TICs, telefones celulares e a escolassaura


Jurássico e tecnológico
Qual dos dois você acha que representa a escola?

A escola é, talvez, a instituição mais jurássica de todos os tempos (por que vivo repetindo isso?). Embora ela tenha o compromisso de educar a geração atual para um mundo futurista que nem nasceu ainda, e nem sabemos como será, ela mesma ainda vive na pré-história em diversos sentidos e não tem o menor desejo de “evoluir”, pelo menos o suficiente para chegar perto dos tempos atuais. Mas antes de concordar com isso, pense bem, caro leitor amigo: a escola não se encerra nos limites de seus próprios muros, ela se estende por toda a sociedade, e você, caríssimo leitor, também é responsável por essa escola jurássica e suas idiossincrasias.

Enquanto escrevo esse artigo, tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei 2806/2011. Esse projeto é uma “extensão” de um projeto anterior que proibia o uso de telefones celulares em todo o país e, agora, “modernizado”, o projeto prevê a proibição de qualquer aparelho eletrônico portátil em todas as escolas e em todos os níveis de ensino, do infantil ao superior.

No Estado de São Paulo, na cidade do Rio de Janeiro, no Ceará e em Rondônia (e talvez também em outros estados e municípios, pois as más idéias se espalham rápido) já há leis específicas proibindo o uso de telefones celulares e outros aparelhos eletrônicos pelos alunos.

Ao invés de entrar em uma polêmica tola sobre “se devemos permitir ou proibir o uso de celulares, games e outros brinquedinhos eletrônicos em sala de aula”, eu lhes pergunto algo bastante simples e objetivo: em que momento algum professor, alguma escola, algum pai de aluno ou algum governo defendeu ou defenderá que os alunos devam ir à escola apenas para jogar videogame, assistir vídeos no Youtube, bater papo no MSN ou fotografar o professor tirando caca do nariz para depois publicar no seu fotolog?

A mim, e espero que a você também, parece evidente que a escola não é apropriada para esse tipo de “diversão”, assim como não esperamos o mesmo comportamento em uma missa ou em um enterro (olha, eu juro que tentei comparar com outras situações, mas a escola está mais para missa e enterro do que para festa de casamento).

Por outro lado, faça um esforço e tente se lembrar de sua infância… Agora pense: se quando você era criança e estava na escola você tivesse um telefone celular onde pudesse jogar videogame, fazer filmes sacanas do professor ou dos colegas, trocar mensagens e fofocas instantâneas, ouvir música, etc., etc., será que você não o faria?

Eu não posso responder por você, mas posso responder por mim mesmo. Eu faria sim, às vezes. E sei que seria punido por fazê-lo (mas mesmo assim faria!). Hoje eu não faço mais, mas hoje eu sou adulto e, como agravante, sou professor, tenho sempre que dar exemplo de “bom comportamento” e, a bem da verdade, de qualquer forma essas coisas já não me interessam mais.

Pois bem, o mundo mudou, a tecnologia se espalhou por todas as partes, as possibilidades são imensas mas, mas, mas… As crianças e adolescentes de hoje continuam sendo crianças e adolescentes como nós mesmos fomos um dia! A tecnologia só lhes fornece novos meios de fazerem suas traquinagens, e eles as farão até que se tornem adultos e, talvez, acabem como pessoas “xaropes” como eu e você.

Alguns adultos parecem que se esqueceram que já foram crianças e agora não entendem mais nada sobre a infância e a adolescência. Esses adultos acreditam que publicando leis poderão mudar a estrutura neurológica, os hormônios e a psicologia das crianças e dos adolescentes. Isso é tão ridículo que parece traquinagem de adolescente que possui um brinquedinho novo de “assinar leis”.

Fato: mais da metade das crianças entre 7 e 9 anos de idade possui um telefone celular. Quase metade dessas crianças não recebe nenhuma orientação de uso desse brinquedinho tecnológico por parte de seus pais ou de seus professores!

Pergunta: se crianças e adolescentes possuem celulares (que ganham dos pais!) e não possuem orientação alguma, nem da família nem da escola, sobre como utilizá-los em diversos ambientes e situações e, além de tudo, são crianças e adolescentes e não adultos xaropes, como se pode esperar deles que não levem seus brinquedinhos à escola e, estando lá, não brinquem com eles?

Smartphone Optimus Black
Eles são úteis aos alunos e aos professores

Em outro artigo publicado nesse blog, Uso pedagógico do telefone móvel (Celular), eu já tratei de diversas possibilidades de fazer um uso adequado desses aparelhinhos em sala de aula, então agora só quero compartilhar algumas experiências que talvez possam ser úteis para que professores possam conviver melhor com esses “monstrinhos divertidos” ao invés de apostarem em leis caducas que não serão cumpridas e entrarão para a história como a lei de Jânio Quadros que proibia o uso do biquini nos concursos de miss (pode rir agora, mas à época também havia polêmica e defensores da proibição).

Você não precisa de novas leis

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) estabelece os direitos e deveres de todos os agentes envolvidos no processo Educacional. Estados e municípios também possuem legislações próprias garantindo direitos e deveres desses agentes.

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) reforça a garantia à todos os alunos do direito à aprendizagem e, portanto, confere aos professores o dever de garantir esse direito em suas salas de aula.

Toda escola tem um regimento escolar interno que já estabelece direitos e deveres para alunos e professores.

Todo professor pode e deve estabelecer um regimento de conduta em suas aulas (o que chamamos vulgarmente de “combinados”) com os alunos.

Isto posto, fica claro que nenhum aluno pode, à revelia de todos os “combinados”, regimentos e leis, fazer o que bem entende na sala de aula, e isso inclui qualquer atividade que coloque em risco sua própria aprendizagem ou a aprendizagem dos seus colegas. Obviamente que aí se inclui qualquer brincadeira ou distração que não faça parte das atividades pedagógicas propostas pelo professor, quer seja ela feita com “brinquedos eletrônicos”, quer seja feita com brinquedos não eletrônicos (como jogar futebol dentro da sala, jogar baralho no fundão, andar de skate, etc.).

O que é fundamental aqui é que o professor esclareça seus alunos sobre seus direitos e, consequentemente, deixe claro as regras a que todos estarão submetidos para que se possa ter um ambiente saudável de aprendizagem onde esses direitos sejam respeitados por todos.

Não é óbvio para os alunos que eles têm que ter seu direito à aprendizagem garantido pelo professor e que, por causa disso, é o professor que pode e deve estabelecer quais usos são admitidos ou não para qualquer aparelho, objeto ou material presente na sala de aula.

No caso específico dos telefones celulares o professor deve deixar claro as situações em que esse aparelho será útil e aquelas onde ele deverá permanecer desligado.

É evidente que nem sempre os alunos seguirão as regras (Lembra-se? Eles são crianças e adolescentes e não adultos xaropes!) e toda vez que algum deles fizer uma transgressão ele deverá sofrer uma sanção proporcional à sua transgressão. Aqui é fundamental ter bom-senso e entender que ocorrerão várias transgressões, que será preciso ter paciência e compreender com naturalidade a natureza dessas transgressões e, por fim, que a autoridade do professor não pode ser abandonada em momento algum, da mesma forma que não pode ser transformada em autoritarismo. É preciso educar o aluno para o bom uso do celular e não brigar com ele quando ocorre um mau uso.

Minha experiência com o uso de telefones celulares em classe

A quase totalidade dos meus alunos possui telefones celulares e uma porcentagem considerável possui smartphones.

Em minhas aulas os alunos podem e devem trazer o telefone celular e usá-los dentro dos limites e regras que são discutidos, explicados e acordados logo no início do ano. Eu optei por permitir e estimular o uso pedagógico dos telefones celulares nas minhas aulas pelos seguintes motivos:

  • A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, para qual trabalho como professor, não possui condições para prover a escola de recursos materiais em quantidade suficiente para atender todos os meus alunos e, em contrapartida, a quase totalidade deles dispõe dos seguintes recursos próprios em seus telefones celulares:
    • calculadora;
    • agenda eletrônica;
    • bloco de anotações;
    • câmera fotográfica digital;
    • filmadora digital;
    • gravador de áudio digital;
    • acesso à internet;
    • dispositivo digital de reprodução multimídia (sons, imagens, filmes e animações);
  • Eu tenho um compromisso com a qualidade do ensino oferecido aos meus alunos que não me permite abrir mão de todos esses recursos oferecidos pelos telefones celulares;
  • O uso dos telefones celulares pelos meus alunos favorece sua aprendizagem permitindo práticas, dinâmicas e atividades que seriam inviáveis sem eles. Além disso, o uso dos celulares melhora a produtividade da aula permitindo ganhos de tempo e qualidade da aprendizagem;
  • Entendo que é parte do meu ofício como professor orientar meus alunos quanto aos bons usos do telefone celular de maneira a permitir-lhes que exercitem esse bom uso em atividades escolares cotidianas para que, por extensão, também o façam fora dos limites da escola (no seu trabalho, na sua casa e em diferentes meios de convívio). E eu não poderia fazer isso de forma efetiva sem que eles usassem os telefones celulares em minhas aulas.

Meus alunos usam telefones celulares regularmente para:

  • fazer contas usando a calculadora;
  • agendar tarefas e provas na agenda do celular;
  • fotografar as minha lousas (eu sugiro esse método, ao invés da cópia da lousa no caderno, porque são alunos do Ensino Médio, porque isso garante maior fidelidade da informação, porque isso é uma atividade sustentável que evita o uso de papel e porque o celular permite armazenar as lousas do ano todo em parte insignificante de sua memória). Eu mesmo fotografo minhas lousas para ter o registro exato do que foi trabalhado em cada classe;
  • fotografar materiais didáticos indisponíveis para toda a classe, como páginas de um dado livro que a escola não dispõe para a classe toda;
  • registrar por meio de filmes e imagens as atividades práticas no laboratório ou fora da sala de aula;
  • desenvolver atividades no laboratório ou fora da sala de aula usando recursos de multimídia e outros disponíveis no celular (áudios/entrevistas, vídeos, imagens, apresentações, calculadora, cronômetro, etc.)
  • pesquisar conteúdos na internet (para os que têm smartphones);
  • usar como fonte de material de consulta em “provas com consulta” (podendo usar o conteúdo da memória do celular ou o obtido via internet ou redes sociais).

Meus alunos não usam o telefone celular em classe para:

  • fazer ou receber ligações na sala de aula (isso eles podem fazer quando saem para ir ao banheiro);
  • jogar videogame, assistir vídeos, ouvir música, participar de redes sociais, navegar pela internet ou fazer qualquer outro uso que não tenha sido explicitamente solicitado por mim como parte de alguma atividade pedagógica;
  • produzir qualquer tipo de material (áudio, imagem, vídeo, etc.) não solicitado explicitamente por mim;
  • participar de redes sociais ou manter comunicações com outras pessoas, exceto quando isso faz parte de uma atividade e foi solicitado por mim.

Além disso:

  • Procuro orientar meus alunos sobre o uso seguro dos celulares e da internet de forma geral;
  • Discuto com meus alunos questões envolvendo ética, direitos autorais e violação dos direitos privados dos colegas;
  • Oriento-os a estabelecerem contratos de uso dos celulares com todos os demais professores, esclarecendo que cabe a cada professor determinar a forma como os telefones celulares podem ou não ser usados em suas aulas.

O número de vezes que tenho que intervir para garantir o uso correto dos celulares cai progressivamente ao longo do ano nas classes dos primeiros colegiais e é mínimo nas classes onde os alunos já me conhecem.

Nunca houve nenhum caso de mau uso do celular onde as sanções precisassem passar do nível da advertência verbal e discreta.

Os relatos de experiências de professores com os quais tenho contato em projetos que participo, nas redes sociais e em oficinas de formação onde atuo como formador dão conta de resultados bem parecidos com os meus. Logo, não apenas a “teoria” sobre o uso pedagógico do telefone celular, como também a prática, têm mostrado que é possível, viável e recomendável que ele seja usado cada vez mais em nossas aulas.

Finalmente, aos professores que imaginam que proibir o uso do telefone celular por meio de leis, ou da proibição do aluno levá-lo à escola, poderá ser um meio “mais fácil” de lidar com o problema do seu mau uso, eu deixo aqui uma pergunta bastante razoável: não seria mais “profissional” da parte do professor educar ao invés de proibir?

Referências na internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. TICs, telefones celulares e a escolassaura, Professor Digital, SBO, 30 jan. 2012. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2012/01/30/tics-telefones-celulares-e-a-escolassaura/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Os números de 2011


Seguindo os critérios de transparência e ética que norteiam todo meu trabalho, publico abaixo o relatório de 2011 do WordPress sobre esse blog. A mim pareceu bastante satisfatório e, portanto, deixo aqui meus agradecimentos públicos à todos que visitaram esse blog, divulgaram suas publicações na rede e compartilharam os artigos com seus pares, em formações, salas de professores, horários de trabalho pedagógico coletivo, etc.

Em 2012 tentarei dedicar um tempo maior a esse blog apesar do excesso de trabalho em diversas frentes (o blog me deixa feliz, mas não paga a conta do meu supermercado).

Segue o relatório do WordPress:

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 130.000 vezes em 2011. Se fosse o Louvre, eram precisos 6 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

Educação, TICs e diversão


Smartphone Optimus Black
Um microcosmos de possibilidades

As novas tecnologias digitais de informação e comunicação, e suas tecnologias associadas, nos tornaram mais preguiçosos, sem a menor dúvida. Veja, por exemplo, o controle remoto. Quem, em sã consciência, o dispensa para levantar da poltrona e ir até a televisão, apertar botões para mudar de canal?

E o que dizer do telefone celular atual, que evoluiu a tal ponto que pode ser usado até mesmo como controle remoto da televisão, ou ainda, incorporar em si mesmo a própria televisão?!

Se olharmos atentamente ao nosso redor veremos que estamos bem mais próximos do mundo dos Jetsons (para quem não sabe do que se trata, veja esse vídeo de 1 minuto: http://youtu.be/rGFTOoU62BA) do que do mundo dos Flintstones (confira aqui: http://youtu.be/2PPf3aaZmUw).

E nem adianta criticar esse “mundo novo” porque na maioria das vezes a crítica acaba sendo hipócrita, como a crítica do professor que condena seus alunos por levarem o telefone celular na escola, mas que não tira o próprio celular da bolsa porque sabe o quanto ele é útil e divertido. Que critica o aluno que não faz tarefas de casa, e ao invés disso fica horas na internet, mas, ele mesmo, não prepara muito aulas e passa horas no Orkut, cuidando de sua “colheita feliz” ou atirando passarinhos contra obstáculos.

Na verdade todos somos usuários das novas tecnologias e nem sempre o fazemos apenas de forma “profissional” ou “madura”. A tecnologia digital é cômoda e divertida. Por isso nos atrai tanto. Por isso nos distrai tanto!

A tecnologia não pode ser encarada como uma espécie de “aberração” em nossas vidas. Ela é uma consequência natural da inteligência e da criatividade humana. Abrir mão da tecnologia não deixa de ser, guardadas as devidas proporções aos mais puristas, abrir mão de nossa própria humanidade. Usá-la bem ou mal também depende muito mais da nossa “humanidade” do que da tecnologia por si mesma.

Diante desse cenário há quem queira parecer desolado, abatido diante das inexoráveis evidências de que o mundo mudou mesmo; mas, também há os hipócritas reacionários, os primitivistas e os deslumbrados. Felizmente, a meu ver, cresce cada vez mais a turma dos positivistas pragmáticos, a qual grosso modo me alinho, que vê na tecnologia possibilidades de um futuro melhor se aprendermos a usá-la de uma forma positiva.

E o que esse blá-blá-blá tem a ver com o contexto da Educação, da escola e dos nossos capengas paradigmas didáticos? Talvez tivesse pouca relação, se a escola fosse uma entidade sobrenatural existente em algum outro universo ou dimensão, porém, não é esse o caso. A escola onde aprendemos e ensinamos (ou não fazemos nem um nem outro) está toda ela embebida nessa tecnologia e, principalmente, nessa preguiçosa práxis tecnológica, exceto nos momentos de hipocrisia ou ingenuidade.

Alunos e professores todos os dias levam telefones celulares para a sala de aula (com ou sem lei que os proíbam). Os filmes, as músicas, os jogos, as relações interpessoais mediadas pelos protocolos da rede (física, lógica e social), estão presentes na escola, nas salas de aula, nos banheiros, nos corredores, nos pátios… Só não estão muito presentes, ainda, na didática dos professores, nos materiais didáticos e nas aulas de prática de ensino das universidades que formam os professores.

E porque será que é tão difícil incorporar na prática pedagógica essas ferramentas que já estão incorporadas no dia a dia de alunos e professores?

Talvez a resposta seja mais objetiva do que simplesmente culpar os bodes expiatórios de sempre: professores despreparados e desmotivados, alunos desinteressados e sem expectativas, governos incompetentes e mal intencionados, etc. A resposta pode estar bem diante dos nossos olhos. Talvez seja a mesma resposta que demos para justificar o desenvolvimento da própria tecnologia: inteligência e criatividade.

Incorporar as TICs nas práticas pedagógicas requer mais que oficinas de capacitação para uso de ferramentas (softwares e equipamentos) ou lavagem pedagogico-cerebral, tentando algum tipo de “convencimento” do professor. Talvez essa incorporação requeira um novo modo de olhar o mundo, novas competências criativas e, infelizmente, talvez isso não esteja ao alcance de todos professores, mas eu não gostaria de ter que tomar isso como premissa. Acho que ninguém gostaria de supor que exista uma “geração perdida de professores” e que, talvez, essa geração seja a nossa.

Vamos exemplificar isso tudo: um dia, talvez inspirado pelas “calçadas rolantes” do Jetsons, alguém inventou a “escada rolante”. Ela é muito útil para mover um número grande de pessoas simultaneamente, para cima ou para baixo, e substitui com grande vantagem as escadas convencionais e mesmo os elevadores. As encontramos em metrôs, shopping centers, grandes lojas, etc.

A escada rolante é um excelente exemplo de uma tecnologia que nos torna preguiçosos, pois embora as escadas convencionais sejam mais saudáveis (para a maioria das pessoas) é muito mais cômodo usar as escadas rolantes. Basta observar o movimento em um metrô, ou num shopping center, para confirmar que a grande maioria das pessoas opta pelas escadas rolantes quando têm a opção de escolher entre elas e as escadas convencionais.

Um professor “convencional”, desmotivado, mau pago e desacreditado, diria que o problema é que as pessoas hoje em dia tem uma péssima educação, não têm motivação para serem saudáveis e tendem sempre à vadiagem, optando assim pela escada rolante. Ele não perderia seu tempo tentando convencer ninguém a usar as escadas comuns ao invés das escadas rolantes, a menos que pudesse de alguma forma “obrigá-las” a isso. Já um professor deslumbrado com a tecnologia diria que as escadas rolantes são mesmo a melhor opção, pois poupam tempo, evitam desgastes nas juntas dos joelhos e ainda permitem que durante o percurso a pessoa fique “parada” e possa acessar o twitter ou o facebook . Ele jamais obrigaria alguém a “voltar no tempo” para fazer um trajeto “mais saudável”.

Assim, nenhum desses dois professores aceitaria a tarefa de fazer com que as pessoas escolhessem, algumas vezes e sempre espontaneamente, a escada convencional. Para ambos isso seria uma bobagem. Se recebessem essa tarefa, fracassariam (e encontrariam culpados facilmente, mesmo tendo argumentos opostos).

O professor que precisamos, no entanto, não é um que seja capaz de desistir diante do primeiro obstáculo, mas sim aquele que não recusaria essa tarefa e que seria capaz de mobilizar seus conhecimentos, sua inteligência e criatividade para executá-la, ainda que ela não seja trivial. Esse professor é o mesmo que consegue ensinar seus alunos a somarem e subtraírem, apesar de todas as dificuldades, com ou sem calculadoras e, acima de tudo, que consegue que seus alunos aprendam sem serem “obrigados”.

Causar essa “mudança de hábito” que pode levar o aluno a “aprender espontaneamente”, ao invés de optar por “não aprender” (que parece ser o caminho mais fácil), é possível e, se você já está impaciente para saber como, veja o vídeo abaixo e depois continue a leitura do texto.

Interessante, não? Tudo bem que isso não acontecerá em todas as escadas do mundo, não é simples e nem barato para se fazer e, ao fim e ao cabo, se a escada rolante for retirada as pessoas também subirão pelas escadas normais a um custo bem inferior. Mas não é isso que está em questão aqui. O que está no foco desse artigo é a “escada conceito” baseada naquilo que os criadores dessa campanha publicitária chamaram de “The fun theory” (Teoria da diversão) e que baseia-se numa premissa aparentemente sólida: é possível mudar o comportamento das pessoas tornando as coisas mais divertidas.

Ninguém mostrado no vídeo teve que ouvir palestras chatas sobre porque subir escadas pode promover uma saúde melhor, ninguém foi obrigado a subir pelas escadas convencionais porque lhe proibiram subir pela outra. Todos podiam optar pela escada rolante, se quisessem, e só não quiseram subir por elas aqueles que acharam “mais divertido subir pela escada piano”.

Em um paralelo com a sala de aula é como se fosse possível construir uma “aula conceito” mais divertida, interessante e instigante, que levasse o aluno a “desejar aprender aquele assunto”, mesmo não entendendo muito bem qual é a importância daquela aprendizagem para sua vida atual ou futura. Um “aula divertida”, nesse contexto, não é apenas uma aula “para se distrair”, mas sim para aprender. Certamente essa aula também não dever ser “fácil de ser criada”, envolve custos (de tempo e esforço, talvez dinheiro) e pode não ser assim em todas as aulas de um curso. Mas que tal pelo menos algumas?

Não é fácil ter uma idéia criativa como essa, mas se você consegue tê-la pode usar a própria tecnologia a seu favor para torná-la possível. Ai, talvez, as TICs tenham um papel decisivo. Também não é fácil para o professor ensinar o aluno a somar e subtrair (se fosse fácil, para que precisaríamos de professores?), mas é possível que alguns professores tenham idéias brilhantes sobre como fazê-lo. E talvez essas idéias sejam mais “inteligentes e criativas” se incorporarem as TICs.

Pode ser mais divertido jogar um videogame com adições e subtrações no telefone celular (aparentemente apenas para se divertir) do que copiar continhas da lousa e fazer no caderno centenas de operações de somar e subtrair, aparentemente também sem nenhuma razão e com o agravante de não ter nenhuma diversão; talvez as somas e subtrações possam ser contextualizadas, mesmo sem muita tecnologia digital; talvez possam estar inseridas em situações-problema do cotidiano do aluno…

Só o professor que não desiste sem antes tentar é que poderá ter a oportunidade de descobrir qual é o melhor caminho para isso fazendo uso de toda tecnologia que dispuser. E fazer bom uso das TICs para ensinar mais e melhor é exatamente o que podemos chamar de um “bom uso pedagógico das TICs”.

O uso pedagógico das TICs pode ser um caminho promissor para tornar o aprendizado escolar algo menos enfadonho e, talvez assim, consiga resgatar em alguns momentos a “diversão de aprender”. Pode não ser fácil encontrar soluções inteligentes e criativas o tempo todo, mas, podemos compartilhar as boas idéias de maneira a construirmos um conhecimento em rede. É a isso que chamamos de Sociedade do Conhecimento (não uma sociedade que conhece tudo, mas uma sociedade que constrói e compartilha conhecimento de forma eficaz por meio de redes sociais  interativas).

Ao professor também cabe construir tecnologia e compartilha-la. Não estamos falando de aparelhinhos tecnológicos, mas sim de tecnologias de ensino que possam tornar o aprendizado mais divertido, interessante, criativo e inteligente. Afinal, há uma boa chance de que um novo ensino, inteligente e criativo, ajude a desenvolver essa nova geração, preguiçosa como a nossa, mas também muito inteligente e criativa, para que a seu tempo ela possa assumir a condução dessa sociedade estranhamente tecnológica onde vivemos hoje.

Que tal começar a projetar a “sua escada”? Uma apenas, que seja. Depois você pode compartilhá-la com outros professores e, quem sabe, outros fazendo a mesma coisa e compartilhando com todos, um dia teremos muitas aulas-escadas por onde possamos elevar a qualidade do nosso ensino.

(*) Esse artigo foi revisto e reeditado em 15/05/2012.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Educação, TICs e diversão, Professor Digital, SBO, 08 janeiro 2012 – revisto em 15 de maio de 2012. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2012/01/08/educacao-tics-e-diversao/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].