterar figuras (aumentar, diminuir, mudar a roupa, etc.) e alguém até percebeu que os diálogos não poderiam receber acentos devido à linguagem usada na ferramenta (apenas inglês), mas que os balões de diálogo podiam ser manipulados e havia várias opções de tipos de letras.

Não tardou muito e a primeira tira foi finalizada, seguindo-se então de sua publicação no próprio site e da “visita” dos colegas para conferirem a tira pronta. Uma certa euforia foi tomando conta do grupo. Ao final de duas horas foi incrivelmente difícil tirar os professores da frente dos computadores para podermos discutir os aspectos pedagógicos da atividade e as implicações disso na metodologia de ensino e aprendizagem deles mesmos e de seus alunos.

A discussão da atividade iniciou-se com uma pergunta bem simples: “o que foi que aprendemos nessa atividade?”. Foram muitas as respostas: “aprendemos a fazer tirinhas”, “aprendemos a fazer cadastro”, “aprendemos a usar balões e a construir diálogos curtos e esclarecedores”, teve até quem disse que “aprendemos um pouco de inglês”, até que alguém notou que aquela atividade tinha um propósito bem maior e disse “aprendemos a aprender a usar a Internet”. E era esse mesmo, ou bem próximo disso, o objetivo da atividade: aprender a aprender no contexto das TICs.

O fato é que a maioria dos professores, mesmo os mais jovens que já convivem com a tecnologia dos computadores e da Internet desde a época da formação universitária, estiveram a vida toda submetidos a um paradigma de ensino e de aprendizagem onde eles mesmos eram receptores de informações que deveriam ser digeridas e armazenadas para uso posterior, sempre com muito poucas modificações. É por essa razão que esses professores “anotam tudo” e “raramente ousam explorar caminhos diferentes na resolução de um problema”.

Esse tipo de ensino linear, focado em conteúdos específicos e exercícios repetitivos de memorização, apoiado em materiais escritos e didaticamente engessados a um modelo de crescente dificuldade; um modelo de aprendizagem individual e individualista regido por punições e recompensas e, por fim, um modelo que foi repetido milhares de vezes durante a formação dos próprios professores… Bom, esse tipo de modelo tem uma relação quase nula com o modelo de aprendizagem ao qual nossos alunos e os jovens em geral estão submetidos. Não que a escola tenha mudado, infelizmente ela ainda tenta manter vivo aquele modelo antigo e capengante, mas sim porque o mundo onde vivemos exige esse novo formato de aprendizagem e, consequentemente, a capacidade de “aprender a aprender”.

Nesse formato de aprendizagem contemporâneo:
1.    não há linearidade estritamente necessária em uma sequência de aprendizagem; você pode chegar ao mesmo lugar partindo de diferentes pontos e traçando diferentes rumos, ainda que por alguns caminhos a jornada seja mais longa e pedregosa;
2.    a aprendizagem é focada em objetivos imediatos e sucessivos e nem sempre o aprendiz tem algum objetivo longínquo em mente; os objetivos mudam com a própria dinâmica da aprendizagem;
3.    não há mais a necessidade de um “professor transmissor de conteúdos”; quando muito se faz necessário um “orientador de rumos”; o papel do professor não é restrito, mas antes amplificado, cabendo a ele a difícil tarefa de ensinar o aluno a fazer boas escolhas ao invés de apenas fornecer as melhores respostas;
4.    a aprendizagem quase sempre se dá pela interação com outros aprendizes e, preferencialmente, ocorre em grupos e não individualmente; o conhecimento é construído coletivamente e apropriado de forma individual;
5.    o erro é um parâmetro de acerto de rumo, não é visto como uma punição ou um fracasso na aprendizagem; errar passa a ser parte do próprio processo de aprendizagem, passa a ser um “método”, dentre outros, de se chegar aos acertos.

Foi exatamente esse modelo que os professores vivenciaram ao realizarem a atividade proposta “sem uma explicação sobre como deveriam fazê-la”. A angústia inicial do grupo diante de um problema absolutamente novo, de uma máquina e de um ambiente estranhos, sem poder contar com a ajuda sequer da linguagem (já que o site está todo em inglês), foi lentamente sendo substituída pela descoberta do trabalho em grupo, das soluções compartilhadas, dos erros que apontavam novos rumos e da liberdade de poder cometê-los “sem um professor corrigindo suas ações” a cada instante, das sucessivas conquistas (ora descobrindo como se faz isso, depois como se faz aquilo, e assim por diante) e com a liberdade de começar por onde quiser, explorar todas as possibilidades e compartilhar diferentes soluções para um mesmo problema.

Enfim, o que se viu ali foi uma aula sobre o que significa “aprender a aprender” e como isso é importante na solução de problemas contemporâneos, geralmente bastante diversos dos tipos de problema que enfrentávamos 20, 30 ou 40 anos atrás.

Após a discussão final da atividade todos foram embora visivelmente felizes e confiantes de que no próximo desafio estarão mais fortalecidos e, principalmente, que já sabem de onde partir: despojarem-se dos paradigmas de aprendizagem antigos e, como os jovens de hoje, se lançarem em descobertas sem o receio de às vezes errarem e, principalmente, sem a pretensão de querer acertar sempre.

E eu, que nunca tinha proposto essa atividade antes e apostei no sucesso dela com base apenas na reflexão teórica sobre modelos de aprendizagem, me convenci de vez por todas que capacitar professores para o uso pedagógico dos computadores e da Internet só faz sentido se realmente conseguirmos com que esses professores vivenciem as situações de aprendizagem com as quais seus alunos estão submetidos cotidianamente ou, em outras palavras, que não se pode ensinar a pensar de uma forma nova usando-se métodos e modelos antigos como base para essa aprendizagem.

Uma das muitas tiras feitas pelos professores

Uma das muitas tiras feitas pelos professores

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Aprendendo a aprender com as TICs, Professor Digital, SBO, 11 fev. 2009. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2009/02/11/aprendendo-a-aprender-com-as-tics/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].


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