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Avaliação na era das TDIC

15/06/2015

Resumo

O presente artigo descreve uma pesquisa feita com alunos do Ensino Médio de uma escola pública paulista visando validar uma nova metodologia de avaliação com base em provas escritas fazendo uso intensivo das TDIC, permitindo aos alunos o livre acesso à informação e à colaboração durante a avaliação. Mostra-se a possibilidade de ganhos de aprendizagem e melhora significativa do desempenho dos alunos em situação de prova e nos resultados gerais da avaliação global.

Palavras-chave: Educação, mobiles, smartphone, TDIC, inovação, avaliação

Introdução

A avaliação sempre foi um tema complexo e por muito tempo foi vista apenas como a aplicação de provas tradicionais, geralmente visando medir a quantidade de informações que o aluno era capaz de reter na forma de memorização. Críticos desse tipo de avaliação apontam seu caráter excludente, classificatório e pouco importante do ponto de vista da aprendizagem do aluno. Pelo menos nas duas últimas décadas muitos discursos demonizam as provas tradicionais e apontam para a necessidade de outras formas de avaliação que priorizem a criatividade e a capacidade de resolver problemas, além de levar em conta outros aspectos não cognitivos e o próprio contexto social do aluno.

Avaliar não é apenas aplicar provas, mas isso não significa que as provas não possam ou não devam fazer parte do universo da avaliação. Negar a existência das mesmas como prática ainda muito disseminada, ou afirmar sua invalidade e propor sua extinção seria imprudente, porque irreal e incorreto. A avaliação por meio de provas escritas não precisa trazer consigo os caracteres apontados e criticados na sua forma “tradicional” e podem incorporar, por meio das TDIC, espaços para a criatividade, o universo próprio do aluno e a capacidade de resolver problemas significativos.

O presente artigo apresenta a metodologia e os resultados gerais de uma pesquisa realizada com alunos do Ensino Médio de uma escola pública submetidos a um processo de ensino e de avaliação que faz uso intensivo das TDIC e, em especial, dos mobiles dos próprios alunos. Outros artigos complementares sobre esse tema e essa pesquisa serão publicados em breve e ligados a este.

Objetivos

O objetivo desse artigo não é defender nem atacar qualquer sistema ou método de avaliação, mas trazer para a discussão e a reflexão a necessidade de incorporar nos processos de avaliação novas metodologias que façam uso das TDIC como ferramentas que potencializam esse processo e podem contribuir para a obtenção de resultados mais significativos em termos de ensino e aprendizagem. Essas novas metodologias estão intimamente ligadas à colaboração, pesquisa, autoria e capacidade de resolver problemas.

O objetivo da pesquisa foi avaliar o impacto do uso das TDIC, aliado a uma nova metodologia de elaboração de avaliações escritas, no letramento tradicional e digital dos alunos, bem como as implicações na aprendizagem curricular tradicional e no desenvolvimento de habilidades de pesquisa, autoria e colaboração próprias de um currículo ainda não oficializado, mas já inserido informalmente na sociedade da informação e do conhecimento.

Metodologia

A pesquisa foi realizada ao longo de dois anos (2013 e 2014) em uma escola pública paulista com alunos do primeiro e do terceiro ano do Ensino Médio dos períodos da manhã e da noite como atividade paralela e não intrusiva no processo de ensino e aprendizagem regular. As análises de resultados foram feitas no âmbito de cada uma das 9 diferentes classes que participaram desse estudo ao longo do período considerado e utilizadas como elementos para o replanejamento bimestral.

Ao final de cada ano letivo foram comparados os resultados de uma mesma classe ao longo do ano letivo; entre classes da mesma série e mesmo período e; entre classes de uma mesma série de diferentes períodos. Por fim, os resultados dos dois anos observados foram comparados a fim de detectar possíveis variações no comportamento dos resultados em função da mudança de público de um ano para outro.

Todos os registros foram lançados em planilhas online e posteriormente trabalhados a fim de se obter as totalizações necessárias. Foram feitas correlações estatísticas entre os resultados obtidos com as avaliações escritas e outros itens que compõem a avaliação global dos alunos e que também foram avaliados e quantificados, como a frequência, a realização de atividades e tarefas e o engajamento e participação nas atividades de sala de aula.

Desenvolvimento

Cada classe foi submetida a duas avaliações escritas por bimestre, do tipo “prova”, totalizando 8 avaliações no ano. A amostra total contou portanto com a análise de 72 conjuntos com 30 provas em média cada um, resultando em, aproximadamente, 2160 provas.

As provas foram elaboradas a partir da seleção dos temas tratados em cada período de um bimestre, tendo caráter cumulativo no sentido de requerem aprendizagens de períodos anteriores. O tempo de realização máximo de cada prova foi dimensionado para 1 aula (50 minutos no período da manhã e 45 minutos no período da noite). A quantidade de questões em cada prova variou em função das limitações de tempo e necessidade de abordar os temas mais importantes para a disciplina (Física). O critério para elaboração da nota de prova final de cada bimestre consistiu em escolher a maior das duas notas obtidas. O intervalo de aplicação das duas provas em cada bimestre variou de uma a duas semanas em função do calendário escolar.

Mobiles na avaliação

Smartphone sendo utilizado durante a avaliação escrita.

O uso de smartphones e mobiles em geral foi estimulado e recomendado durante as avaliações. Ao longo do ano as metodologias e estratégias de ensino foram variadas, incluindo aulas expositivas com ou sem auxílio de TDIC, filmes, demonstrações, trabalhos de pesquisa individual e em grupo, atividades complementares, trabalhos práticos e uso de ambientes virtuais de aprendizagem. Em 2014 a principal metodologia de trabalho em sala de aula baseou-se na “sala de aula invertida”, com alunos trabalhando em grupo orientados por roteiros e assistidos pelo professor.

Durante todo o período da pesquisa os alunos contaram com um site de apoio com materiais didáticos disponibilizados digitalmente, assessoria online e diversas ferramentas de acompanhamento e organização da aprendizagem por meio de aplicativos sugeridos e baixados gratuitamente na internet. Também foi solicitado a todos os alunos que possuíam smartphones, tablets ou notebooks que os trouxessem para a aula como parte integrante do material didático. A escola, por sua vez, disponibilizou uma conexão com a internet via wirelles e o acesso à sala do programa Acessa Escola do governo do Estado de São Paulo.

Os alunos foram orientados sobre como utilizar os seus dispositivos móveis para armazenar, organizar, pesquisar materiais disponibilizados pelo professor ou obtidos na internet, bem como utilizar recursos nativos ou acrescentados via aplicativos gratuitos disponíveis nas lojas virtuais compatíveis com os sistemas operacionais de seus aparelhos.

Durante as avaliações os alunos puderam ter acesso a todos os materiais que trouxeram para a prova, incluindo livros, cadernos de anotações e seus dispositivos móveis. Não foi permitida a comunicação direta, por meio da fala, nem a troca de materiais físicos durante as provas a fim de manter um ambiente de silêncio e concentração, mas os alunos podiam comunicar-se livremente uns com os outros por meio de seus dispositivos móveis e, inclusive com indivíduos fora da sala de aula.

Uma proposta de resolução das provas, elaborada pelo professor, foi disponibilizada no formato digital após cada prova, bem como foi feita uma discussão geral da prova e dos resultados individuais e coletivos em sala de aula. Nessa oportunidade os alunos também puderam discutir os resultados gerais da classe e as estratégias utilizadas para a aprendizagem e a realização da prova.

É importante ressalvar que essa metodologia foi apresentada, discutida e aprovada pelo conjunto dos alunos no início do ano letivo, durante a elaboração do contrato pedagógico e, a cada bimestre a metodologia foi novamente discutida e revalidada. Vale também notar que os alunos não apontaram modificações nem apresentaram ressalvas a essa metodologia em nenhum momento durante o ano letivo, o que indica claramente sua adesão a ela.

Discussão

Observou-se, já de início, uma menor resistência por parte dos alunos a submeterem-se a avaliações escritas do tipo prova. A discussão da metodologia que seria utilizada e sua validação como parte do contrato pedagógico foi fundamental para quebrar eventuais resistências, visto que para muitos alunos a experiência de fazer provas escritas já havia se perdido ao longo dos anos anteriores ou causado traumas. Também é importante frisar que as provas constituíram apenas 40% da nota final do aluno, já que esta depende de uma avaliação global e contínua baseada em diversos critérios, além da avaliação por provas, e isso pode ter contribuído para a redução do estresse.

A possibilidade do aluno consultar qualquer material, inclusive a internet ou outras pessoas por meio de redes sociais, criou a necessidade de repensar todo o modelo de prova escrita, abrindo espaço para a criatividade e a autoria em detrimento da mera coleta de informações. A metodologia desenvolvida para a criação de provas escritas compatíveis com essa nova forma de avaliar, que também incorpora as potencialidades da sociedade da informação, será descrita em artigo posterior por tratar-se de um assunto também extenso e importante.

O engajamento dos alunos na atividade de realização da prova aumentou de forma considerável, sendo raros, ao final do experimento, os alunos que desistiam da resolução da prova antes do término do tempo estipulado. Observou-se, pelo contrário, o surgimento de grupos de alunos que apresentavam alguma frustração pela limitação do tempo. Ao fim do ano letivo foram muito raros os casos de “desistência do aluno”, isto é, quando este devolve uma prova “em branco”.

A possibilidade de construir suas próprias respostas sem o estresse de tê-las comparadas a um”gabarito oficial” permitiu o aperfeiçoamento da autoria e o uso da criatividade, criando por vezes soluções brilhantes para problemas complexos ou visões distintas sobre um mesmo problema simples. A re-significação dos conceitos de “certo e errado”, abrindo espaço para interpretações intermediárias e exposições incompletas, permitiu avaliar com mais precisão o grau de compreensão de cada aluno, bem como os elementos conceituais que apresentaram deficiência de aprendizagem pelo conjunto de alunos de uma dada classe.

Contrariamente à expectativa um tanto generalizada, mas até então não aferida, de que os alunos plagiariam uns aos outros fazendo um uso antiético das TDIC, o uso das redes sociais como forma de “trapaça” mostrou-se ineficiente por variadas razões e levou a uma aprendizagem importante sobre o significado do termo “colaboração”, a importância da autoria e a novas aprendizagens sobre formas de reestruturar as informações, transformando-as em conhecimento.

Sobre esse aspecto vale ressaltar que foram observados ganhos consideráveis sobre a aprendizagem dos alunos no uso pedagógico das TDIC, tanto para colaboração em rede como para o uso individual das ferramentas de organização. Além disso, as questões éticas sobre autoria, plágio e colaboração puderam ser trabalhadas no contexto das aulas de forma transversal ao conteúdo específico da disciplina.

Ao longo do ano letivo foram observados o desenvolvimento de habilidades de leitura, interpretação, comunicação e organização de ideias, independentemente de conteúdos curriculares, e um expressivo ganho qualitativo na capacidade de propor soluções para problemas e situações desafiadoras.

Evolução das médias de prova

Evolução das médias de provas por classe e bimestre – 2013

Em termos de aprendizagem curricular, verificou-se também uma melhora considerável ao longo do ano letivo. Embora as notas médias finais das provas de cada classe tenham sido baixas em uma escala comparativa com a expectativa máxima de aprendizagem, houve acréscimos consideráveis ao longo dos quatro bimestres e, ao final, os resultados médios atingiram em algumas classes patamares raros de qualidade.

Individualmente verificou-se que alunos com bom potencial inicial, devido a uma melhor escolarização anterior, conseguiram atingir resultados máximos de aprendizagem conforme as expectativas medidas. Por outro lado, verificou-se também que todo o conjunto de alunos apresentou melhora regular na aprendizagem ao longo do ano, salvo exceções explicadas por outros contextos que extrapolam a sala de aula.

Provavelmente devido ao maior grau de maturidade e a existência de expectativas mais concretas no horizonte próximo, as classes dos terceiros anos foram as que apresentaram melhor resposta a essa metodologia.

Como o experimento se deu em dois anos seguidos e com classes de séries distantes (primeiro ano e terceiro ano) não foi possível medir o impacto causado em uma mesma classe submetida a essa metodologia em anos consecutivos, mas arrisco-me a supor que no segundo ano de aplicação dessa metodologia teríamos bons resultados já desde o início do ano e uma curva de melhora menos acentuada ao longo do ano letivo.

Resultados

Por meio de uma nova metodologia de elaboração e aplicação de provas escritas, inserida em um contexto de uso intensivo das TDIC na sala de aula e durante essas avaliações, verificamos uma significativa melhora no letramento dos alunos, tanto no sentido tradicional quanto no letramento digital, nas práticas de estudo e organização e nos resultados gerais da aprendizagem. Foi possível constatar que processos colaborativos complexos deram lugar à tradicional “cola”, contrariando o senso comum, e que os alunos passaram a demonstrar maior interesse pela disciplina estudada e pela obtenção de bons resultados nas avaliações.

Observou-se um maior empenho dos estudantes em obter bons resultados, uma menor “evasão da prova” e uma mudança importante no comportamento criativo dos alunos, levando-os a propor soluções mesmo quando não detinham as informações necessárias para a correta solução do problema. De forma correlata, diminuiu muito o estresse pré e pós prova, bem como os incidentes corriqueiros nesse tipo de avaliação, como tentativas de fraudes e plágio.

O desenvolvimento de uma nova metodologia de elaboração de provas com suporte ao uso das facilidades trazidas pelo uso da internet e das redes sociais mostrou-se possível a partir de novos paradigmas sobre a aferição da qualidade da aprendizagem, tais como a capacidade de resolver problemas personalizados e a autoria na elaboração de propostas a partir do livre acesso às informações necessárias.

Melhoraram também as habilidades de pesquisa e síntese dos alunos, a concentração na execução de tarefas e a capacidade de trabalhar colaborativamente. Outros parâmetros que compõem a matriz de avaliação contínua e global também apresentaram melhoras com forte correlação, tais como a frequência, o empenho na realização de atividades e tarefas e o grau de engajamento nas atividades de classe.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Avaliação da era das TDIC, Professor Digital, SBO, 15 jun. 2015. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2015/06/15/avaliacao-na-era-das-tdic>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

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A escola nativa digital e seus professores órfãos pedagógicos

17/02/2014

Resumo

Há duas décadas vem se tratando do problema de adaptar a escola a um modelo que incorpore as novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC). Esse tempo acabou: a escola já incorporou as TDIC no seu cotidiano, muito embora professores, gestores locais e gestores de políticas públicas ainda tenham muita dificuldade em encarar essa nova realidade do ponto de vista de seus velhos paradigmas.

Nesse artigo tratamos da necessidade de uma reflexão sobre essa nova escola e os papéis de alunos, professores e gestores diante da realidade que se apresenta. As análises apresentadas aqui baseiam-se em observações feitas em uma escola estadual paulista inovadora, em estatísticas e relatórios de diversos órgãos e no acompanhamento de professores que atuam em escolas de ensino básico das redes pública e particular.

Palavras-chave: Educação, mobiles, smartphone, TDIC, TIC, novas tecnologias, inovação

A escola que temos é a que sobrou, não a que construímos

Celulares nas escolas

A escola já é nativa digital.

Há duas décadas as escolas, principalmente públicas, viam-se diante de dificuldades de toda ordem, mas principalmente aquelas oriundas do sucateamento ocorrido nas décadas do regime militar. Embora muitas escolas ainda se encontrem sucateadas, é inegável que a situação já esteve pior e não há perspectiva em curto prazo de que esse panorama vá mudar.

Nas últimas décadas as escolas “sem tudo” eram um padrão comum no ensino público (e, disfarçadamente, no ensino privado). De lousas esburacadas e falta de giz até a falta de currículos ou planos pedagógicos, a escola era uma mendiga feia que tentava abraçar as políticas de inclusão que se intensificavam nessa época. Incluir, então, significava apenas colocar mais e mais alunos dentro das escolas e garantir que eles não a abandonassem, quer pela implantação de políticas de progressão continuada, quer pela pura e simples política local de “empurrar o aluno adiante a qualquer custo” (e mesmo que esse custo significasse falsificar a documentação escolar, como ocorreu na maioria das escolas e continua ocorrendo ainda).

Diante da impossibilidade de executar qualquer plano de ensino sem o mínimo suporte, que ia da falta de papel, giz, material didático para o aluno, carteiras, merenda, etc., até a falta de uma teoria pedagógica capaz de dar conta de uma situação de inclusão forçada, o que se viu foi uma escola que deixou de ser escola para tornar-se uma espécie de presídio de crianças e adolescentes, que ali vinham sem nenhum propósito ou possibilidade de aprendizagem e que ali permaneciam, quando permaneciam, por imposição da escola e da família.

O resultado mais palpável disso é o que observamos agora quando analisamos índices como o PISA e as diversas avaliações externas de âmbito nacional ou estadual. Atualmente estima-se que essa geração que iniciou seus estudos há duas décadas constitua o contingente de mais de 50% de analfabetos funcionais presentes no ensino superior, a quantidade significativa de jovens “nem-nem” (que não estudam e nem trabalham) e uma parcela preocupante de desempregados jovens incapazes de acompanhar as formações continuadas oferecidas pelas empresas e, portanto, sem empregabilidade.

Porém, também é dessa geração um contingente considerável de professores que passaram essas duas décadas aprendendo a desaprender, a crer que a escola era uma empreita impossível e assim, adaptando-se a um modelo corrompido e insustentável, muito bem descrito pela frase “o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende e o governo finge que paga”.

A escola que temos hoje, seus professores, gestores e técnicos são fruto dessa escola que destruímos nas últimas duas décadas e que vive ainda sob esses paradigmas, que não são apenas paradigmas de uma escola fordista, bancária, excludente, propedêutica e militarista como tem sido afirmado muitas vezes, mas também dos novos paradigmas de uma escola inclusiva, mas sem propósitos, libertária, mas sem rumo. Uma escola que se viu órfã da sustentação dos modelos repressores e excludentes que apoiavam a pedagogia e as metodologias tradicionais e, ao mesmo tempo, que foi lançada às cegas aos propósitos inclusivos e libertários que lhe foram impostos nas últimas décadas.

Pensar em inovação e uso de novas tecnologias em uma escola sem identidade ou propósitos, que perdeu seu rumo na história e ainda se encontra sucateada e mal assistida, não é tarefa exclusiva para professores ou gestores locais, mas também para os técnicos e políticos e, principalmente, para a academia e os formadores de opinião. No entanto, pode ser possível transformar parte dessa realidade a partir de ações locais, e para isso as novas tecnologias, quando vistas como oportunidades de intervenção nas práticas pedagógicas, podem ser ferramentas poderosas.

Escolas sucateadas, ao contrário do senso comum, são bons ambientes para a inovação com práticas envolvendo as TDIC, tanto quanto são ambiente fértil para “pequenas revoluções” que devolvam a professores, alunos e gestores locais noções de autonomia, responsabilidade e liberdade (de cátedra e de aprendizagem).

Quando uma solução é vista como problema

Em todas as oportunidades de formação de professores, quer para uso das novas tecnologias, quer para uso das velhas didáticas, a grande dificuldade que se percebe nos professores não diz respeito às novidades tecnológicas ou mesmo à concepção teórica de uma escola inovadora e libertária, mas sim à práxis pedagógica, à transposição desses conceitos para metodologias de ensino, práticas efetivas de sala de aula e ideologias que acolham essas novas concepções no cotidiano do fazer pedagógico.

As novas tecnologias ainda são vistas como “novos problemas” por um razoável número de professores simplesmente porque eles não sabem o que fazer com elas. Mas o que pouco se comenta e, de fato, é a parte importante da raiz do problema da inovação pedagógica, é que esses professores também não sabem o que fazer sem elas!

O professor que não sabe o próprio currículo que tem que ensinar, que não sabe ensinar nem a alunos interessados em aprender e nem é capaz de preparar minimamente suas aulas para além do Ctrl+C do livro didático e Ctrl+V na lousa, esse professor não precisa de novas tecnologias, precisa de uma nova profissão. No entanto, as redes educacionais não podem prescindir desses professores, porque não há outros melhores para substitui-los e, ao fim e ao cabo, eles foram formados e treinados tal como se apresentam.

Um exemplo notório de como as TDIC estão sendo amplamente desperdiçadas como ferramentas de ensino e aprendizagem é o uso, ou falta dele, dos mobiles (smartphones, tablets, netbooks, notebooks, etc.). É um fato incontestável que mais da metade dos alunos na maioria das escolas públicas ou privadas, quer nos grandes centros quer nas mais distantes periferias, possui atualmente um smartphone. Também é um fato inconteste que esses aparelhos, agora conectados à internet via 3G, wireless ou outras tecnologias de comunicação sem fio, constituem-se em ferramentas importantíssimas para suprir parte das deficiências dessa escola sucateada e mal assistida. No entanto, as políticas restritivas ao uso desses aparelhos partem desde os gestores políticos (governos e secretarias) até os gestores da base (direção, coordenação e corpo docente).

Não é concebível que um aluno que estuda em uma escola que mal oferece água fresca e potável para seus alunos, quem dirá então bibliotecas modernas, salas-ambiente, laboratórios e apetrechos facilitadores (como calculadoras, computadores, dispositivos de som e imagem, etc.), possa proibir seus alunos de usarem seus smartphones sob a alegação de que eles atrapalham a aprendizagem. Que aprendizagem? Em quais índices, pesquisas ou avaliações vê-se demostrada essa aprendizagem que tanto se fala em preservar?

Experiências feitas em uma escola pública onde os alunos tem relativa liberdade de uso de seus smartphones e possuem ainda acesso livre a uma conexão wireless, mostraram que tanto esses quanto os seus professores fizeram usos mais produtivos do que problemáticos desse aparelho. Na contramão da inovação, mas ainda representando a grande via atual onde trafegam as nossas escolas, aquelas onde há uma política rígida de proibição de uso de smartphones não só não comprovam nenhum ganho de aprendizagem em relação a outras menos restritivas como também não conseguem restringir de fato o uso desses aparelhos e, por causa disso, têm problemas adicionais com a administração dos conflitos inevitáveis advindos dessa política.

Em artigos anteriores [1] [2] já tratei das diversas possibilidades de uso dos smartphones (e mobiles em geral), mas cabe também tratar uma nova questão que se apresenta a partir do uso inevitável desses aparelhos por parte dos alunos: de forma independente dos seus professores (que proíbem ou não usam pedagogicamente esses aparelhos) os alunos estão descobrindo formas de uso que facilitam seus estudos.

Esse movimento de “uso pedagógico dos mobiles e TDIC não assistido por educadores” sempre existiu, ainda que veemente negado por professores que “abominam” o uso das TDIC, e vem se acentuando nos últimos anos. Alunos atualmente, e à margem de qualquer orientação pedagógica, utilizam seus smartphones para agendar suas tarefas, consultar dicionários e enciclopédias, pesquisar sobre temas que aprendem em aula, registrar lousas e quadros de aviso por meio de imagens, trocar informações com colegas e até mesmo praticarem outras línguas. Sem falar do desenvolvimento de raciocínio lógico-estratégico a partir dos tão odiados (por alguns professores) games.

Pressão e repressão no sistema educacional

De parte dos professores também é crescente o uso das TDIC à margem dos seus gestores imediatos e mais distantes e, infelizmente, à margem de uma metodologia pedagógica e consistente de uso. Esse movimento vem ganhando massa crítica e em muitas escolas já começa a produzir uma pressão favorável à modernização dos processos de ensino que vão da preparação e execução de aulas até a documentação burocrática. Em alguns casos, felizmente, esse movimento também tem contaminado outros docentes e se disseminado para além dos muros locais da escola por meio das redes sociais.

Em escolas onde os professores passaram a fazer uso frequente e consistente do projetor multimídia, por exemplo, já há pressão para a aquisição de mais aparelhos, salas apropriadas, conexão à internet de melhor qualidade, etc. Onde professores inovadores começam a organizar e gerenciar o uso de mobiles ao invés de proibi-los, há pressões para a flexibilização de regras de convivência e a própria noção de autonomia de cátedra começa a renascer. Até mesmo a documentação burocrática do professor, melhor descrita pela presença ainda arqueológica da velha “caderneta escolar”, já começa a sofrer modificações graças a iniciativas de uso de documentação eletrônica e mesmo online [3].

A toda essa pressão inovadora se opõe, muitas vezes, a repressão de coordenadores, diretores e supervisores escolares que ainda vivem sob os auspícios tardios do sistema repressor da ditadura militar e que, via de regra, se enquadram nos moldes daqueles educadores que perderam o rumo nas últimas duas décadas. No entanto, não há suporte legal nem pedagógico para ações repressivas aos professores inovadores e, por isso, pouco se fala sobre o tema a fim de não trazê-lo à tona para a discussão (visto que seria uma discussão perdida).

Do ponto de vista da gestão das políticas educacionais, ainda que o governo federal e alguns governos estaduais tenham empreendido algumas políticas de inclusão digital, pouco tem sido feito, de fato, para promover o letramento digital de toda a máquina educacional. Não há, por exemplo, políticas claras sobre o direcionamento dos movimentos de inovação, sobre um currículo de letramento digital ou mesmo algum consenso sobre um pacote mínimo de apetrechos e logística para dar suporte às novas tecnologias nas escolas. O que se tem visto em muitos locais são apenas pequenos projetos pilotos, muitas vezes encabeçados por institutos e fundações do terceiro setor, que são usados mais para o marketing político nas campanhas eleitorais (ou o marketing social das organizações não governamentais) do que como projetos visando toda a rede onde são implantados para teste.

A pressão necessária para o surgimento de políticas públicas mais consistentes nessa área depende menos dos atores das redes educacionais do que da mídia e de um conjunto de formadores de opinião que estão mais presos a paradigmas econômicos do que educacionais. Portanto, nessa esfera só podemos atuar de forma organizada e estrategicamente pensada em termos político-econômicos, o que infelizmente não acontece no universo das redes educacionais depois do desmantelamento e desvirtuamento dos sindicatos de classe.

Conclusões

A escola atual já é nativa digital, pois seus alunos são nativos digitais e a sociedade onde vivem faz uso ostensivo das TDIC. Independentemente das políticas locais, estaduais ou federais relativas às novas tecnologias, elas existem dentro da escola, ainda que escondidas nos bolsos dos alunos na forma de um smartphone. Por outro lado, professores e gestores, em grande número, são órfãos pedagógicos de uma escola que se viu sem rumo nas últimas duas décadas e que perdeu a competência de ensinar sem ou com novas tecnologias.

Nesse contexto, as novas tecnologias representam oportunidades tanto de inovação tecnológica quanto pedagógica, pois com elas se pode também trazer a capacitação que falta aos professores para o domínio próprio de seu fazer pedagógico, a capacitação de gestores para lidarem com as novas demandas oriundas de qualquer inovação, e não apenas a tecnológica e, no limite, aos gestores de políticas públicas por meio da reengenharia das redes educacionais, sem a qual estaremos apenas remendando as muletas de uma escola aleijona.

Por ser dinâmica, a escola se transforma mesmo à revelia de políticas públicas globais ou locais, mas a pressão local que se inicia com as demandas dos próprios alunos e se expande para o corpo docente pode levar à mudança de diversos paradigmas e a redescoberta da autonomia da escola, dos objetivos da gestão em todas as esferas das redes educacionais e, no limite, a reengenharia das redes educacionais com políticas públicas de inclusão e letramento digitais consistentes com as demandas mais atuais.

Referências e sugestões na Internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. A escola nativa digital e seus professores órfãos pedagógicos, Professor Digital, SBO, 17 fev. 2014. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2014/02/17/a-escola-nativa-digital-e-seus-professores-orfaos-pedagogicos>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Uso pedagógico do telefone móvel (Celular)

13/01/2010

Contextualizando

O primeiro telefone móvel (celular)

Martin Cooper, da Motorolla, e o primeiro telefone celular.

O telefone móvel, ou celular, foi lançado em 1973, em Nova Iorque. Na época ele era gigantesco, pesava o equivalente a dúzias de celulares modernos e tinha uma área de abrangência muito restrita, além de ser analógico (*1) e não digital (*2).

Somente uma década mais tarde, em 1983, chegaria ao mercado o primeiro modelo comercialmente viável, o DynaTAC 8000x, da Motorola, pesando apenas 794,16 gramas.

Você pode encontrar um pouco da história dos celulares nos links sugeridos no final deste artigo.

O meu primeiro celular, foi um “tijolinho” da Motorola que inaugurou a linha de microcelulares, o Microtac. Na época (década de 90) ele custava caríssimo e só funcionava em uns poucos lugares “iluminados”, pois a maior parte do país ainda era uma área de sombra (*3) para a telefonia móvel incipiente de então.

Meu primeiro telefone celular

Meu primeiro celular foi um Motorola Microtac. O mais leve da categoria em sua época, pesando apenas 290 gramas!

Confesso que na época eu mesmo não via nenhuma outra utilidade no telefone celular que não fosse a de poder falar de diferentes lugares com um mesmo telefone. O celular era então apenas um telefone e somente adultos dispostos a investirem uma quantia razoável, e que tivessem uma boa razão para tal, se dispunham a comprá-lo.

Hoje em dia o telefone celular é um dos aparatos tecnológicos mais comuns. Segundo pesquisa do Núcleo Gestor da Internet no Brasil, em 2008 52% da população do Brasil já possuía telefone celular. Nos grandes centros urbanos já é quase impossível encontrar alguém com mais de 14 anos que não tenha um telefone celular.

Celular moderno

Celular moderno, com tela giratória e com capacidade para HDTV.

Os telefones celulares atuais são pequenos, leves, tem baterias duradouras, funcionam em quase todos os lugares e há muito deixaram de exercer apenas a função de telefone. Hoje em dia os telefones celulares são verdadeiras centrais multimídias computadorizadas (*4) onde se pode telefonar (Sim! Os telefones celulares ainda servem para telefonar!), ouvir rádio, mp3, assistir TV, tirar fotos, fazer filmes, gravar voz, jogar videogame, mandar e receber e-mails ou arquivos e acessar a Internet, dentre outras muitas funções.

E é justamente por serem centrais multimídias computadorizadas que os telefones celulares deixaram de ser apenas telefones e passaram a ter múltiplas finalidades. E é claro que entre os muitos usos que podemos fazer deles, alguns também podem ser pedagógicos!

Desfazendo alguns mitos

Antes de propor usos pedagógicos para o telefone móvel celular atual é preciso desfazer alguns mitos sobre a presença do celular na escola e o principal deles é o que diz que o telefone celular é desnecessário na escola e, além disso, atrapalha o andamento das aulas.

Alguns professores se queixam que os telefones celulares distraem os alunos. É verdade. Mas antes dos telefones celulares eles também se distraiam. A única diferença é que se distraiam com outras coisas; como aliás, continuam fazendo nas escolas onde os telefones celulares foram proibidos. O que causa a distração nos alunos é o desinteresse pela aula e não a existência pura e simples de um telefone celular. Exemplo claro disso é que em muitas escolas e em muitas aulas os alunos não se distraem com seus celulares, apesar de estarem com eles em suas mochilas, nos bolsos ou mesmo sobre as carteiras.

Alguns afirmam que os alunos usam celulares para colar. Bom, é provável que sim. Alunos colam sempre que estão diante de provas e atividades que permitam ou estimulem a cola. Essas provas e atividades são geralmente pobres e requerem apenas uma resposta “decorada” ou que se assinalem alternativas, coloque-se verdadeiro ou falso ou se forneça um número como resposta. Nesses casos colar é a solução mais inteligente como resposta a uma avaliação pouco inteligente. Em avaliações onde o aluno precisa pensar, construir respostas próprias ou realizar “ações”, praticamente não há como colar, nem com celular, nem sem celular. Além disso, como todo professor sabe muito bem, a “tecnologia da cola” é muito anterior à do celular.

Aviozinhos de papel

Se proibirmos o uso de cadernos acabaremos com os aviozinhos de papel na classe?

Há quem diga que os alunos usam os telefones celulares para, propositalmente “zoarem” nas aulas, com o professor ou com os colegas. É verdade! E eles também zoariam nessas mesmas aulas sem os celulares: jogando aviõezinhos, bolinhas de papel, fazendo piadinhas e outras milhares de traquinagens possíveis. Não é o celular que incentiva o aluno à indisciplina e sim o desejo dele de confrontar o professor. A solução para esses casos não tem nenhuma relação com o telefone celular, assim como não tem nenhuma relação com os aviõzinhos de papel (ou também proibiremos os alunos de trazerem cadernos na escola porque eles tiram folhas e fazem aviõzinhos de papel?).

Assim como se argumenta que a Internet permite que os alunos tenham acesso a materiais impróprios e façam uso indevido dela, também há quem diga que os telefones celulares permitem uma série de “violações” às regras e normas éticas e morais. Na verdade também nunca foi preciso ter telefone celular para violar essas regras e a escola serve, entre outras coisas, para ajudar na formação ética e moral de seus alunos, e isso não se faz com imposição, omissão ou simples proibição. Ética e valores são conteúdos transdiciplinares que devem estar presentes sempre, inclusive ao lidarmos com as novas tecnologias.

Também se argumenta que é constrangedor para os alunos que não têm celular conviverem com outros que os têm. Provavelmente também seja verdade, mas também é igualmente verdadeiro para os tênis que eles usam, para a calça jeans, para o caderno de capa dura, para o estojo, para o relógio, etc., etc. Na escola temos que aprender, todos nós, a conviver com as diferenças e compreender a realidade que as produz. Não podemos simplesmente decretar que todos usem as mesmas roupas (apesar da exigência de uniformes em algumas escolas), que tenham os mesmos materiais escolares, que façam uso do mesmo vocabulário, dos mesmos brinquedos e principalmente, que tenham as mesmas idéias.

Enfim, todos os argumentos que costumo ouvir defendendo a proibição dos celulares nas escolas são argumentos pouco refletidos, onde os problemas reais que são apontados dizem respeito à forma de gestão de aula do professor ou a maneira como a própria escola idealiza o aluno e não ao aparelho de telefone celular propriamente dito. Antes do telefone celular esses mesmos argumentos eram usados para proibir o walkman, o baralho de cartas, os jogos de tabuleiro, as revistas, o rádio de pilhas, a calculadora, etc. etc. Na verdade às vezes eu tenho a impressão de que alguns professores gostariam que seus alunos ficassem nus, amarrados às carteiras e com uma mordaça na boca.

Além desses todos, também há um argumento bastante recorrente para justificar a proibição dos celulares na escola: eles não ajudam o professor em nada, então para que permiti-los? Vamos refletir um pouco mais sobre isso?

  • Você, professor, já usou um rádio, rádio-gravador ou um aparelho de reproduzir sons em sala de aula?
  • Já usou alguma vez uma calculadora, em alguma aula?
  • Já usou uma TV, um videocassete ou um DVD em alguma atividade?
  • Já manteve contato com os alunos por e-mail, pela Internet ou por outro dispositivo que permita comunicação à distância?
  • Já fez alguma atividade onde fosse necessário tirar fotos ou gravar um filme?
  • Já propôs alguma entrevista que fosse gravada e depois transcrita?
  • Já usou jogos eletrônicos (videogames) com seus alunos?
  • Costuma comunicar datas de provas e de entregas de trabalho para seus alunos e pede que eles anotem?
  • Já pediu alguma vez aos seus  alunos que copiassem suas anotações feitas na lousa?
  • Já lhes disse alguma vez: “Preste muita atenção na explicação que vou dar agora!” ou algo semelhante a isso?
  • Já consultou a hora para saber quanto falta para o término da aula ou já usou um cronômetro para lhe avisar quando faltarem cinco minutos para o final da sua aula?

Bom, se você já fez pelo menos uma das atividades ou ações descritas acima, então saiba que ela poderia ter sido feita de forma equivalente com o uso de telefones celulares modernos e, não raro, de forma até bem mais eficaz!

Usando o celular na escola

Vou contar uma breve historinha:

O MEC envia livros para as escolas, mas nem sempre há livros para todos. Em 2009 deparei-me com uma situação destas, em que uma classe ficou sem livros e foi necessário então compartilhar os livros entre duas classes. Porém isso impedia os alunos de levarem os livros para casa para poderem estudar… O que fazer?

Em outros tempos eu pediria aos alunos que copiassem as partes mais importantes do livro usadas em cada aula e diríamos que isso era a “matéria para ser estudada”. Isso demanda muito tempo de aula gasto inutilmente, pois não temos esse tempo disponível, temos? Além disso, a menos que o objetivo da aula seja treinar caligrafia ou chatear os alunos, fazer cópias de livros e mesmo da lousa é algo realmente “inútil”. Também existe a possibilidade de fotocopiarmos algumas páginas, mas isso tem um custo com o qual poucas escolas públicas podem arcar.

Mas não precisamos mais fazer nada disso. Agora basta pedir aos alunos que peguem seus celulares e FOTOGRAFEM as páginas importantes do livro! E foi justamente isso que os alunos fizeram.

Fotografando e gravando com o celular

O Celular como ferramenta de registro

O mesmo vale para a lousa e mesmo para as pesquisas bibliográficas na biblioteca. Quando algum aluno me pergunta hoje em dia se precisa copiar minhas anotações da lousa, eu logo lhe recomendo que faça algo mais inteligente: fotografe a lousa! E eles fazem!

Essa brevíssima historinha, que é apenas uma dentre muitas,  já me permite então listar algumas sugestões para o uso pedagógico dos telefones móveis celulares modernos em sala de aula e fora dela:

  1. Se você em algum momento faz cálculos em suas aulas e solicita que os alunos os façam, e a menos que por alguma boa razão eles devam fazer esses cálculos com algoritmos específicos e usando papel e lápis, então considere fortemente a possibilidade de usar os celulares como calculadoras. Além disso, se você é professor de matemática e quer ensinar seus alunos como resolver expressões aritméticas obedecendo as regras de precedência de operadores, considere que o uso de calculadoras, e portanto celulares, consiste em um método bastante eficaz de fazê-lo, pois as máquinas seguem a ordem que nós determinamos para as operações; o telefone celular é uma calculadora também;
  2. Se você marca datas de provas, entregas de trabalho ou outras datas que considera importante que os alunos se lembrem, peça-lhes que anotem essas datas. Não no caderno, mas sim na agenda do celular! Eles andam com o celular no bolso o tempo todo e só estão perto do caderno quando estão na escola, confere? O telefone celular é uma agenda que tem até mecanismo de alerta;
  3. Já é possível criar um serviço de envio de mensagens de aviso por e-mail ou via torpedos. Pelo celular é possível receber atualizações de sites, blogs e até mesmo de mensagens do Twitter, bem como fazer o caminho oposto. Se quiser dar um passo adiante você pode criar um serviço desses e disponibilizar para seus alunos; o telefone celular também é um serviço de leitura de notícias e de publicação de notícias;
  4. Os celulares atuais gravam sons, imagens (fotos) e ambos (filmes). Todos esses recursos servem para “registro”. Permita, e mesmo incentive, que seus alunos fotografem sua lousa ao invés de copiá-la no caderno. Isso lhes permite prestar atenção em você, enquanto você fala e escreve, ao invés de repartirem a atenção entre o que você diz e o que eles estão copiando nos cadernos. O mesmo vale para as suas explicações importantes que podem ser gravadas como sons ou como filmes. Imagine o quanto é mais interessante para o aluno “assisti-lo” ou mesmo “ouvi-lo” na hora de estudar do que apenas conferir anotações, nem sempre fiéis, feitas nos cadernos! Use, você mesmo, esses recursos para registrar atividades feitas com os alunos; o telefone celular é uma câmera fotográfica digital, uma filmadora digital e um rádio-gravador digital;
  5. Proponha o uso dos celulares como ferramentas para os alunos desenvolverem seus trabalhos. Como foi dito acima, com o celular eles dispõem de gravador de voz, imagem e vídeo, muito embora eles mesmos não tenham o hábito de registrar suas atividades. Isso é o que chamamos de “making-off” das atividades e, ao fim e ao cabo, é esse o único registro que nos interessa e não o resultado final da atividade. Por exemplo, se eles têm que confeccionar uma maquete, porque não fotografar todas as etapas e depois transformar isso em um filme (animação) que pode ser incluído como parte da própria atividade? O telefone celular é uma ferramenta de registro, edição e publicação.
Aparelho de celular moderno

Siemens SK65 – celular ou computador?

Há uma infinidade de possibilidades de uso pedagógico dos telefones celulares modernos em sala de aula e fora dela. Quais lhe interessam? Isso certamente depende da forma como você, professor, usa a tecnologia para si mesmo, em suas aulas e com os seus alunos. Quem não vê nenhum uso pedagógico para o rádio, a televisão, a máquina fotográfica, a filmadora, o gravador, a calculadora, a agenda, etc., então também não verá nenhuma utilidade para o celular, pois é isso que ele representa hoje em dia: não é mais um simples telefone, o celular é uma central de multimídia computadorizada.

Celulares na escola

Eles têm, eles trazem e eles usam… Porque não?

À propósito, sempre foi muito comum a falta de recursos tecnológicos nas escolas, principalmente nas escolas públicas. Com o telefone celular passamos a ter muitos desses recursos disponíveis não apenas pela escola, mas também pelos alunos! Isso deveria ser comemorado, mesmo que não concordemos que os alunos prefiram ganhar celulares dos seus pais do que enciclopédias, pois com os celulares eles também ganham diversas possibilidades de aprendizagem que antes não tinham porque a própria escola não dispunha desses recursos. Isso é fascinante, não é?

Alguns cuidados finais

Porém, antes de sair por aí reformulando todas as suas práticas e instituindo a obrigatoriedade do uso do telefone celular na escola, tenha em mente que ainda temos muitos alunos que não têm telefone celular ou que têm telefones celulares que não dispõem de todos os recursos mencionados aqui. Além disso, em alguns estados e municípios (e há uma lei tramitando com validade para o país todo) o celular é proibido na escola. Portanto, é preciso sempre:

  • propor atividades que envolvam o uso de celulares para grupos de alunos em que pelo menos um aluno do grupo disponha do celular com o recurso que será utilizado;
  • permitir que os alunos aprendam a usar o recurso antes de propô-lo como parte de uma atividade. Geralmente os alunos dominam os celulares melhor do que seus professores e aprendem rápido a usá-lo, por isso é uma boa idéia “deixar que eles mesmos ensinem e aprendam a usar o recurso entre eles mesmos” (e aproveite para aprender também!);
  • discutir as questões éticas e morais envolvidas no uso de imagens e registros, bem como o uso indevido dos celulares e de outros equipamentos de mídia;
  • estabelecer claramente no planejamento da sua atividade, e descrever em detalhes no seu planejamento de aula, os objetivos do uso do celular nas atividades propostas. Haverá sempre alguém para se indignar com o fato do celular estar sendo usado na sua aula, infelizmente;
  • e, por último, estabelecer claramente as regras de uso dos celulares na escola de maneira geral e, em particular, durante as aulas em que não estarão usando o celular “como parte da aula”, da mesma forma como estabelecemos as regras para o uso do baralho, dos jogos de tabuleiro, dos avioezinhos de papel e de todo o resto.

Veja que não é difícil negociar o que pode e o que não pode, quando se deve e quando não se deve usar o celular. Fazemos isso da mesma forma como estabelecemos outras regras de convivência na escola. Os conflitos mais comuns que surgem nas salas de aula devem-se justamente à falta de uma definição clara desses acordos e da crença em pressupostos perigosos, como o de que o aluno “deve saber naturalmente o que é certo e o que é errado”.

Também é importante discutir com os alunos os limites éticos e morais do uso do celular, e de outros instrumentos tecnológicos modernos, fora da escola. O celular é parte do cotidiano deles e ensiná-los a usá-lo com sabedoria é também parte da nossa tarefa como educadores. E esta é mais uma boa razão para usar os celulares na escola como ferramentas pedagógicas, pois com isso somos naturalmente levados ao contexto do seu uso responsável e podemos desempenhar nosso papel de educadores de forma natural.

Glossário:

(*1) Sinal Analógico: sinal contínuo que varia com o tempo. A informação é transmitida por meio dessas variações.

(*2) Sinal Digital: sinal transmitido da forma de “zero” e “um”, ou seja, a informação é transmitida na forma binária.

(*3) Área de sombra: região onde os telefones celulares não conseguem conexão com nenhuma torre de transmissão e, portanto, não funcionam.

(*4) Central multimídia computadorizada: este termo esta sendo usado aqui para descrever um aparato que disponibiliza diversas mídias (texto, rádio, TC, etc.) de maneira digital, isto é, controlada por um processador (computador).

Sugestão de outros textos disponíveis na Internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico do telefone móvel (Celular), Professor Digital, SBO, 13 jan. 2010. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2010/01/13/uso-pedagogico-do-telefone-movel-celular/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

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