Uso pedagógico dos fóruns


Fórum: o que é, para que serve e como usá-lo pedagogicamente

Internet na Escola: exemplo de um fórum com finalidade pedagógica
Internet na Escola: exemplo de um fórum com finalidade pedagógica

Uma das ferramentas interativas mais comuns em qualquer Comunidade Virtual ou Ambiente de Ensino à Distância é o fórum. O fórum também é conhecido e referenciado às vezes como “lista de discussão” ou “grupo de discussão”.

Um fórum é um espaço interativo assíncrono para troca de mensagens e, às vezes, arquivos. Todas as mensagens enviadas para um fórum podem ser distribuídas para todos os seus participantes e ficam armazenadas no fórum para consulta posterior.

Os fóruns podem ser públicos, quando qualquer um pode acessar os seus recursos, ou privados, quando apenas os usuários registrados nele podem ler e publicar mensagens. Em geral, mesmo nos fóruns públicos, é necessário que o usuário esteja registrado como participante do fórum ou da comunidade (ou site) que fornece o fórum.

Os fóruns podem ser mediados ou não. Quando um fórum é mediado existe uma pessoa ou um grupo que acompanha e orienta o uso do fórum podendo, em alguns casos, bloquear usuários, excluir mensagens ou submetê-las à mediação antecipada (ou seja, as mensagens só são liberadas para o fórum após a aprovação dos seus mediadores).

Há fóruns temáticos onde se discute apenas um determinado tema ou onde os temas são fornecidos periodicamente pelos mediadores e, outros, onde os temas são livres e propostos diretamente pelos usuários.

Ao contrário de uma Comunidade de Relacionamento, onde as pessoas trocam mensagens pessoais e as conversas são descomprometidas, podendo abordar qualquer tema e, muitas vezes, envolvendo apenas um “bate-papo” entre os participantes, os fóruns geralmente abrigam debates ou conversas direcionadas para o tema do fórum (embora isso não seja uma regra determinante em todos os fóruns e existam fóruns específicos para relacionamentos sociais). Por essa razão, os fóruns são organizados de forma que para cada tópico aberto siga diversas mensagens em resposta a ele, todas relacionadas diretamente à mensagem original que abriu o tópico.

Exemplo de mensagens e respostas aninhadas
Exemplo de mensagens e respostas aninhadas

Fóruns podem tanto fornecer um espaço para a expressão e a autoria de seus participantes quanto um espaço de estudo e reflexão e, geralmente, se prestam a ambos. Por serem ferramentas assíncronas, onde cada um pode acessar, ler e escrever em qualquer tempo, e porque estão disponíveis na Internet, eles permitem que seus participantes acessem-nos de qualquer lugar e a qualquer momento, dando assim uma flexibilidade e uma praticidade de uso muito grande.

Do ponto de vista pedagógico os fóruns podem ser utilizados de várias formas:

1 – como elementos de organização do estudo de determinado tema ou texto: neste caso, um tópico inicial, que pode conter um texto ou várias referências de estudo, abre uma discussão sobre o tema abordado e é seguido pelas mensagens com comentários dos participantes. Como o fórum mantém armazenadas as mensagens enviadas pelos participantes, eles permitem que essas participações sejam analisadas e avaliadas pelo professor ou mediador. Um exemplo de uso pedagógico pode ser a discussão do tema de uma determinada aula, palestra, ou texto submetido aos alunos de uma classe para que estudem-no e o comentem no fórum.

2 – como espaços de socialização e fortalecimento de relações sociais: nesse caso os fóruns permitem que os participantes se conheçam, se apresentem e troquem mensagens sobre assuntos pessoais. Esse tipo de fórum é normalmente utilizado quando se reúnem pessoas espacialmente dispersas e que não se conhecem e quando se deseja que elas se apresentem e falem sobre si mesmas. Um exemplo de seu pedagógico pode ser a integração entre alunos e professores de diferentes escolas no momento inicial de um projeto ou tarefa conjunta.

3 – como espaço de troca de experiências, reflexões e informações: nesse tipo de fórum há um contexto, ao invés de um tema, que engloba todos os usuários de uma mesma comunidade de interesses. É comum, por exemplo, quando um fórum reúne professores de uma determinada disciplina ou que estejam interessados em aprender e discutir sobre um dado assunto. Um exemplo de uso pedagógico desse tipo de fórum é o fórum Internet na Escola, do Educarede, onde o tema motivador é o uso pedagógico dos computadores e da Internet (TICs).

4 – como biblioteca e para distribuição conteúdos específicos: nesse tipo de fórum as postagens geralmente trazem textos, arquivos anexados ou referências para estudo e o fórum é um meio de disseminar essas informações pelo grupo de participantes. O fórum funciona como uma “biblioteca” porque mantém armazenadas todas as mensagens e é mais prático do que uma biblioteca on-line porque distribui essas informações para todos os seus assinantes. Um exemplo de uso pedagógico desse tipo de fórum consiste em reunir e distribuir, para os alunos de uma dada turma, as informações sobre uma determinada disciplina ao longo do ano letivo, como uma espécie de biblioteca de paradidáticos (ou mesmo didáticos) sobre a disciplina em questão.

5 – como lista de avisos e distribuição, ou para coleta de informações: nesse tipo de fórum os participantes recebem avisos e comunicados sobre o tema do fórum ou sobre o tema corrente ou, alternativamente, recebem tarefas que devem cumprir e para as quais podem usar o fórum como meio de envio dessas tarefas. Um uso pedagógico para esse tipo de fórum consiste em remeter “tarefas de casa” e colhê-las novamente nas postagens de resposta dos alunos.

6 – como meio de documentação e relato: nesse tipo de fórum as mensagens e tópicos relatam ou documentam ações de um projeto em andamento e o fórum funciona como um “diário do projeto”. Um uso pedagógico para esse tipo de fórum pode ser o de documentar um determinado projeto de aprendizagem de uma turma ou da própria escola ou, ainda, como meio de documentação de todos os projetos em andamento em uma escola.

Evidentemente há ainda muitas outras possibilidades e elas aparecem a cada dia, pois os fóruns são ferramentas bastante flexíveis e tendem a se adaptarem às novas necessidades e tecnologias.

O que pode e o que não pode:

Apesar de terem formatos e propósitos variados, há algumas regras que se aplicam a praticamente todos os fóruns e que ajudam a mantê-los produtivos e organizados:

1 – é importante manter uma conversação adequada, pois todas as mensagens são públicas e distribuídas para todos os participantes. Isso significa que não se pode nem pensar em usar termos chulos, palavrões, ou expressões rudes com os colegas. Também não é recomendável usar gírias ou expressões muito regionais em fóruns com participação de pessoas do país todo, pois muitos participantes não compreenderiam essas palavras ou podem mesmo ter significados diferentes para elas. Da mesma forma, abreviações e expressões simplificadas que usamos em trocas de mensagens por meio de bate-papos, recadinhos do Orkut ou no MSN, nunca são bem vindas nos fóruns.

2 – a participação em um fórum deve ser frequente se você espera interagir com os demais participantes pois, embora o fórum seja uma ferramenta assíncrona e cada participante possa responder a uma determinada mensagem quando lhe convier, se o tempo decorrido entre a mensagem original e a resposta for muito grande, pode ocorrer da resposta já não ser importante quando for enviada, ou dos demais participantes nem terem mais interesse nela. Disso decorre que, apesar de ser uma ferramenta assíncrona, o fórum requer uma frequência de participação relativamente grande e que as mensagens sejam respondidas em um prazo curto.

3 – não devemos responder uma mensagem criando um novo tópico, mas sim respondendo diretamente ao tópico para o qual se quer dar uma resposta. Para isso os fóruns têm sempre uma opção de “responder à mensagem” e outra para “criar um novo tópico”. Quando respondemos uma mensagem criando um novo tópico, dificilmente os demais participantes perceberão que essa nova mensagem é uma resposta. Os fóruns também possuem, geralmente, uma organização “em cascata”, de forma que as respostas ficam “aninhadas” (deslocadas para a direita) em relação às mensagens que estão sendo respondidas. Isso permite uma melhor visualização das perguntas e respostas, mas que só funciona bem se você usar corretamente o recurso de responder ou criar novos tópicos.

4 – devemos seguir as regras de netiqueta, que incluem não escrever com letras maiúsculas nem usando negrito, e sobre como usar símbolos para representar emoções (os emoticons), são especialmente válidas nos fóruns e devem ser seguidas se você quiser ser bem aceito pelos demais participantes. É considerado falta de educação quebrar essas regras e, como os fóruns são ambientes sociais, é desagradável parecer “chato e deselegante” para os colegas. Conhecer as regras de netiqueta é um requisito básico para começar a participar dos fóruns de forma produtiva.

5 – não devemos postar mensagens em um fórum sem antes conhecê-lo e saber como são suas regras e qual é o tipo de fórum. Isso significa que antes de enviar uma mensagem é recomendável ler várias mensagens dos membros do fórum para saber como eles interagem e sobre o que o fórum trata (se é temático, se é de relacionamento social, etc.). Uma mensagem discrepante das demais, quer pela forma, quer pelo conteúdo, é quase sempre uma “quebra de netiqueta”.

6 – não devemos fazer críticas pessoais e, em nenhuma hipótese, ofender outro participante. Os fóruns abrigam discussões “coletivas”, embora permitam o confronto de idéias entre pessoas individualmente. Isso quer dizer que se sua opinião for agressiva você deve enviá-la diretamente ao e-mail da pessoa com quem quer polemizar e não ao fórum, da mesma forma como resolvemos nossos problemas pessoais conversando diretamente com a pessoa envolvida e não com um microfone e um autofalante em praça pública.

A participação nos fóruns nos possibilita aprender, ensinar e estabelecer relacionamentos com outras pessoas, mas requer de nós que sejamos capazes de nos relacionar virtualmente de forma educada, amigável e organizada, respeitando as regras de cada fórum e os valores de cada grupo participante. Embora a virtualidade da Internet nos faça parecer às vezes que estamos sozinhos em nosso computador quando escrevemos uma mensagem para um fórum, na prática cada mensagem nossa é como uma fala que fazemos diante de um auditório muito grande e repleto de pessoas diferentes que nos observam.

Para consultar na internet:

netiqueta

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico dos fóruns, Professor Digital, SBO, 08 jun. 2009. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2009/06/08/uso-pedagogico-dos-foruns/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Gestão escolar e novas tecnologias


Como é possivel?
Como é possível?

Uma questão importante e, no entanto, pouco abordada comparativamente à sua importância, diz respeito à relação entre os gestores das unidades educacionais (UEs) e o uso das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) no ambiente escolar.

Embora seja um fato bem estabelecido que as escolas só tenham a ganhar com o uso das TICs, tanto do ponto de vista pedagógico como do ponto de vista gerencial, ainda há uma lacuna bem pronunciada entre a compreensão da necessidade desse uso e a implementação efetiva dessas novas tecnologias na escola.

O uso das novas tecnologias que, em um primeiro momento, se parece com um complicador a mais na árdua tarefa de gestão do ambiente escolar, acaba se mostrando uma solução simplificadora na medida em que pequenas ações vão se somando e produzindo uma escola mais dinâmica, com um ensino de melhor qualidade e uma gestão menos complexa.

Muitos gestores têm tanta dificuldade em lidar com essas novas tecnologias quanto o corpo docente da escola e isso lhes dá, assim como dá ao corpo docente, a falsa impressão de que a tecnologia é um complicador a mais e, por isso, quanto menos tecnologia mais simples será o processo de gestão da escola. Mas esse é um erro conceitual que a prática vem mostrando ser danoso.

Escolas que abraçaram o uso das novas tecnologias e modernizaram tanto a prática pedagógica quanto os processos administrativos descobriram que é possível realizar as mesmas tarefas que antes com um esforço muito menor e, além disso, perceberam que as novas tecnologias também criam novas possibilidades que não existiriam sem elas.

Investir no uso das novas tecnologias não demanda a elaboração de projetos mirabolantes e nem a necessidade de recursos exorbitantes. Esse investimento pode ser gradual, com pouco ou nenhum recurso, e não precisa estar atrelado a um projeto específico da Secretaria de Educação, da Diretoria de Ensino ou de alguma instituição paralela.

A gestão escolar pode implementar um projeto de uso das novas tecnologias a partir do levantamento dos usos atuais dessas tecnologias e de um plano de ação, ou plano de metas, que tenha como objetivos, pelo menos:

  1. A inclusão digital de alunos e professores da escola
  2. A informatização dos dados dos alunos e dos professores e a correspondente geração de relatórios administrativos e pedagógicos
  3. O uso da Internet e de seus recursos Web 2.0 e a implementação de meios de comunicação eficazes com alunos, professores e com a comunidade

Ações que permitem implementar esse plano de ação incluem:

  1. Abertura da Sala de Informática da escola ao uso dos alunos e professores
  2. Estabelecimento de parcerias estratégicas com a comunidade
  3. Disponibilização de recursos tecnológicos aos professores e aos alunos
  4. Inserção das TICs nos projetos pedagógicos da escola

O gestor não precisa ter um grande domínio da tecnologia para implementar essas ações e gerir esse plano, mas precisa ter sensibilidade para procurar na própria escola e na comunidade as pessoas que têm uma proximidade maior com essas tecnologias e delegar a elas as tarefas que requerem implementações práticas. Cabe ao gestor o papel de criar e manter condições para que essa equipe possa trabalhar com autonomia e disponibilidade de recursos, sendo o ingrediente fundamental para o sucesso desse projeto apenas a predisposição dos gestores ao uso das TICs.

A escola atual ainda está muito presa a amarras antigas que acabam tornando a gestão “uma atividade burocrática e um eterno serviço de bombeiro, que está sempre apagando incêndios“, ao invés de permitir a ela uma atividade de gerenciamento inteligente de recursos e projetos. Se, por um lado isso é verdade em muitas escolas, por outro, a única forma que quebrar esse circulo vicioso é tomando firmemente a decisão de quebrá-lo.

Há muitas experiências de sucesso que podem ser compartilhadas e adaptadas, mas para isso a gestão precisa procurar sua própria inserção digital e precisa aprender a trabalhar de forma colaborativa também com seus pares. Diretores e coordenadores que “não tiram o pé da escola” e não procuram soluções entre seus pares, dificilmente verão nascer dentro de sua própria escola as soluções que gostariam de ver implementadas e, mais dificilmente ainda receberão algum “pacote de soluções prontas”.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Gestão escolar e novas tecnologias, Professor Digital, SBO, 16 fev. 2009. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2009/02/16/gestao-escolar-e-novas-tecnologias/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Aprendendo a aprender com as TICs


“Um brevíssimo estudo de caso”

Este artigo é um breve resumo do que poderíamos chamar de “um estudo de caso do paradigma de ‘aprender a aprender’ no contexto das TICs e da web 2.0”.

Os fatos relatados transcorreram no segundo semestre de 2008 e envolveram duas turmas de professores de escolas municipais de duas cidades paulistas, cada turma com uma média de 15 professores de diferentes escolas, todos envolvidos em um projeto de capacitação para o uso pedagógico dos computadores e da Internet.

Embora as duas turmas fossem compostas por professores com real interesse em aprender a usar a tecnologia para a melhoria da qualidade do ensino em suas escolas, em ambas havia ainda uma grande quantidade de professores bastante inseguros sobre o uso dos computadores e com forte tendência ao perfil do “Professor Tradicional”, bem distante do perfil do “Professor Digital” ou do “Professor Web 2.0”. Como esses dois perfis já estão descritos nos respectivos artigos (clique nos links para lê-los), vou tentar descrever resumidamente o perfil do “Professor Tradicional” no que diz respeito à maneira como ele vê e interage com as tecnologias digitais contemporâneas.

O “Professor Tradicional”, ou “Professor Web 0.0” é aquele que, dentre outras, tem as características a seguir:
1.    Não aperta nenhuma tecla sem antes perguntar se pode ou deve e sem que saiba de antemão exatamente o que acontecerá após apertar a tecla;
2.    Preferencialmente gosta de trabalhar em duplas diante do computador, tendo sempre um parceiro que manipule a máquina para ele;
3.    Anota todas as instruções em seu caderno, passo a passo, sobre que ícones clicar, em que sequência e em que contextos e evita a todo custo fazer qualquer coisa diferente do que foi anotado;
4.    Qualquer mudança no contexto faz com que ele fique longamente olhando para a tela do computador aguardando que o instrutor apareça lá para lhe dizer o que fazer então;
5.    É um excelente professor, tem profunda experiência profissional, tem desejo de inovar, mas não tem a menor idéia de por onde deva começar; acha mesmo que é “difícil” fazer o que ele já sabe fazer usando agora as novas ferramentas tecnológicas;
6.    Desiste, sem novas tentativas, sempre que não consegue completar uma tarefa ou quando não encontra a solução anotada em seu caderninho;
7.    Perde regularmente suas senhas e nomes de usuário, ou anota-as erroneamente quando faz cadastros em sites ou para obtenção de e-mails; entende que cada atividade é desvinculada das demais e que senhas e cadastros servem apenas momentaneamente, estritamente para os propósitos da atividade atual;
8.    Prefere tratar qualquer assunto por telefone, mesmo quando o assunto envolve a leitura e o envio de e-mails; prefere aguardar dias para que lhe tragam a resposta a um problema do que tentar obtê-la por si mesmo;
9.    Acredita que seus alunos sejam especialistas em computação e que passem muitas horas diárias “estudando o computador”; apesar disso acha que esses alunos usam mal o computador e que deveriam usá-los melhor;
10.    Tem computador em casa, mas quem usa são os filhos. Admira a capacidade destes em usar o computador, mas têm vergonha de pedir ajuda a eles.

Dado o perfil das turmas, e diante da necessidade de mudar alguns hábitos que pudessem mudar o perfil dos professores, foi-lhes proposta uma atividade com a seguinte comanda: “Acessar o site http://www.toondoo.com, realizar o cadastro no site e criar uma tira (história em quadrinhos com até três quadrinhos) sobre um tema de livre escolha, publicando-a no próprio site”.

O site "ToonDoo" é na verdade uma ferramenta Web 2.0
O site “ToonDoo” é na verdade uma ferramenta Web 2.0

Passada a comanda sentei-me confortavelmente em uma cadeira e passei apenas a observar o trabalho dos professores. Rapidamente alguém observou: “o site está em inglês”. Seguiram-se perguntas e frases soltas no ar, como: “onde que se faz o cadastro?”, “para que serve esse botão?”, “olha aqui que legal”, e eu me mantive quietinho no meu canto, no melhor estilo do “professor que não se importa com seus alunos”. Não foi fácil, mas valeu a pena e o esforço de me conter até que fosse realmente imprescindível a minha intervenção.

Meia hora depois eles já haviam descoberto sozinhos como fazer o cadastro, alguém já havia descoberto como criar a tira e estavam agora dando os primeiros passos na construção de suas tiras individuais.

Aos poucos descobriram como escolher personagens, como escolher cenários, como alterar figuras (aumentar, diminuir, mudar a roupa, etc.) e alguém até percebeu que os diálogos não poderiam receber acentos devido à linguagem usada na ferramenta (apenas inglês), mas que os balões de diálogo podiam ser manipulados e havia várias opções de tipos de letras.

Não tardou muito e a primeira tira foi finalizada, seguindo-se então de sua publicação no próprio site e da “visita” dos colegas para conferirem a tira pronta. Uma certa euforia foi tomando conta do grupo. Ao final de duas horas foi incrivelmente difícil tirar os professores da frente dos computadores para podermos discutir os aspectos pedagógicos da atividade e as implicações disso na metodologia de ensino e aprendizagem deles mesmos e de seus alunos.

A discussão da atividade iniciou-se com uma pergunta bem simples: “o que foi que aprendemos nessa atividade?”. Foram muitas as respostas: “aprendemos a fazer tirinhas”, “aprendemos a fazer cadastro”, “aprendemos a usar balões e a construir diálogos curtos e esclarecedores”, teve até quem disse que “aprendemos um pouco de inglês”, até que alguém notou que aquela atividade tinha um propósito bem maior e disse “aprendemos a aprender a usar a Internet”. E era esse mesmo, ou bem próximo disso, o objetivo da atividade: aprender a aprender no contexto das TICs.

O fato é que a maioria dos professores, mesmo os mais jovens que já convivem com a tecnologia dos computadores e da Internet desde a época da formação universitária, estiveram a vida toda submetidos a um paradigma de ensino e de aprendizagem onde eles mesmos eram receptores de informações que deveriam ser digeridas e armazenadas para uso posterior, sempre com muito poucas modificações. É por essa razão que esses professores “anotam tudo” e “raramente ousam explorar caminhos diferentes na resolução de um problema”.

Esse tipo de ensino linear, focado em conteúdos específicos e exercícios repetitivos de memorização, apoiado em materiais escritos e didaticamente engessados a um modelo de crescente dificuldade; um modelo de aprendizagem individual e individualista regido por punições e recompensas e, por fim, um modelo que foi repetido milhares de vezes durante a formação dos próprios professores… Bom, esse tipo de modelo tem uma relação quase nula com o modelo de aprendizagem ao qual nossos alunos e os jovens em geral estão submetidos. Não que a escola tenha mudado, infelizmente ela ainda tenta manter vivo aquele modelo antigo e capengante, mas sim porque o mundo onde vivemos exige esse novo formato de aprendizagem e, consequentemente, a capacidade de “aprender a aprender”.

Nesse formato de aprendizagem contemporâneo:
1.    não há linearidade estritamente necessária em uma sequência de aprendizagem; você pode chegar ao mesmo lugar partindo de diferentes pontos e traçando diferentes rumos, ainda que por alguns caminhos a jornada seja mais longa e pedregosa;
2.    a aprendizagem é focada em objetivos imediatos e sucessivos e nem sempre o aprendiz tem algum objetivo longínquo em mente; os objetivos mudam com a própria dinâmica da aprendizagem;
3.    não há mais a necessidade de um “professor transmissor de conteúdos”; quando muito se faz necessário um “orientador de rumos”; o papel do professor não é restrito, mas antes amplificado, cabendo a ele a difícil tarefa de ensinar o aluno a fazer boas escolhas ao invés de apenas fornecer as melhores respostas;
4.    a aprendizagem quase sempre se dá pela interação com outros aprendizes e, preferencialmente, ocorre em grupos e não individualmente; o conhecimento é construído coletivamente e apropriado de forma individual;
5.    o erro é um parâmetro de acerto de rumo, não é visto como uma punição ou um fracasso na aprendizagem; errar passa a ser parte do próprio processo de aprendizagem, passa a ser um “método”, dentre outros, de se chegar aos acertos.

Foi exatamente esse modelo que os professores vivenciaram ao realizarem a atividade proposta “sem uma explicação sobre como deveriam fazê-la”. A angústia inicial do grupo diante de um problema absolutamente novo, de uma máquina e de um ambiente estranhos, sem poder contar com a ajuda sequer da linguagem (já que o site está todo em inglês), foi lentamente sendo substituída pela descoberta do trabalho em grupo, das soluções compartilhadas, dos erros que apontavam novos rumos e da liberdade de poder cometê-los “sem um professor corrigindo suas ações” a cada instante, das sucessivas conquistas (ora descobrindo como se faz isso, depois como se faz aquilo, e assim por diante) e com a liberdade de começar por onde quiser, explorar todas as possibilidades e compartilhar diferentes soluções para um mesmo problema.

Enfim, o que se viu ali foi uma aula sobre o que significa “aprender a aprender” e como isso é importante na solução de problemas contemporâneos, geralmente bastante diversos dos tipos de problema que enfrentávamos 20, 30 ou 40 anos atrás.

Após a discussão final da atividade todos foram embora visivelmente felizes e confiantes de que no próximo desafio estarão mais fortalecidos e, principalmente, que já sabem de onde partir: despojarem-se dos paradigmas de aprendizagem antigos e, como os jovens de hoje, se lançarem em descobertas sem o receio de às vezes errarem e, principalmente, sem a pretensão de querer acertar sempre.

E eu, que nunca tinha proposto essa atividade antes e apostei no sucesso dela com base apenas na reflexão teórica sobre modelos de aprendizagem, me convenci de vez por todas que capacitar professores para o uso pedagógico dos computadores e da Internet só faz sentido se realmente conseguirmos com que esses professores vivenciem as situações de aprendizagem com as quais seus alunos estão submetidos cotidianamente ou, em outras palavras, que não se pode ensinar a pensar de uma forma nova usando-se métodos e modelos antigos como base para essa aprendizagem.

Uma das muitas tiras feitas pelos professores
Uma das muitas tiras feitas pelos professores

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Aprendendo a aprender com as TICs, Professor Digital, SBO, 11 fev. 2009. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2009/02/11/aprendendo-a-aprender-com-as-tics/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Professor 2.0


Web 2.0Enquanto alguns professores ainda desenterram velhas desculpas para não utilizarem os computadores e a Internet como ferramentas úteis no processo de ensino aprendizagem, outros já se lançam a uma nova geração de tecnologias que chegaram e emplacaram: a Web 2.0. Essa nova versão de professor é o que estamos chamando aqui de “Professor 2.0”.

Se você ainda é um professor 1.0 ou, talvez, aquele professor 0.1 que ainda está ensaiando os primeiros passos para usar o computador em suas aulas, a boa notícia é que você pode fazer um “upgrade” rapidinho, e com quase nenhum esforço, para essa nova plataforma de oportunidades.

A Web 2.0 é, nas palavras de Tim O’Reilly, que cunhou o termo: “a mudança para uma Internet como plataforma, e um entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. Entre outras, a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência coletiva”. Mas, e para nós educadores, o que é a Web. 2.0?

A Web 2.0 pode ser vista por educadores como uma “grande caixa de ferramentas atraentes, simples e úteis”. Essas ferramentas têm como algumas de suas principais características:

  • Utilização da Web como plataforma: serviços que antes dependiam de software instalado na máquina, podem ser acessados direto pelo navegador Web, a qualquer momento e de qualquer lugar.
  • Aperfeiçoamento constante: as ferramentas estão cada vez melhores e com mais possibilidades, o que ocorre graças às contribuições dos próprios usuários.
  • Serem total ou parcialmente gratuitas.
  • Permitirem que o usuário utilize a ferramenta para si mesmo ou para compartilhar informações e outros recursos com a coletividade.
  • Permitirem a produção, o armazenamento e o compartilhamento de diferentes mídias (imagens, vídeos, sons, textos, etc.).
  • Permitirem a construção coletiva do conhecimento, de forma que vários atores possam contribuir de forma conjunta e que o usuário da Internet possa ser também autor de conteúdo e não apenas um receptor passivo.
  • Permitirem o uso e a produção compartilhada, de forma que várias pessoas possam editar conjuntamente um texto, produzir e comentar um vídeo ou ajudem a eleger o que deve aparecer na página inicial de um site.
  • Permitirem e estimularem a formação de comunidades virtuais que compartilham interesses comuns.
  • Oferecerem interfaces amigáveis com o usuário, de maneira que ele possa aprender e usar os recursos oferecidos pela ferramenta de forma simples e rápida.

De quais ferramentas estamos falando? Estamos falando de páginas de construção coletiva de conteúdos (como a Wikpédia), dos blogs (há milhares deles), de mapas interativos (como os do Google ou o Frapper), geradores de estórias em quadrinhos (como o ToonDoo), livros virtuais (como o TikaTok), galerias públicas de imagens (Flickr, Picassa, MySpace), vídeos e apresentações (YouTube, SlidShares), bibliotecas virtuais e repositórios de arquivos (RapidShare), avatares falantes (Voki), podcasts, webquests, webnotes, MySpaces, Orkut, SecondLife, Educarede, etc. etc. etc. Enfim, estamos falando de uma enormidade de sites que oferecem ferramentas de criação, espaço para armazenamento e compartilhamento e possibilidade de agregar pessoas formando comunidades.

O universo de possibilidades de uso pedagógico dessas ferramentas aumenta de forma exponencial na mesma medida em que as próprias ferramentas se multiplicam e se aperfeiçoam. O próprio Google, por exemplo, que é uma ferramenta Web 2.0 e, que começou como um simples site de busca, criou uma galeria de outras ferramentas interessantes que inclui até um escritório online, o GoogleDocs, onde é possível usar aplicativos como editores de textos, apresentações e planilhas eletrônicas sem precisar ter softwares de escritório (como o Office, da Microsoft, ou o OpenOffice, por exemplo) instalados no seu computador, documentos que podem ser acessados pela Internet de qualquer lugar, em qualquer momento e que podem ser compartilhados por quaisquer pessoas com quem você queira compartilhar.

Por que mesmo o professor que ainda não utiliza os computadores e a Internet para ensinar regularmente pode fazer um “upgrade” e já começar a usar as feramentas Web 2.0? Porque elas se baseiam fortemente no paradigma que tanto buscamos na educação: é preciso aprender a aprender. As ferramentas Web 2.0 são fáceis de serem “aprendidas” e tanto alunos como professores conseguem um domínio rápido sobre elas. Para o professor, aprender a usar uma ferramenta de produção de histórias em quadrinhos, por exemplo, não requer nenhuma oficina de capacitação ou curso específico, basta sentar na frente de computador e dar uma porção de cliques, justamente como os alunos fazem quando querem aprender a usar uma nova ferramenta da Internet. A questão importante para o professor não é “como usar as ferramentas”, e sim “para qual propósito pedagógico usá-las”.

Um bom professor prepara uma boa aula usando todos os recursos que tiver à sua disposição e, quanto maior for a gama desses recursos, melhor ele sabe que será sua aula. Com a Web 2.0 à disposição, o professor não precisa mais se conformar em continuar com sua versão de aula 0.1 ou 1.0, agora ele pode fazer esse upgrade e se tornar também um professor 2.0. O passo mais importante para esse upgrade é experimentar em si mesmo o paradigma que norteia suas ações com os seus alunos: aprender a aprender e continuar aprendendo sempre.

Para saber mais sobre a Web 2.0 acesse:

Para conhecer algumas ferramentas Web 2.0 acesse:

  • Educarede: portal com várias ferramentas interativas e que permite a criação de uma comunidade virtual com vários recursos
  • Voki: avatares falantes
  • SlideShare: pesquise, use e compartilhe apresentações de slides
  • YouTube: pesquise, use e compartilhe vídeos
  • Wikipédia: pesquise e colabore na construção de uma enciclopédia online
  • WebNote: compartilhe recados na forma de “Post-it” pela Internet
  • Ferramentas Google: várias ferramentas de pesquisa, criação e compartilhamento
  • Ferramentas Yahoo: várias ferramentas de pesquisa, criação e compartilhamento
  • ToonDoo: ferramenta de criação e compartilhamento de quadrinhos
  • TikaTok: ferramenta de criação e compartilhamento de livrinhos virtuais
  • Flickr: ferramenta de compartilhamento de imagens do Yahoo
  • Picassa: ferramenta de compartilhamento de imagens do Google
  • Blogger: ferramenta de criação de blogs
  • WordPress: ferramenta de criação de blogs
  • RapidShare: pastas de compartilhamento de arquivos de qualquer formato
  • Orkut: site de relacionamento e de criação de comunidades virtuais
  • MySpace: site de relacionamento e de compartilhamento
  • Frappr: mapa interativo
  • WetPaint: ferramenta para criar sites colaborativos como o formato wiki

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Professor 2.0, Professor Digital, SBO, 23 jun. 2008. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2008/06/23/professor-20/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].