Mudança ou enganação?


De: Robson Freire – Editor do Blog Caldeirão de Ideias.

(*) Este blog publica artigos de terceiros, desde que originais e dentro da linha editorial do blog, mas não se responsabiliza e nem endossa suas opiniões.

Na Educação se discute o uso das tecnologias desde 1997,  com o lançamento do PROINFO (http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=462) e fui testemunha ocular desse processo como coordenador de um NTE. Vi todo o sucesso e o fracasso de diversas políticas públicas nessa jornada. Eu sempre fui um grande defensor do uso da tecnologia para fins pedagógicos com a proposta de facilitar o aprendizado e estimular a inclusão digital.

Porém, ao mesmo tempo, fico preocupado com o modismo que atualmente vê a tecnologia como uma tábua da salvação para todos os males da Educação. Isso está acontecendo no Brasil e é necessário aprofundarmos a discussão sobre em quais situações os novos recursos tecnológicos podem, de fato, exercer impacto positivo ou fazer a diferença sobre a Educação e, em qual contexto isso seria apenas mais uma enganação.

Tablete ou livros?
Tablete ou livros?

Economicamente, o uso de recursos tecnológicos é bastante positivo. A implantação de tablets como ferramenta fundamental na escola pública poderá impulsionar todo o setor produtivo tecnológico, resultando em maior inclusão digital, na arrecadação de impostos e na criação de novos postos de trabalho e empregos, gerando mais renda ao trabalhador além de outras vantagens, como a diminuição do peso das mochilas dos alunos, a diminuição dos custos do PNLD, atualização mais eficiente do material publicado errado ou em desalinho com o que foi proposto. Mas para fins pedagógicos, é também necessário se discutir como esses recursos impactam as metodologias de ensino.

Pense comigo, o raciocínio é simples: Se um aluno não consegue aprender com um livro em papel, ler o mesmo livro em formato digital não vai representar ganho algum. Ele vai continuar sem aprender nada. Se os tablets forem implantados na rede pública sem se discutir qual seria a melhor metodologia para que o seu uso realmente faça alguma diferença, será pura enganação.  Seria necessário que houvesse uma proposta de trabalho, para que se trabalhassem em conjunto varias correntes, entidades superiores e de ensino (escolas) para discutir uma reforma pedagógica para incluir as novas tecnologias de forma eficiente dentro de um contexto mais amplo.

Isso vale para qualquer outro recurso tecnológico que seja adotado pelas escolas públicas, não somente para os tablets. É perigoso nos deslumbrarmos com novas tecnologias e vermos nelas uma solução definitiva para qualquer problema, sem questionarmos o cenário de um ponto de vista mais amplo e profundo.

A meu ver surgem perguntas que todos deveriam fazer antes de qualquer coisa: Qual seria o impacto das novas tecnologias e seus dispositivos efetivamente na aprendizagem dos alunos? Elas deveriam ser usadas para tornar o aluno mais independente do professor, incentivando o autodidatismo? Seria possível  tornar a sala de aula em um local no qual se tiram dúvidas e aprofundam questões já estudadas previamente em casa, além de facilitar o trabalho cooperativo entre os alunos?

As tecnologias oferecem hoje aos professores recursos e meios que podem ampliar a relação ensino-aprendizagem, diminuindo barreiras de tempo e espaço, através de ambientes que extrapolam a sala de aula física e convencional. Os repositórios, blogs e os espaços colaborativos podem agregar conhecimentos a própria prática docente, por meio de pesquisas sobre novas metodologias e recursos didáticos.

Para que isso ocorra, os profissionais da educação, sobretudo os professores, devem assumir um papel de pesquisador de novos conhecimentos para aperfeiçoar cada vez mais sua prática educativa. Entendo que o professor deve ser sempre um pesquisador, não só de conhecimentos científicos, metodológicos, mas também da sua própria prática pedagógica. Consideramos aqui o professor pesquisador como aquele que investiga e estuda seu campo de atuação e que produz conhecimento (transforma a informação em conhecimento).

Nesta perspectiva, o professor, assumindo esse papel de pesquisador e produtor de conhecimentos, poderá utilizar as tecnologias para estudos, através do acesso a periódicos, livros, artigos científicos, blogs, conteúdos e recursos educativos. Além de também poder compartilhar com outros profissionais suas produções (trabalhos, artigos, atividades educativas, vídeos, entre outros), experiências e conhecimentos.

São apenas alguns exemplos das muitas formas que o uso de tecnologia na escola poderia realmente exercer alguma influência positiva, mas esta é apenas a minha opinião. Precisamos aprofundar os estudos realizados por pedagogos, professores e acadêmicos, que precisam ser compartilhados e debatidos com a sociedade e depois usados como base para uma reformulação da metodologia de ensino.

Só viveremos dentro de uma nova realidade educacional reformando integralmente toda cadeia educativa, desde a formação inicial, onde se privilegie o uso das tecnologias e da mudança da filosofia/metodologia para uma cultura hacker e o uso de recursos educacionais abertos.

Bem… Chegou a hora da verdade: Mudamos de verdade ou continuaremos enganando?

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

FREIRE, Robson. Mudança ou enganação?, Professor Digital, SBO, 21 jan. 2013. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2013/01/21/mudanca-ou-enganacao/. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

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