O uso pedagógico dos recursos de computação na nuvem


Resumo

Na década de 1990 já se vislumbrava a remodelagem da sociedade e suas práticas cotidianas em função da inserção dos computadores em todos os ambientes sociais. Atualmente é clara a importância da computação na nuvem como ferramenta natural da evolução desses processos computacionais. A computação na nuvem é um conceito ainda pouco compreendido pela maioria das pessoas, inclusive pelos educadores, e isto acarreta um uso pouco eficaz de suas potencialidades, principalmente as pedagógicas.

A computação na nuvem já é uma realidade. Nossa relação com o universo de aplicativos, redes sociais e serviços diversos da internet se dá essencialmente na nuvem. Compreender essa imersão e suas potencialidades e riscos é fundamental para o educador responsável por educar a geração do século XXI.

Neste artigo discutimos de forma simplificada, porém objetiva, o conceito de computação na nuvem, a forma como esta se insere na vida pessoal e profissional dos educadores e suas potencialidades para a ação pedagógica tendo em vista as aprendizagens desejadas para o século XXI.

Palavras-chave: Computação na nuvem; TDIC; uso pedagógico.

 

Afinal, o que é a “nuvem”?

A “nuvem” é um nome simbólico, quase icônico, para designar as máquinas interligadas pela rede mundial de computadores que constituem a internet. Para entender um pouco mais sobre seu funcionamento precisamos retomar brevemente a própria história da internet e das redes de computadores.

Computação na nuvem
By Sam Johnston [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)%5D, via Wikimedia Commons
Quando os primeiros computadores foram interligados, e se criaram formas de comunicação entre eles, dava-se início à uma saga que culminaria no que hoje chamamos de internet. A internet nada mais é do que uma rede mundial de computadores interligados e capazes de trocar informações entre si.

Em suas origens remotas, as redes de computadores visavam principalmente o armazenamento e o compartilhado de dados, de maneira que fosse possível obter ou recuperar rapidamente dados dispersos por vários computadores distribuídos em locais distantes um do outro.

O projeto inicial da internet nasceu de uma iniciativa militar americana conduzida pelo Pentágono em 1969, em tempos de guerra fria, a ARPANET, desenvolvida pela ARPA (Advanced Research Projects Agency Network, “Agência de Pesquisas em Projetos Avançados”).

Mapa lógico da rede ARPANET
Mapa logico da rede ARPANET. By ARPANET [Public domain], via Wikimedia Commons
 A interligação “caótica” entre computadores, de forma a permitir diferentes caminhos da informação e de maneira que a interrupção de um caminho não impossibilite o uso de outros, é o que constitui o princípio de funcionamento da internet.

Com o passar do tempo, a evolução da tecnologia, o desenvolvimento de novas ideias e a possibilidade de uso comercial de uma rede com essas características, nasceu a internet como a conhecemos atualmente.

No entanto, a possibilidade de comunicação entre os computadores não permite apenas que eles armazenem e troquem informações, mas também que eles possam executar tarefas de forma colaborativa. Quanto uma máquina distante executa uma certa tarefa de computação para outra máquina que a solicitou, temos o que chamamos de “computação na nuvem”.

Assim, muitas tarefas que no início da era dos computadores eram executadas apenas localmente, como a edição e formatação de um texto, por exemplo, passaram também a poderem ser executadas em máquinas distantes. Hoje, ao escrever este texto, estou digitando em meu computador, no meu escritório, mas todo o processamento necessário para formatá-lo e armazená-lo está sendo feito por computadores muito distantes de onde estou e, na verdade, nem imagino onde estes computadores estejam!

 

Vantagens e desvantagens da computação na nuvem

Há diversas vantagens em se utilizar a computação na nuvem:

  • O armazenamento de dados pode ser feito na própria nuvem, dispensando a necessidade de armazenamento local e garantindo maior segurança, tanto do ponto de vista do acesso controlado aos dados quanto do ponto de vista da perda de dados devido a acidentes.
  • Os dados armazenados na nuvem podem ser facilmente compartilhados por pessoas distantes e que utilizam equipamentos dos mais variados, não sendo necessário sequer que sejam compatíveis uns com os outros. Além disso, o acesso aos dados na nuvem pode ser feito a qualquer momento, pois os servidores da nuvem estão (quase) sempre online.
  • Os computadores da nuvem não requerem manutenção nem upgrades por parte do usuário e, geralmente, possuem um poder de processamento suficiente para realizarem os serviços que oferecem. Assim, o usuário fica livre dos custos de aquisição e manutenção de equipamentos atualizados e potentes.
  • O uso da nuvem dispensa a necessidade de muitos softwares instalados na máquina do usuário. Muitas aplicações sofisticadas, que custariam caro para serem adquiridas e exigiriam máquinas com grande poder de processamento podem ser utilizadas pelo usuário a partir do acesso por meio de um dispositivo simples e barato que pode ser até mesmo um smartphone.

Na prática, a nuvem se comporta como um grande computador poderoso, sofisticado, com enorme capacidade de armazenamento e excelente disponibilidade, além de ser seguro e, geralmente, gratuito.

Mas como tudo no mundo, a nuvem também tem suas desvantagens e riscos:

  • O usuário pode perder seus dados se perder o acesso ao serviço que os armazena. Isso pode acontecer, por exemplo, se o usuário perder a senha utilizada para acessar o serviço e não tiver como recuperá-la.
  • Os serviços gratuitos nem sempre oferecem todas as possibilidades que o usuários gostariam de ter, limitando assim o uso de recursos e serviços disponíveis a determinados pacotes mínimos e estimulando o usuário a adquirir pacotes de serviços mais completos e que são pagos. Algumas vezes o custo do pacote completo de serviços assemelha-se ao custo de aquisição da licença de uso de um software equivalente.
  • O uso da nuvem requer acesso à internet. Embora os servidores da nuvem estejam quase 100% do tempo ativos e disponíveis, o usuário pode enfrentar problemas locais e pessoais de acesso à rede, como a falta de conexão. Sem a conexão com a internet obviamente a nuvem fica completamente indisponível.
  • A diversidade de oferta de serviços de computação na nuvem e a ausência de um único serviço que cubra a maior parte das necessidades do usuário leva a uma dispersão dos dados, à necessidade do gerenciamento de diversas contas de acesso e de uma organização local para manutenção de logins e senhas, tornando o uso da nuvem mais complexo do que poderia ser.
  • A nuvem não é verdadeiramente gratuita, pois o usuário geralmente paga pelo serviço fornecendo seus dados pessoais e informações sobre seus hábitos na rede e fora dela. As empresas que oferecem serviços na nuvem utilizam esses dados para vender espaços de propaganda específicos para outras empresas. Assim, ao fornecer seus dados em troca de um serviço gratuito, o usuário também aceita receber propagandas dessas empresas parceiras.

 

O uso pessoal da nuvem pelo educador

Para o educador o uso pessoal da nuvem, com todas as vantagens e desvantagens listadas anteriormente, se torna tão importante quanto o uso local de um computador que lhe permita realizar suas tarefas pessoais e profissionais.

A infinidade de aplicativos disponíveis atualmente, na sua maioria gratuitos e que podem ser executados a partir de smartphones, permite que o educador utilize este dispositivo em substituição ao próprio computador em grande parte das situações cotidianas, embora o computador continue sendo uma ferramenta pessoal e de trabalho imprescindível para o educador.

Além de poder utilizar a nuvem como uma extensão, ou mesmo em substituição, do seu computador pessoal, o educador também ganha muito em termos de eficiência no que diz respeito à comunicação. Tarefas que exigem comunicação com outras pessoas, colegas e alunos, requerem atualmente o uso da internet e, portanto, são naturalmente mais facilmente executadas a partir de aplicativos e bases de armazenamento de dados da nuvem.

As formas contemporâneas de comunicação, baseadas fortemente no uso de redes sociais, e o fato dessas redes sociais serem aplicações da computação na nuvem, também levam o educador naturalmente a se inserir nesse universo mesmo que não se dê conta de que está nele. Dessa forma, o uso da computação na nuvem já faz parte do cotidiano e do uso pessoal, e talvez profissional, do educador, restando apenas a tomada de consciência da potencialidade desse uso também no campo pedagógico da sua atuação direta com seus alunos.

 

O uso pedagógico da nuvem pelo educador

Segundo a Base Nacional Comum Curricular, uma competência curricular geral é

Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BNCC, p. 9) 

Uma vez que o educador já faz uso pessoal da nuvem quando acessa suas redes sociais, quando utiliza aplicativos diversos para a realização de tarefas cotidianas (acesso a bancos, compras, comunicação, entretenimento e informação, por exemplo), o uso pedagógico da nuvem passa a ser uma extensão natural das possibilidades oferecidas e, em especial, no que diz respeito ao compartilhamento de informações e ao trabalho colaborativo.

A nuvem permite que o professor tenha acesso e possa ser acessado por outras pessoas de qualquer parte do mundo, e dentre elas seus alunos. Na nuvem o professor pode obter e fornecer recursos variados. Em outras palavras, um livro que o professor possua armazenado na nuvem (como no Google Drive, por exemplo) é um livro que pode ser compartilhado com todos os seus alunos. Um aplicativo da nuvem utilizado pelo professor para a realização de uma dada tarefa, como a construção de um mapa mental, pode também ser utilizado pelos seus alunos, inclusive de forma colaborativa.

A nuvem permite que o educador compartilhe informações, atividades e afazeres com seus alunos de forma dinâmica, criando, inclusive, possibilidades inusitadas no terreno da escola tradicional, como a realização de uma tarefa conjunta, envolvendo o educador e seus alunos, fora do ambiente escolar e do horário de funcionamento normal da escola.

Apenas como um dos muitos exemplos desse novo paradigma decorrente da expansão do conceito de escola e aprendizagem, considere uma atividade em que o educador propõe aos seus alunos que comentem conjuntamente, e simultaneamente, um determinado filme que passará na TV aberta fora do horário habitual de aula. Como é possível fazer isso e avaliar a atividade?

Dentre as muitas possibilidades podemos citar o Twitter (usando-se uma hashtag que identifique a atividade), o Facebook (em um grupo especialmente criado para a atividade), um documento compartilhado do Google Drive ou qualquer outra ferramenta da nuvem que permita edição colaborativa em tempo real e que mantenha o registro das contribuições de forma a identificar o usuário colaborador (o que, em alguns casos, nem é necessário).

É importante ter em mente que 82% das crianças e adolescentes com mais de 9 anos acessam a internet, e destas, 91% acessam a internet a partir de seus smartphones (TICS KIDS ONLINE BRASIL, 2016, p. 99). Isso, na prática, significa que a nuvem já é um recurso disponível para a maioria dos alunos e que não precisa ser provido, necessariamente, pela escola. Apesar disso, cabe sempre ao educador ter em mãos um levantamento realista dos recursos disponíveis entre os próprios alunos antes de propor atividades que exijam esses recursos. A garantia de acesso às atividades propostas pelo professor é um direito do aluno que deve ser respeitado sempre.

Já o uso da nuvem pelo educador e seus alunos, em si, não constitui nenhuma dificuldade, pois todos já estamos imersos nessa nuvem. O que é realmente necessário, e só pode ser provido pelo educador, é o caráter pedagógico desse uso em atividades de ensino e aprendizagem.

Numa atividade como a que foi sugerida hipoteticamente, cabe ao educador planejar e orientar para que ela se frutifique em aprendizagens. Perguntas orientadoras como “O que o aluno vai aprender ou desenvolver com a atividade?”, “Qual a melhor ferramenta da nuvem a ser utilizada para esse propósito de aprendizagem?”, “Como posso me certificar de que ocorreram as aprendizagens pretendidas?”, são bons pontos de partida para um planejamento bem estruturado de utilização da nuvem.

Na atividade tomada como exemplo, o educador pode explorar aprendizagens da área de Linguagens, como a escrita formal ou a coloquial, a capacidade de expressão do aluno, a capacidade de resumir uma ideia em poucas palavras (no caso do Twitter, principalmente), as técnicas de debate quando houver discordâncias de opinião, a capacidade de articular ideias, etc. Já um educador que lecione Física pode requerer que sejam comentadas algumas cenas do ponto de vista da aplicação das leis físicas (principalmente se se tratar de um filme de contexto científico). Situações semelhantes podem ser pensadas para todas as disciplinas do currículo. Enfim, a tarefa do educador é sempre a de vislumbrar as possibilidades de aprendizagem e criar um bom roteiro antes de propor a atividade.

A avaliação das atividades fica sempre facilitada quando há um registro permanente das interações dos alunos. Assim como textos, livros e filmes podem ser armazenados e compartilhados na nuvem, também se pode armazenar e compartilhar análises, opiniões e intervenções dos alunos e do próprio professor. E pelo caráter de acessibilidade e transparência da nuvem quando utilizada de forma colaborativa, a própria avaliação do educador e dos alunos passa a ser um instrumento mais democrático e eficiente, podendo, inclusive, ser uma tarefa conjunta e não solitária do educador.

Por fim, por seu caráter colaborativo e democrático, o uso da nuvem requer aprendizagens sobre ética, cidadania, valores morais e competências comportamentais próprias das exigências do ensino para o século XXI. Essas aprendizagens não são penduricalhos transversais ao currículo, mas constituem-se cada vez mais no próprio currículo necessário para a cidadania digital. Não se pode conceber um uso irresponsável da nuvem quando se tem em mente que esse uso passou a ser corriqueiro e está cada vez mais inserido nas práticas curriculares.

 

Conclusão

O uso pedagógico da nuvem é uma extensão natural do uso profícuo da mesma pelo educador em suas práticas cotidianas, pessoais e profissionais. O uso pedagógico da nuvem, assim como todo o universo da informática, não é apenas uma possibilidade dentre muitas escolhas, mas antes uma necessidade diante de uma práxis já consolidada, ainda que nem sempre seja compreendida como tal.

O educador precisa fazer um uso cada vez mais proficiente da nuvem tanto para dar conta de sua vida pessoal e profissional quanto para dar conta de implementar metodologias dinâmicas de ensino para um público que também já se utilizada da nuvem de forma cotidiana. Vale lembrar que grande parte das crianças com mais de 10 anos já possuem smartphones e acessam a internet rotineiramente.

O caráter pedagógico do uso da nuvem se dá pelo planejamento de atividades de ensino com a explicitação das aprendizagens pretendidas, da estratégia de uso da ferramenta tecnológica empregada e dos critérios de avaliação que devem ser considerados. É ao educador que cabe a tarefa de planejar e delimitar as aprendizagens pretendidas. Na elaboração desse planejamento são fundamentais a presença clara dos objetivos, competências, habilidades e elementos do currículo que serão trabalhados, bem como o nível de abordagem deles.

 

Para consultar na internet:

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico do GoogleDocs, Professor Digital, SBO, 08 fev. 2010. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2010/02/08/uso-pedagogico-do-googledocs/>. Acesso em: 19 jul de 2018.

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico do telefone móvel (Celular), Professor Digital, SBO, 13 jan. 2010. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2010/01/13/uso-pedagogico-do-telefone-movel-celular/>. Acesso em: 19 jul 2018.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/base/o-que>. Acesso em: 19 jul 2018.

O que é Computação em Nuvens? Artigo de informação básica sobre a computação na nuvem e exemplos de aplicativos e ambientes de computação em nuvem. Disponível em <https://www.tecmundo.com.br/computacao-em-nuvem/738-o-que-e-computacao-em-nuvens-.htm>. Acesso em: 19 jul 2018.

TIC Kids Online Brasil [livro eletrônico] : pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil 2016 = ICT Kids Online Brazil : survey on Internet use by children in Brazil 2016 / Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. — São Paulo : Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2017. 3.700 Kb ; PDF. Disponível em <http://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/TIC_KIDS_ONLINE_2016_LivroEletronico.pdf>. Acesso em: 19 jul. 2017.

 

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. O uso pedagógico dos recursos de computação na nuvem, Professor Digital, SBO, 19 jul. 2018. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2018/07/20/o-uso-pedagogico-dos-recursos-de-computacao-na-nuvem>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Memória e emoções


(*) Dra. Flávia Schechtman Belham, PhD.

 

photo of toddler smiling
Foto por Alexander Dummer em Pexels.com

Existe alguma relação entre o que nossos alunos sentem e o que eles aprendem em sala? Se sim, será que essa relação pode ser explorada pelos professores para melhorar o aprendizado? Nesse artigo, eu tentarei responder a seguinte pergunta: como podemos usar as emoções para aprimorar o aprendizado e a memória em sala de aula?

 
 
 

COMO AS EMOÇÕES DESENVOLVEM EM JOVENS CRIANÇAS?

Um estudo clássico (1) pediu que crianças assistissem a uma história e relatassem quais emoções cada um dos personagens estava sentindo. Os resultados mostraram que as crianças mais velhas eram melhores em identificar quando um personagem estava triste, como medo ou com raiva.

Em contrapartida, não houve diferença quanto à identificação de emoções positivas. Ou seja, crianças pequenas, de 3 anos de idade, já eram plenamente capazes de identificar quando o personagem estava feliz. Esse resultado sugere que o processamento de emoções positivas se desenvolve mais cedo que o de emoções negativas.

 

O LINK ENTRE EMOÇÕES E MEMÓRIA

Pesquisas recentes (2) feitas com crianças de 10 a 12 anos mostrou que elas tinham uma memória melhor para vídeos de conotação positiva, em comparação a vídeos de conotação negativa. Um resultado semelhante (3) foi encontrado com crianças mais jovens, quando sua memória foi testada para as palavras de uma história.

No geral, o que as pesquisas sugerem é que emoções positivas reduzem o risco de memórias falsas em crianças. Um estudo publicado recentemente (4) mostrou desenhos animados para crianças de 6 a 12 anos. Os desenhos poderiam ter um final positivo, negativo ou neutro. As crianças que viram o final positivo se saíram melhor no teste de memória do que as que viram os vídeos neutros ou negativos.

Ou seja, informações de cunho positivo são memorizadas em mais detalhes, reduzindo a probabilidade de falsas memórias. Similarmente, outro estudo (5) mostrou que as crianças não apenas se saem melhor quando precisam memorizar palavras positivas, mas também são menos propensas a erros quando a informação a ser lembrada é positiva.

Mas como professores podem usar essas descobertas para melhorar o aprendizado em sala?

 

MELHORANDO A MEMÓRIA AO REAVALIAR AS INFORMAÇÕES

As pesquisas descritas aqui sugerem que é importante não apenas criar um ambiente de aprendizagem positivo, mas também adicionar emoções positivas ao conteúdo que está sendo ensinado. Uma jeito de se fazer isso é usar uma estratégia conhecida como “reavaliação positiva”.

A reavaliação positiva acontece quando os alunos reinterpretam um evento como mais positivo do que era inicialmente. Em um estudo (6), um grupo de crianças assistiu a um filme triste. Metade delas teve que reavaliar o final do filme e dar-lhe uma conotação positiva. Em seguida, todas as crianças assistiram a um filme educacional. Ao final do experimento, todas as crianças foram testadas sobre o conteúdo do filme educacional. As crianças que haviam reavaliado o primeiro filme apresentaram melhor memória para o filme educacional, em comparação com o grupo controle. Esse resultado sugere que pensar em algo sob uma luz positiva pode melhorar o aprendizado.

Na sala de aula, sempre que os alunos estão tendo dificuldade para memorizar algo, eles podem ser instruídos a adicionar positividade a essas informações. Por exemplo, eles podem usar aquele termo em uma frase engraçada ou vinculá-lo a algo que eles gostam.

 

MELHORANDO A MEMÓRIA AO GERAR CURIOSIDADE

Outra maneira de usar emoções positivas para aprimorar o aprendizado é investir em curiosidade. Há alguns anos, um estudo (7) mostrou que o sentimento de expectativa antes de aprender algo interessante melhora a memória. Nesse estudo, os participantes memorizaram não apenas as informações para as quais tinham curiosidade, mas também se lembraram melhor dos outros fatos que foram apresentados durante o período de antecipação.

 

CONCLUSÃO

As crianças parecem aprender melhor em meio a emoções positivas. Um ambiente positivo pode ajudar, aprimorar e acelerar o aprendizado. Explorar curiosidade natural das crianças ou instruí-las a reavaliar o material de uma maneira positiva também são estratégias com alto potencial.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. Borke, H. (1971) Interpersonal Perception of Young Children, Developmental Psychology 5(2):263-269.
  2. Paz-Alonso, PM., Goodman, GS. (2016) Developmental Differences across Middle Childhood in Memory and Suggestibility for Negative and Positive Events, Behavioral Sciences & The Law 34(1):30-54.
  3. Bishop, SJ., Dalgleish, T., Yule, W. (2004) Memory for emotional stories in high and low depressed children, Memory 12(2):214-30.
  4. Melinder, A., Toffaline, E., Geccherle, E., Cornoldi, C. (2017) Positive events protect children from causal false memories for scripted events, Memory 25:1366-1374
  5. Brainerd, CJ., Holliday, RE., Reyna, VF., Yang Y., Toglia MP. (2010) Developmental Reversals in False Memory: Effects of Emotional Valence and Arousal, J Exp Child Psychol 107(2):137-154.
  6. Davis, EL., Levine, LJ. (2013) Emotion regulation strategies that promote learning: reappraisal enhances children’s memory for educational information. Child Development 84(1):361-74.
  7. Gruber, MJ., Gelman, BD., Ranganath, C. (2014) States of Curiosity Modulate Hippocampus-Dependent Learning via the Dopaminergic Circuit. Neuron 84(2):486-496.

 

SUGESTÕES DE LEITURA

Pinto, AC. (1998) O impacto das emoções na memória: Alguns temas em análise. Psicologia Educação e Cultura, 2(2), 215-240. Disponível em: <https://www.fpce.up.pt/docentes/acpinto/artigos/11_memoria_e_emocoes.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.

Silvestre, RLS., Vandenberghe, L. (2013). Os benefícios das emoções positivas. Contextos Clínicos 6(1): jan-jun. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v6n1/v6n1a07.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.

Santos, RF., Stein, LM. (2008). A influência das emoções nas falsas memórias: Uma revisão crítica. Psicologia USP, 19(3), 415-434. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v6n1/v6n1a07.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.

Manglano, Júlia (2017). Você sabe como se forma a memória emocional das crianças? O Estado de São Paulo, acesso em 10 de outubro de 2019. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v6n1/v6n1a07.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.
 


Flavia-phdA Dra. Flávia Schechtman Belham é a Cientista Chefe da Seneca JÁ (www.senecaja.com/professores), uma plataforma de ensino-aprendizagem gratuita, embasada por pesquisas científicas.Flávia foi professora da rede pública do DF antes de concluir seu doutorado em Neurociências Cognitivas na University College London. Twitter: @seneca_ja @FlaviaBelhamPhD

(*) Este blog publica artigos de terceiros, desde que originais e dentro da linha editorial do blog, mas não se responsabiliza e nem endossa suas opiniões.

 

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

BELHAM, Flávia Schechtman. Memórias e emoções, Professor Digital, SBO, 10 out. 2019. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2019/10/10/memoria-e-emocoes>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Os números de 2015


Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 120.000 vezes em 2015. Se fosse o Louvre, eram precisos 5 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

Avaliação na era das TDIC


Resumo

O presente artigo descreve uma pesquisa feita com alunos do Ensino Médio de uma escola pública paulista visando validar uma nova metodologia de avaliação com base em provas escritas fazendo uso intensivo das TDIC, permitindo aos alunos o livre acesso à informação e à colaboração durante a avaliação. Mostra-se a possibilidade de ganhos de aprendizagem e melhora significativa do desempenho dos alunos em situação de prova e nos resultados gerais da avaliação global.

Palavras-chave: Educação, mobiles, smartphone, TDIC, inovação, avaliação

Introdução

A avaliação sempre foi um tema complexo e por muito tempo foi vista apenas como a aplicação de provas tradicionais, geralmente visando medir a quantidade de informações que o aluno era capaz de reter na forma de memorização. Críticos desse tipo de avaliação apontam seu caráter excludente, classificatório e pouco importante do ponto de vista da aprendizagem do aluno. Pelo menos nas duas últimas décadas muitos discursos demonizam as provas tradicionais e apontam para a necessidade de outras formas de avaliação que priorizem a criatividade e a capacidade de resolver problemas, além de levar em conta outros aspectos não cognitivos e o próprio contexto social do aluno.

Avaliar não é apenas aplicar provas, mas isso não significa que as provas não possam ou não devam fazer parte do universo da avaliação. Negar a existência das mesmas como prática ainda muito disseminada, ou afirmar sua invalidade e propor sua extinção seria imprudente, porque irreal e incorreto. A avaliação por meio de provas escritas não precisa trazer consigo os caracteres apontados e criticados na sua forma “tradicional” e podem incorporar, por meio das TDIC, espaços para a criatividade, o universo próprio do aluno e a capacidade de resolver problemas significativos.

O presente artigo apresenta a metodologia e os resultados gerais de uma pesquisa realizada com alunos do Ensino Médio de uma escola pública submetidos a um processo de ensino e de avaliação que faz uso intensivo das TDIC e, em especial, dos mobiles dos próprios alunos. Outros artigos complementares sobre esse tema e essa pesquisa serão publicados em breve e ligados a este.

Objetivos

O objetivo desse artigo não é defender nem atacar qualquer sistema ou método de avaliação, mas trazer para a discussão e a reflexão a necessidade de incorporar nos processos de avaliação novas metodologias que façam uso das TDIC como ferramentas que potencializam esse processo e podem contribuir para a obtenção de resultados mais significativos em termos de ensino e aprendizagem. Essas novas metodologias estão intimamente ligadas à colaboração, pesquisa, autoria e capacidade de resolver problemas.

O objetivo da pesquisa foi avaliar o impacto do uso das TDIC, aliado a uma nova metodologia de elaboração de avaliações escritas, no letramento tradicional e digital dos alunos, bem como as implicações na aprendizagem curricular tradicional e no desenvolvimento de habilidades de pesquisa, autoria e colaboração próprias de um currículo ainda não oficializado, mas já inserido informalmente na sociedade da informação e do conhecimento.

Metodologia

A pesquisa foi realizada ao longo de dois anos (2013 e 2014) em uma escola pública paulista com alunos do primeiro e do terceiro ano do Ensino Médio dos períodos da manhã e da noite como atividade paralela e não intrusiva no processo de ensino e aprendizagem regular. As análises de resultados foram feitas no âmbito de cada uma das 9 diferentes classes que participaram desse estudo ao longo do período considerado e utilizadas como elementos para o replanejamento bimestral.

Ao final de cada ano letivo foram comparados os resultados de uma mesma classe ao longo do ano letivo; entre classes da mesma série e mesmo período e; entre classes de uma mesma série de diferentes períodos. Por fim, os resultados dos dois anos observados foram comparados a fim de detectar possíveis variações no comportamento dos resultados em função da mudança de público de um ano para outro.

Todos os registros foram lançados em planilhas online e posteriormente trabalhados a fim de se obter as totalizações necessárias. Foram feitas correlações estatísticas entre os resultados obtidos com as avaliações escritas e outros itens que compõem a avaliação global dos alunos e que também foram avaliados e quantificados, como a frequência, a realização de atividades e tarefas e o engajamento e participação nas atividades de sala de aula.

Desenvolvimento

Cada classe foi submetida a duas avaliações escritas por bimestre, do tipo “prova”, totalizando 8 avaliações no ano. A amostra total contou portanto com a análise de 72 conjuntos com 30 provas em média cada um, resultando em, aproximadamente, 2160 provas.

As provas foram elaboradas a partir da seleção dos temas tratados em cada período de um bimestre, tendo caráter cumulativo no sentido de requerem aprendizagens de períodos anteriores. O tempo de realização máximo de cada prova foi dimensionado para 1 aula (50 minutos no período da manhã e 45 minutos no período da noite). A quantidade de questões em cada prova variou em função das limitações de tempo e necessidade de abordar os temas mais importantes para a disciplina (Física). O critério para elaboração da nota de prova final de cada bimestre consistiu em escolher a maior das duas notas obtidas. O intervalo de aplicação das duas provas em cada bimestre variou de uma a duas semanas em função do calendário escolar.

Mobiles na avaliação
Smartphone sendo utilizado durante a avaliação escrita.

O uso de smartphones e mobiles em geral foi estimulado e recomendado durante as avaliações. Ao longo do ano as metodologias e estratégias de ensino foram variadas, incluindo aulas expositivas com ou sem auxílio de TDIC, filmes, demonstrações, trabalhos de pesquisa individual e em grupo, atividades complementares, trabalhos práticos e uso de ambientes virtuais de aprendizagem. Em 2014 a principal metodologia de trabalho em sala de aula baseou-se na “sala de aula invertida”, com alunos trabalhando em grupo orientados por roteiros e assistidos pelo professor.

Durante todo o período da pesquisa os alunos contaram com um site de apoio com materiais didáticos disponibilizados digitalmente, assessoria online e diversas ferramentas de acompanhamento e organização da aprendizagem por meio de aplicativos sugeridos e baixados gratuitamente na internet. Também foi solicitado a todos os alunos que possuíam smartphones, tablets ou notebooks que os trouxessem para a aula como parte integrante do material didático. A escola, por sua vez, disponibilizou uma conexão com a internet via wirelles e o acesso à sala do programa Acessa Escola do governo do Estado de São Paulo.

Os alunos foram orientados sobre como utilizar os seus dispositivos móveis para armazenar, organizar, pesquisar materiais disponibilizados pelo professor ou obtidos na internet, bem como utilizar recursos nativos ou acrescentados via aplicativos gratuitos disponíveis nas lojas virtuais compatíveis com os sistemas operacionais de seus aparelhos.

Durante as avaliações os alunos puderam ter acesso a todos os materiais que trouxeram para a prova, incluindo livros, cadernos de anotações e seus dispositivos móveis. Não foi permitida a comunicação direta, por meio da fala, nem a troca de materiais físicos durante as provas a fim de manter um ambiente de silêncio e concentração, mas os alunos podiam comunicar-se livremente uns com os outros por meio de seus dispositivos móveis e, inclusive com indivíduos fora da sala de aula.

Uma proposta de resolução das provas, elaborada pelo professor, foi disponibilizada no formato digital após cada prova, bem como foi feita uma discussão geral da prova e dos resultados individuais e coletivos em sala de aula. Nessa oportunidade os alunos também puderam discutir os resultados gerais da classe e as estratégias utilizadas para a aprendizagem e a realização da prova.

É importante ressalvar que essa metodologia foi apresentada, discutida e aprovada pelo conjunto dos alunos no início do ano letivo, durante a elaboração do contrato pedagógico e, a cada bimestre a metodologia foi novamente discutida e revalidada. Vale também notar que os alunos não apontaram modificações nem apresentaram ressalvas a essa metodologia em nenhum momento durante o ano letivo, o que indica claramente sua adesão a ela.

Discussão

Observou-se, já de início, uma menor resistência por parte dos alunos a submeterem-se a avaliações escritas do tipo prova. A discussão da metodologia que seria utilizada e sua validação como parte do contrato pedagógico foi fundamental para quebrar eventuais resistências, visto que para muitos alunos a experiência de fazer provas escritas já havia se perdido ao longo dos anos anteriores ou causado traumas. Também é importante frisar que as provas constituíram apenas 40% da nota final do aluno, já que esta depende de uma avaliação global e contínua baseada em diversos critérios, além da avaliação por provas, e isso pode ter contribuído para a redução do estresse.

A possibilidade do aluno consultar qualquer material, inclusive a internet ou outras pessoas por meio de redes sociais, criou a necessidade de repensar todo o modelo de prova escrita, abrindo espaço para a criatividade e a autoria em detrimento da mera coleta de informações. A metodologia desenvolvida para a criação de provas escritas compatíveis com essa nova forma de avaliar, que também incorpora as potencialidades da sociedade da informação, será descrita em artigo posterior por tratar-se de um assunto também extenso e importante.

O engajamento dos alunos na atividade de realização da prova aumentou de forma considerável, sendo raros, ao final do experimento, os alunos que desistiam da resolução da prova antes do término do tempo estipulado. Observou-se, pelo contrário, o surgimento de grupos de alunos que apresentavam alguma frustração pela limitação do tempo. Ao fim do ano letivo foram muito raros os casos de “desistência do aluno”, isto é, quando este devolve uma prova “em branco”.

A possibilidade de construir suas próprias respostas sem o estresse de tê-las comparadas a um”gabarito oficial” permitiu o aperfeiçoamento da autoria e o uso da criatividade, criando por vezes soluções brilhantes para problemas complexos ou visões distintas sobre um mesmo problema simples. A re-significação dos conceitos de “certo e errado”, abrindo espaço para interpretações intermediárias e exposições incompletas, permitiu avaliar com mais precisão o grau de compreensão de cada aluno, bem como os elementos conceituais que apresentaram deficiência de aprendizagem pelo conjunto de alunos de uma dada classe.

Contrariamente à expectativa um tanto generalizada, mas até então não aferida, de que os alunos plagiariam uns aos outros fazendo um uso antiético das TDIC, o uso das redes sociais como forma de “trapaça” mostrou-se ineficiente por variadas razões e levou a uma aprendizagem importante sobre o significado do termo “colaboração”, a importância da autoria e a novas aprendizagens sobre formas de reestruturar as informações, transformando-as em conhecimento.

Sobre esse aspecto vale ressaltar que foram observados ganhos consideráveis sobre a aprendizagem dos alunos no uso pedagógico das TDIC, tanto para colaboração em rede como para o uso individual das ferramentas de organização. Além disso, as questões éticas sobre autoria, plágio e colaboração puderam ser trabalhadas no contexto das aulas de forma transversal ao conteúdo específico da disciplina.

Ao longo do ano letivo foram observados o desenvolvimento de habilidades de leitura, interpretação, comunicação e organização de ideias, independentemente de conteúdos curriculares, e um expressivo ganho qualitativo na capacidade de propor soluções para problemas e situações desafiadoras.

Evolução das médias de prova
Evolução das médias de provas por classe e bimestre – 2013

Em termos de aprendizagem curricular, verificou-se também uma melhora considerável ao longo do ano letivo. Embora as notas médias finais das provas de cada classe tenham sido baixas em uma escala comparativa com a expectativa máxima de aprendizagem, houve acréscimos consideráveis ao longo dos quatro bimestres e, ao final, os resultados médios atingiram em algumas classes patamares raros de qualidade.

Individualmente verificou-se que alunos com bom potencial inicial, devido a uma melhor escolarização anterior, conseguiram atingir resultados máximos de aprendizagem conforme as expectativas medidas. Por outro lado, verificou-se também que todo o conjunto de alunos apresentou melhora regular na aprendizagem ao longo do ano, salvo exceções explicadas por outros contextos que extrapolam a sala de aula.

Provavelmente devido ao maior grau de maturidade e a existência de expectativas mais concretas no horizonte próximo, as classes dos terceiros anos foram as que apresentaram melhor resposta a essa metodologia.

Como o experimento se deu em dois anos seguidos e com classes de séries distantes (primeiro ano e terceiro ano) não foi possível medir o impacto causado em uma mesma classe submetida a essa metodologia em anos consecutivos, mas arrisco-me a supor que no segundo ano de aplicação dessa metodologia teríamos bons resultados já desde o início do ano e uma curva de melhora menos acentuada ao longo do ano letivo.

Resultados

Por meio de uma nova metodologia de elaboração e aplicação de provas escritas, inserida em um contexto de uso intensivo das TDIC na sala de aula e durante essas avaliações, verificamos uma significativa melhora no letramento dos alunos, tanto no sentido tradicional quanto no letramento digital, nas práticas de estudo e organização e nos resultados gerais da aprendizagem. Foi possível constatar que processos colaborativos complexos deram lugar à tradicional “cola”, contrariando o senso comum, e que os alunos passaram a demonstrar maior interesse pela disciplina estudada e pela obtenção de bons resultados nas avaliações.

Observou-se um maior empenho dos estudantes em obter bons resultados, uma menor “evasão da prova” e uma mudança importante no comportamento criativo dos alunos, levando-os a propor soluções mesmo quando não detinham as informações necessárias para a correta solução do problema. De forma correlata, diminuiu muito o estresse pré e pós prova, bem como os incidentes corriqueiros nesse tipo de avaliação, como tentativas de fraudes e plágio.

O desenvolvimento de uma nova metodologia de elaboração de provas com suporte ao uso das facilidades trazidas pelo uso da internet e das redes sociais mostrou-se possível a partir de novos paradigmas sobre a aferição da qualidade da aprendizagem, tais como a capacidade de resolver problemas personalizados e a autoria na elaboração de propostas a partir do livre acesso às informações necessárias.

Melhoraram também as habilidades de pesquisa e síntese dos alunos, a concentração na execução de tarefas e a capacidade de trabalhar colaborativamente. Outros parâmetros que compõem a matriz de avaliação contínua e global também apresentaram melhoras com forte correlação, tais como a frequência, o empenho na realização de atividades e tarefas e o grau de engajamento nas atividades de classe.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Avaliação da era das TDIC, Professor Digital, SBO, 15 jun. 2015. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2015/06/15/avaliacao-na-era-das-tdic>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Os números de 2014 para este blog


Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 150.000 vezes em 2014. Se fosse o Louvre, eram precisos 6 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

A escola nativa digital e seus professores órfãos pedagógicos


Resumo

Há duas décadas vem se tratando do problema de adaptar a escola a um modelo que incorpore as novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC). Esse tempo acabou: a escola já incorporou as TDIC no seu cotidiano, muito embora professores, gestores locais e gestores de políticas públicas ainda tenham muita dificuldade em encarar essa nova realidade do ponto de vista de seus velhos paradigmas.

Nesse artigo tratamos da necessidade de uma reflexão sobre essa nova escola e os papéis de alunos, professores e gestores diante da realidade que se apresenta. As análises apresentadas aqui baseiam-se em observações feitas em uma escola estadual paulista inovadora, em estatísticas e relatórios de diversos órgãos e no acompanhamento de professores que atuam em escolas de ensino básico das redes pública e particular.

Palavras-chave: Educação, mobiles, smartphone, TDIC, TIC, novas tecnologias, inovação

A escola que temos é a que sobrou, não a que construímos

Celulares nas escolas
A escola já é nativa digital.

Há duas décadas as escolas, principalmente públicas, viam-se diante de dificuldades de toda ordem, mas principalmente aquelas oriundas do sucateamento ocorrido nas décadas do regime militar. Embora muitas escolas ainda se encontrem sucateadas, é inegável que a situação já esteve pior e não há perspectiva em curto prazo de que esse panorama vá mudar.

Nas últimas décadas as escolas “sem tudo” eram um padrão comum no ensino público (e, disfarçadamente, no ensino privado). De lousas esburacadas e falta de giz até a falta de currículos ou planos pedagógicos, a escola era uma mendiga feia que tentava abraçar as políticas de inclusão que se intensificavam nessa época. Incluir, então, significava apenas colocar mais e mais alunos dentro das escolas e garantir que eles não a abandonassem, quer pela implantação de políticas de progressão continuada, quer pela pura e simples política local de “empurrar o aluno adiante a qualquer custo” (e mesmo que esse custo significasse falsificar a documentação escolar, como ocorreu na maioria das escolas e continua ocorrendo ainda).

Diante da impossibilidade de executar qualquer plano de ensino sem o mínimo suporte, que ia da falta de papel, giz, material didático para o aluno, carteiras, merenda, etc., até a falta de uma teoria pedagógica capaz de dar conta de uma situação de inclusão forçada, o que se viu foi uma escola que deixou de ser escola para tornar-se uma espécie de presídio de crianças e adolescentes, que ali vinham sem nenhum propósito ou possibilidade de aprendizagem e que ali permaneciam, quando permaneciam, por imposição da escola e da família.

O resultado mais palpável disso é o que observamos agora quando analisamos índices como o PISA e as diversas avaliações externas de âmbito nacional ou estadual. Atualmente estima-se que essa geração que iniciou seus estudos há duas décadas constitua o contingente de mais de 50% de analfabetos funcionais presentes no ensino superior, a quantidade significativa de jovens “nem-nem” (que não estudam e nem trabalham) e uma parcela preocupante de desempregados jovens incapazes de acompanhar as formações continuadas oferecidas pelas empresas e, portanto, sem empregabilidade.

Porém, também é dessa geração um contingente considerável de professores que passaram essas duas décadas aprendendo a desaprender, a crer que a escola era uma empreita impossível e assim, adaptando-se a um modelo corrompido e insustentável, muito bem descrito pela frase “o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende e o governo finge que paga”.

A escola que temos hoje, seus professores, gestores e técnicos são fruto dessa escola que destruímos nas últimas duas décadas e que vive ainda sob esses paradigmas, que não são apenas paradigmas de uma escola fordista, bancária, excludente, propedêutica e militarista como tem sido afirmado muitas vezes, mas também dos novos paradigmas de uma escola inclusiva, mas sem propósitos, libertária, mas sem rumo. Uma escola que se viu órfã da sustentação dos modelos repressores e excludentes que apoiavam a pedagogia e as metodologias tradicionais e, ao mesmo tempo, que foi lançada às cegas aos propósitos inclusivos e libertários que lhe foram impostos nas últimas décadas.

Pensar em inovação e uso de novas tecnologias em uma escola sem identidade ou propósitos, que perdeu seu rumo na história e ainda se encontra sucateada e mal assistida, não é tarefa exclusiva para professores ou gestores locais, mas também para os técnicos e políticos e, principalmente, para a academia e os formadores de opinião. No entanto, pode ser possível transformar parte dessa realidade a partir de ações locais, e para isso as novas tecnologias, quando vistas como oportunidades de intervenção nas práticas pedagógicas, podem ser ferramentas poderosas.

Escolas sucateadas, ao contrário do senso comum, são bons ambientes para a inovação com práticas envolvendo as TDIC, tanto quanto são ambiente fértil para “pequenas revoluções” que devolvam a professores, alunos e gestores locais noções de autonomia, responsabilidade e liberdade (de cátedra e de aprendizagem).

Quando uma solução é vista como problema

Em todas as oportunidades de formação de professores, quer para uso das novas tecnologias, quer para uso das velhas didáticas, a grande dificuldade que se percebe nos professores não diz respeito às novidades tecnológicas ou mesmo à concepção teórica de uma escola inovadora e libertária, mas sim à práxis pedagógica, à transposição desses conceitos para metodologias de ensino, práticas efetivas de sala de aula e ideologias que acolham essas novas concepções no cotidiano do fazer pedagógico.

As novas tecnologias ainda são vistas como “novos problemas” por um razoável número de professores simplesmente porque eles não sabem o que fazer com elas. Mas o que pouco se comenta e, de fato, é a parte importante da raiz do problema da inovação pedagógica, é que esses professores também não sabem o que fazer sem elas!

O professor que não sabe o próprio currículo que tem que ensinar, que não sabe ensinar nem a alunos interessados em aprender e nem é capaz de preparar minimamente suas aulas para além do Ctrl+C do livro didático e Ctrl+V na lousa, esse professor não precisa de novas tecnologias, precisa de uma nova profissão. No entanto, as redes educacionais não podem prescindir desses professores, porque não há outros melhores para substitui-los e, ao fim e ao cabo, eles foram formados e treinados tal como se apresentam.

Um exemplo notório de como as TDIC estão sendo amplamente desperdiçadas como ferramentas de ensino e aprendizagem é o uso, ou falta dele, dos mobiles (smartphones, tablets, netbooks, notebooks, etc.). É um fato incontestável que mais da metade dos alunos na maioria das escolas públicas ou privadas, quer nos grandes centros quer nas mais distantes periferias, possui atualmente um smartphone. Também é um fato inconteste que esses aparelhos, agora conectados à internet via 3G, wireless ou outras tecnologias de comunicação sem fio, constituem-se em ferramentas importantíssimas para suprir parte das deficiências dessa escola sucateada e mal assistida. No entanto, as políticas restritivas ao uso desses aparelhos partem desde os gestores políticos (governos e secretarias) até os gestores da base (direção, coordenação e corpo docente).

Não é concebível que um aluno que estuda em uma escola que mal oferece água fresca e potável para seus alunos, quem dirá então bibliotecas modernas, salas-ambiente, laboratórios e apetrechos facilitadores (como calculadoras, computadores, dispositivos de som e imagem, etc.), possa proibir seus alunos de usarem seus smartphones sob a alegação de que eles atrapalham a aprendizagem. Que aprendizagem? Em quais índices, pesquisas ou avaliações vê-se demostrada essa aprendizagem que tanto se fala em preservar?

Experiências feitas em uma escola pública onde os alunos tem relativa liberdade de uso de seus smartphones e possuem ainda acesso livre a uma conexão wireless, mostraram que tanto esses quanto os seus professores fizeram usos mais produtivos do que problemáticos desse aparelho. Na contramão da inovação, mas ainda representando a grande via atual onde trafegam as nossas escolas, aquelas onde há uma política rígida de proibição de uso de smartphones não só não comprovam nenhum ganho de aprendizagem em relação a outras menos restritivas como também não conseguem restringir de fato o uso desses aparelhos e, por causa disso, têm problemas adicionais com a administração dos conflitos inevitáveis advindos dessa política.

Em artigos anteriores [1] [2] já tratei das diversas possibilidades de uso dos smartphones (e mobiles em geral), mas cabe também tratar uma nova questão que se apresenta a partir do uso inevitável desses aparelhos por parte dos alunos: de forma independente dos seus professores (que proíbem ou não usam pedagogicamente esses aparelhos) os alunos estão descobrindo formas de uso que facilitam seus estudos.

Esse movimento de “uso pedagógico dos mobiles e TDIC não assistido por educadores” sempre existiu, ainda que veemente negado por professores que “abominam” o uso das TDIC, e vem se acentuando nos últimos anos. Alunos atualmente, e à margem de qualquer orientação pedagógica, utilizam seus smartphones para agendar suas tarefas, consultar dicionários e enciclopédias, pesquisar sobre temas que aprendem em aula, registrar lousas e quadros de aviso por meio de imagens, trocar informações com colegas e até mesmo praticarem outras línguas. Sem falar do desenvolvimento de raciocínio lógico-estratégico a partir dos tão odiados (por alguns professores) games.

Pressão e repressão no sistema educacional

De parte dos professores também é crescente o uso das TDIC à margem dos seus gestores imediatos e mais distantes e, infelizmente, à margem de uma metodologia pedagógica e consistente de uso. Esse movimento vem ganhando massa crítica e em muitas escolas já começa a produzir uma pressão favorável à modernização dos processos de ensino que vão da preparação e execução de aulas até a documentação burocrática. Em alguns casos, felizmente, esse movimento também tem contaminado outros docentes e se disseminado para além dos muros locais da escola por meio das redes sociais.

Em escolas onde os professores passaram a fazer uso frequente e consistente do projetor multimídia, por exemplo, já há pressão para a aquisição de mais aparelhos, salas apropriadas, conexão à internet de melhor qualidade, etc. Onde professores inovadores começam a organizar e gerenciar o uso de mobiles ao invés de proibi-los, há pressões para a flexibilização de regras de convivência e a própria noção de autonomia de cátedra começa a renascer. Até mesmo a documentação burocrática do professor, melhor descrita pela presença ainda arqueológica da velha “caderneta escolar”, já começa a sofrer modificações graças a iniciativas de uso de documentação eletrônica e mesmo online [3].

A toda essa pressão inovadora se opõe, muitas vezes, a repressão de coordenadores, diretores e supervisores escolares que ainda vivem sob os auspícios tardios do sistema repressor da ditadura militar e que, via de regra, se enquadram nos moldes daqueles educadores que perderam o rumo nas últimas duas décadas. No entanto, não há suporte legal nem pedagógico para ações repressivas aos professores inovadores e, por isso, pouco se fala sobre o tema a fim de não trazê-lo à tona para a discussão (visto que seria uma discussão perdida).

Do ponto de vista da gestão das políticas educacionais, ainda que o governo federal e alguns governos estaduais tenham empreendido algumas políticas de inclusão digital, pouco tem sido feito, de fato, para promover o letramento digital de toda a máquina educacional. Não há, por exemplo, políticas claras sobre o direcionamento dos movimentos de inovação, sobre um currículo de letramento digital ou mesmo algum consenso sobre um pacote mínimo de apetrechos e logística para dar suporte às novas tecnologias nas escolas. O que se tem visto em muitos locais são apenas pequenos projetos pilotos, muitas vezes encabeçados por institutos e fundações do terceiro setor, que são usados mais para o marketing político nas campanhas eleitorais (ou o marketing social das organizações não governamentais) do que como projetos visando toda a rede onde são implantados para teste.

A pressão necessária para o surgimento de políticas públicas mais consistentes nessa área depende menos dos atores das redes educacionais do que da mídia e de um conjunto de formadores de opinião que estão mais presos a paradigmas econômicos do que educacionais. Portanto, nessa esfera só podemos atuar de forma organizada e estrategicamente pensada em termos político-econômicos, o que infelizmente não acontece no universo das redes educacionais depois do desmantelamento e desvirtuamento dos sindicatos de classe.

Conclusões

A escola atual já é nativa digital, pois seus alunos são nativos digitais e a sociedade onde vivem faz uso ostensivo das TDIC. Independentemente das políticas locais, estaduais ou federais relativas às novas tecnologias, elas existem dentro da escola, ainda que escondidas nos bolsos dos alunos na forma de um smartphone. Por outro lado, professores e gestores, em grande número, são órfãos pedagógicos de uma escola que se viu sem rumo nas últimas duas décadas e que perdeu a competência de ensinar sem ou com novas tecnologias.

Nesse contexto, as novas tecnologias representam oportunidades tanto de inovação tecnológica quanto pedagógica, pois com elas se pode também trazer a capacitação que falta aos professores para o domínio próprio de seu fazer pedagógico, a capacitação de gestores para lidarem com as novas demandas oriundas de qualquer inovação, e não apenas a tecnológica e, no limite, aos gestores de políticas públicas por meio da reengenharia das redes educacionais, sem a qual estaremos apenas remendando as muletas de uma escola aleijona.

Por ser dinâmica, a escola se transforma mesmo à revelia de políticas públicas globais ou locais, mas a pressão local que se inicia com as demandas dos próprios alunos e se expande para o corpo docente pode levar à mudança de diversos paradigmas e a redescoberta da autonomia da escola, dos objetivos da gestão em todas as esferas das redes educacionais e, no limite, a reengenharia das redes educacionais com políticas públicas de inclusão e letramento digitais consistentes com as demandas mais atuais.

Referências e sugestões na Internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. A escola nativa digital e seus professores órfãos pedagógicos, Professor Digital, SBO, 17 fev. 2014. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2014/02/17/a-escola-nativa-digital-e-seus-professores-orfaos-pedagogicos>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Mudança ou enganação?


De: Robson Freire – Editor do Blog Caldeirão de Ideias.

(*) Este blog publica artigos de terceiros, desde que originais e dentro da linha editorial do blog, mas não se responsabiliza e nem endossa suas opiniões.

Na Educação se discute o uso das tecnologias desde 1997,  com o lançamento do PROINFO (http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=462) e fui testemunha ocular desse processo como coordenador de um NTE. Vi todo o sucesso e o fracasso de diversas políticas públicas nessa jornada. Eu sempre fui um grande defensor do uso da tecnologia para fins pedagógicos com a proposta de facilitar o aprendizado e estimular a inclusão digital.

Porém, ao mesmo tempo, fico preocupado com o modismo que atualmente vê a tecnologia como uma tábua da salvação para todos os males da Educação. Isso está acontecendo no Brasil e é necessário aprofundarmos a discussão sobre em quais situações os novos recursos tecnológicos podem, de fato, exercer impacto positivo ou fazer a diferença sobre a Educação e, em qual contexto isso seria apenas mais uma enganação.

Tablete ou livros?
Tablete ou livros?

Economicamente, o uso de recursos tecnológicos é bastante positivo. A implantação de tablets como ferramenta fundamental na escola pública poderá impulsionar todo o setor produtivo tecnológico, resultando em maior inclusão digital, na arrecadação de impostos e na criação de novos postos de trabalho e empregos, gerando mais renda ao trabalhador além de outras vantagens, como a diminuição do peso das mochilas dos alunos, a diminuição dos custos do PNLD, atualização mais eficiente do material publicado errado ou em desalinho com o que foi proposto. Mas para fins pedagógicos, é também necessário se discutir como esses recursos impactam as metodologias de ensino.

Pense comigo, o raciocínio é simples: Se um aluno não consegue aprender com um livro em papel, ler o mesmo livro em formato digital não vai representar ganho algum. Ele vai continuar sem aprender nada. Se os tablets forem implantados na rede pública sem se discutir qual seria a melhor metodologia para que o seu uso realmente faça alguma diferença, será pura enganação.  Seria necessário que houvesse uma proposta de trabalho, para que se trabalhassem em conjunto varias correntes, entidades superiores e de ensino (escolas) para discutir uma reforma pedagógica para incluir as novas tecnologias de forma eficiente dentro de um contexto mais amplo.

Isso vale para qualquer outro recurso tecnológico que seja adotado pelas escolas públicas, não somente para os tablets. É perigoso nos deslumbrarmos com novas tecnologias e vermos nelas uma solução definitiva para qualquer problema, sem questionarmos o cenário de um ponto de vista mais amplo e profundo.

A meu ver surgem perguntas que todos deveriam fazer antes de qualquer coisa: Qual seria o impacto das novas tecnologias e seus dispositivos efetivamente na aprendizagem dos alunos? Elas deveriam ser usadas para tornar o aluno mais independente do professor, incentivando o autodidatismo? Seria possível  tornar a sala de aula em um local no qual se tiram dúvidas e aprofundam questões já estudadas previamente em casa, além de facilitar o trabalho cooperativo entre os alunos?

As tecnologias oferecem hoje aos professores recursos e meios que podem ampliar a relação ensino-aprendizagem, diminuindo barreiras de tempo e espaço, através de ambientes que extrapolam a sala de aula física e convencional. Os repositórios, blogs e os espaços colaborativos podem agregar conhecimentos a própria prática docente, por meio de pesquisas sobre novas metodologias e recursos didáticos.

Para que isso ocorra, os profissionais da educação, sobretudo os professores, devem assumir um papel de pesquisador de novos conhecimentos para aperfeiçoar cada vez mais sua prática educativa. Entendo que o professor deve ser sempre um pesquisador, não só de conhecimentos científicos, metodológicos, mas também da sua própria prática pedagógica. Consideramos aqui o professor pesquisador como aquele que investiga e estuda seu campo de atuação e que produz conhecimento (transforma a informação em conhecimento).

Nesta perspectiva, o professor, assumindo esse papel de pesquisador e produtor de conhecimentos, poderá utilizar as tecnologias para estudos, através do acesso a periódicos, livros, artigos científicos, blogs, conteúdos e recursos educativos. Além de também poder compartilhar com outros profissionais suas produções (trabalhos, artigos, atividades educativas, vídeos, entre outros), experiências e conhecimentos.

São apenas alguns exemplos das muitas formas que o uso de tecnologia na escola poderia realmente exercer alguma influência positiva, mas esta é apenas a minha opinião. Precisamos aprofundar os estudos realizados por pedagogos, professores e acadêmicos, que precisam ser compartilhados e debatidos com a sociedade e depois usados como base para uma reformulação da metodologia de ensino.

Só viveremos dentro de uma nova realidade educacional reformando integralmente toda cadeia educativa, desde a formação inicial, onde se privilegie o uso das tecnologias e da mudança da filosofia/metodologia para uma cultura hacker e o uso de recursos educacionais abertos.

Bem… Chegou a hora da verdade: Mudamos de verdade ou continuaremos enganando?

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

FREIRE, Robson. Mudança ou enganação?, Professor Digital, SBO, 21 jan. 2013. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2013/01/21/mudanca-ou-enganacao/. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Os números de 2012


Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

About 55,000 tourists visit Liechtenstein every year. This blog was viewed about 200.000 times in 2012. If it were Liechtenstein, it would take about 4 years for that many people to see it. Your blog had more visits than a small country in Europe!

Clique aqui para ver o relatório completo

Alivie o peso da sua consciência e da mochila do seu aluno com tecnologia


Já há algum tempo eles deixaram de ser meros telefones ou brinquedinhos. Está na hora de começar a levá-los mais a sério: os mobiles já estão na sua sala de aula, mesmo que escondidinhos, e não vão mais sair de lá!

Tablets e Smartphones
Tablets e Smartphones: eles podem ajudar a melhorar a qualidade de vida de alunos e professores

Um dos grandes problemas das escolas jurássicas é a estreiteza de visão de gestores e educadores sobre o impacto e a extensão da aplicação de novas tecnologias no processo educacional.

Já estamos todos cansados de repetir e concordar que nosso modelo escolar é ruim e precisa ser reinventado (só tapar o sol com a peneira já não dá mais). Já há um consenso muito bem estabelecido de que as novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) têm um papel fundamental nessa reconstrução. Porém, os falsos paradigmas da escola jurássica e o apego quase nostálgico a práticas e hábitos ultrapassados ainda sobrevivem e impedem que gestores e educadores promovam mudanças.

Em outros artigos [1][2][3] já discuti extensivamente o uso pedagógico dos mobiles (smartphones, tablets, minitablets, etc.) como meios de transformar a maneira como se ensina e propiciar novas formas de aprendizagem, de forma que o ensino se aproxime mais da dinâmica como o aluno aprende atualmente. Porém, há muito mais que podemos fazer pelos nossos alunos, e por nós mesmos, ao incorporar as novas tecnologias em nossa prática de ensino.

O uso das TDIC causa impacto dentro e fora da sala de aula e abrange algumas questões que raramente nos chamam a atenção, mas que se relacionam diretamente com as nossas práticas em sala de aula e na escola de maneira mais geral. Essas questões que, aparentemente, extrapolam o universo da sala de aula, são igualmente fundamentais se pretendemos uma escola feita para alunos e não apenas para professores e gestores terem um local para trabalhar.

Nesse artigo eu volto ao tema dos móbiles, mas com um enfoque que extrapola a prática de sala de aula para abarcar também a qualidade de vida dos nossos alunos. Como não poderia deixar de ser, retomo também o uso pedagógico dos móbiles e tento apontar alguns caminhos possíveis que eu mesmo e muitos outros estamos tentando trilhar.

A primeira proposta é simples: vamos rever o material escolar de nossos alunos e aliviar o peso de suas mochilas?

A segunda é mais complexa: vamos refletir sobre nossa capacidade de aplicar a nós mesmos as teorias que aprendemos na faculdade (Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, etc. etc) e tentar uma ação concreta?

Mochilas escolares, dores e problemas posturais

Mochila escolar
A mochila escolar não pode pesar mais do que 10% do peso da criança.

Diversos estudos já mostraram que as mochilas escolares podem causar problemas posturais e quadros de dores nos ombros, costas e outras partes do corpo sensíveis a sobrecarga de peso transportado.

Segundo esses estudos a carga máxima que uma criança deveria transportar em sua mochila não deve ultrapassar 10% de seu peso. A conta é simples:

Carga máxima = 100 x (peso da mochila)/(peso da criança)

Se o resultado dessa conta for maior do que 10 isso quer dizer que a criança está transportando um peso excessivo e, provavelmente, terá problemas de saúde como consequência.

Há várias maneiras de tentar contornar o problema do sobrepeso das mochilas. Algumas são indicadas no final do artigo, nas referências de pesquisa na internet. Porém, a maneira mais simples de resolver o problema é simplesmente reduzir a quantidade de itens transportados.

Mas, que itens são transportados em uma típica mochila de criança do ensino fundamental ou médio? Vamos listar alguns:

  • livros: livros didáticos e apostilas, livros de literatura, gibis, revistas, dicionários de português e outras línguas, etc.
  • cadernos: caderno de várias disciplinas, cadernos de caligrafia, caderno de desenho, agenda.
  • materiais de apoio à escrita: lápis, caneta, lápis e canetas para desenhar e pintar, borracha, corretivo, régua e outros apetrechos de desenho, estojo para armazenar.
  • materiais variados: relógio, adesivos, tesouras, brinquedos, chaveiros, instrumentos musicais, calculadora, jogos, etc.

Se olharmos com atenção veremos que as mochilas são mini-papelarias ambulantes e mesmo retirando delas todos os itens supérfluos ainda restarão muitos itens pesados, sendo que, geralmente, estes são os mais importantes.

Estudos também mostram que o peso das mochilas aumenta conforme a idade e a série escolar de forma desproporcional ao aumento de peso das crianças. Nas séries finais no Ensino Fundamental as mochilas pesam bem mais porque os alunos transportam mais cadernos, dicionários e livros de diversas disciplinas.

Proposta 1: Aliviando o peso da mochila com tecnologia

Enquanto alguns professores ainda gritam desesperados para seus alunos desligarem seus smartphones e tablets e pegarem seus livros e cadernos, porque simplesmente não pedem que os alunos abram seus livros e cadernos no smartphone ou no tablet?

  • Em um único tablet, com pouco mais de meio quilograma, é possível armazenar todos os livros didáticos que o aluno utilizará, todos os dicionários que precisar, todas as enciclopédias sugeridas para consulta, tradutores, agendas, e milhares de outros materiais “escritos” para consulta.
  • Os tablets possuem aplicativos para produção de texto formatado, planilhas, gráficos, figuras, apresentações, ferramentas de desenho, ferramentas de escrita caligráfica, corretores ortográficos, etc. etc.
  • Com um tablet não há necessidade de dezenas de lápis coloridos, borrachas, tesouras, canetas, calculadoras, relógios, corretivos líquidos, réguas, compassos, etc. etc.
  • De brinde os tablets ainda levam em si máquinas fotográficas, filmadoras, aparelhos de som, televisores, calculadoras, cronômetros, jogos e aplicativos para todo tipo de coisa que se queira.
  • Com os tablets é possível fazer experiências sem ter laboratório na escola, simular situações que seriam impossíveis ou extremamente difíceis no mundo real, consultar professores virtuais, interagir com alunos de outras classes e escolas, etc. etc. É uma lista interminável!

Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que quase tudo que um aluno carrega em sua mochila pode ser colocado em um tablet ou mesmo em um smartphone (com algumas restrições devido ao tamanho da tela) com uma redução de peso e de volume absurdamente grande.

E o mais impressionante nisso tudo, e razão pela qual eu afirmo que os falsos paradigmas ainda sobrevivem na escola e nos atrasam cada vez mais, é que em muitas mochilas já encontramos um item muito bem escondidinho, porque é odiado por professores e gestores, mas muito importante: o tablet ou o smartphone!

Não adianta fingir: sua consciência anda abalada por causa das TDIC

Oras, convenhamos, se não fôssemos educadores diplomados e cultos, portanto inteligentes e sempre abertos às novas idéias, alguém que nos visse proibindo os alunos de usarem seus tablets na sala de aula nos acharia “um tanto desprovidos de bom senso” (para ser bem sutil).

Porque gestores e professores resistem de forma quase ingênua, para não dizer tola, à incorporação dessas tecnologias de forma natural em suas salas de aula? Porque querem que os alunos copiem suas lousas à mão e no caderno se eles podem simplesmente fotografá-las? Porque os alunos precisam levar livros pesados se esses livros e muitos outros poderiam estar digitalizados de maneira a não ocupar nenhum espaço e nem ter peso algum? Porque o aluno tem que escrever sobre uma folha de papel em seu caderno (parte de um cadáver de uma pobre árvore derrubada para essa finalidade) se eles podem escrever e desenhar da mesma forma, ou melhor ainda, sobre uma tela digital?

Fotografando a lousa
Fotografar a lousa é uma forma inteligente de copiá-la.

Há tantos porquês de difícil resposta nessa questão que é mais fácil refletirmos sobre o conjunto deles todos: Será que não estamos teimando em continuar na idade da pedra lascada sem nenhuma razão evidente que justifique isso? Porque nos apegamos tanto a paradigmas, práticas e idéias completamente obsoletas? Como podemos dormir em paz sabendo, lá no fundo de nossa consciência, que estamos agindo errado e de forma proposital?

Já está mais do que claro que além do usos pedagógicos que potencializam o ensino e a aprendizagem, os tablets e smartphones são escolhas saudáveis e inteligentes para substituírem uma infinidade de itens que de fato não precisamos mais ter dentro da mochila.

Porém, os tablets e smartphones também provém recursos para que não precisemos mais de uma série de práticas pedagógicas que também já não cabem mais em nossas salas de aula: nossa mochila pedagógica está cheia de entulho!

Aliás, porque ainda temos “salas” de aula e grades nas portas e janelas? Porque nossos alunos precisam ficar sentadinhos enfileirados como militares ou prisioneiros em formação? Porque temos horários rígidos e campainhas que nos empuram daqui para ali, como nas fábricas ou nas prisões? Porque a escola parece uma indústria-prisional de lavagem cerebral se ela se destina a gerar cidadãos livres e libertários, criativos e conscientes? São tantos porquês…

Proposta 2: Aliviando o peso da sua consciência com tecnologia

Proponho, além da reflexão sobre esses “porquês inexplicáveis”, uma ação concreta que nos permita passar de elementos passivos ou observadores críticos para atores criativos: vamos “chutar o balde”? Mesmo que você acredite (e não saiba racionalmente porque acredita) que o uso de tablets e smartphones é mais prejudicial do que benéfico, aceite o desafio de usá-los por dois meses (um bimestre!).

Combine com seus alunos que tragam para a aula seus smartphones, tablets, netbooks e notebooks e comece a propor que eles sejam usados em atividades rotineiras da aula como: copiar a lousa, escrever textos, pesquisar palavras em dicionários, assuntos em enciclopédias ou na internet, etc. Explore as possibilidades!

No princípio você estará bastante inseguro sobre “onde isso vai nos levar”. Afinal, é algo novo, e sempre nos sentimos inseguros diante de coisas que não dominamos, não conhecemos profundamente e nem somos capazes de controlar de forma absoluta (Ei, espere aí, a vida toda é assim, não é?).

Claro que para “chutar o balde” e passar de elemento passivo ou observador crítico para ator criativo, é preciso antes ter uma boa conversa com os gestores, os pais e os alunos. Afinal, somos educadores e não vamos propor que os alunos “tragam um novo brinquedo para a sala de aula”, mas sim que passemos a usar novas ferramentas para potencializar a aprendizagem e promover mudanças comportamentais importantes (para a aprendizagem, para a saúde, para a cidadania em um mundo moderno e tecnológico e para nosso próprio benefício, na medida que podemos desenvolver aulas mais produtivas e obter melhores resultados com menores esforços).

Também não pense que tudo sairá como planejado inicialmente, pois um dos novos paradigmas com os quais você terá que ir se acostumando é que nesse novo mundo, em constante e rápida transformação, todos os processos são dinâmicos e pouco controláveis, requerendo ajustes constantes e uma atenção contínua ao desenvolvimento.

Nem pense em contar com a adesão de todos à sua volta, pois o diferente ainda é visto como “estranho e perigoso”. Muitos colegas dirão que você está “conturbando a escola” (e estará mesmo!), que isso dificulta o trabalho deles (bobagem!) e, principalmente, que você perderá o controle (o que seria verdade se realmente alguém tivesse o “controle” nos dias de hoje).

Muitos alunos podem não ter esses recursos, então você também não poderá migrar 100% de sua prática para esse novo modelo. Mas também não é esse o objetivo aqui. O objetivo é iniciar agora mesmo, na sua escola e nas suas classes, uma mudança que já está em andamento em todo lugar e que não será freada por esforços retrógrados: a incorporação natural das novas tecnologias nas práticas de ensino e o desenvolvimento de novas práticas baseadas em um novo estilo de aprendizagem e comportamento manifestado pelas gerações de nativos-digitais.

Se o desafio lhe parecer “impossível ou muito improvável”, tenha em mente que já existem professores fazendo isso em salas de aula reais no mundo todo e, inclusive, no Brasil (ok, eu também sou um deles) e, segundo relato deles mesmos, tem dado certo! Todos os problemas e dificuldades listados acima podem ser contornados ou superados.

Se aceitar o desafio não se esqueça de

  • planejar antes de executar qualquer atividade e, durante a atividade, esteja preparado para lidar com todo tipo de imprevisto. Portanto, tenha na manga um plano B, C, D e uma boa dose de paciência e persistência;
  • sonhe alto, mas caminhe devagar e dê um passo de cada vez. As grandes obras se constroem lentamente. Na sala de aula as conquistas são incrementais, ocorrem aos poucos, nem sempre com todos ao mesmo tempo e, por fim, nem sempre terminam onde planejamos no início;
  • seja muito persistente; acredite de verdade que está construindo algo melhor do que já temos;
  • observe tudo atentamente e analise em tempo real as ações, comportamentos e mudanças na sua própria prática e na prática do aluno. Procure localizar as mudanças que planejou, mas tenha olhos para ver outras mudanças não planejadas que ocorrerão;
  • coloque-se no lugar do seu aluno. Mude seu ponto de vista. Tente aprender com eles as melhores maneiras de usar as ferramentas tecnológicas para atingir de forma mais eficiente os objetivos que você tem como professor;
  • procure outras pessoas que estão tentando usar os mobiles em sala de aula; a rede está cheia delas. Procure “aliados” na própria escola. Compartilhe, interaja e se insira na rede mundial, nos grupos de discussão, nas comunidades virtuais;
  • no final desse “bimestre experimental”, reavalie com seus alunos a possibilidade de continuar tentando inovar no próximo bimestre, e no próximo ano, e pelo resto da sua vida.

Se depois desse bimestre você concluir que não valeu a pena e resolver desistir (não recomendo mesmo!), tranquilize-se, pois pelo menos você terá saído de sua zona de conforto, terá sentido um desequilíbrio cognitivo que o levará a explorar sua zona de desenvolvimento proximal, terá desenvolvido novas habilidades em direção à aquisição de novas competências e, para todos os fins, terá exercitado na prática o novo paradigma de aprender a aprender.

Se resolver continuar adiante, terá aprendido que aprender sempre e aprender com novas tecnologias é divertido e desafiador e, por isso mesmo, os alunos também preferem aprender assim. Além disso, quando os mobiles, enfim, deixarem de ser vistos como vilões e passarem a ser vistos como essenciais na Educação, você já estará pronto para desenvolver novas metodologias para as próximas tecnologias que estarão surgindo, e não mais como agora, na incômoda situação de ter que lidar com algo que desconhece por completo, que nunca experimentou e, mesmo sabendo que é bom, não gosta (parece criança que não quer comer brócolis, não?).

Acredito que após dois meses persistindo no uso dos mobiles você poderá ter conseguido:

  • alunos mais produtivos, que agora terão mais tempo para se dedicar ao aprendizado e às suas explicações do que à tarefas ridiculamente ultrapassadas como “fazer cópias de lousa”;
  • criar uma rotina de uso em que o aluno (e você mesmo) passe a ver o tablet ou smartphone como uma ferramenta de trabalho escolar tão banal quanto o antiquíssimo caderno, porém mais divertida e funcional;
  • um menor nível de “indisciplina”, “desatenção” e “desinteresse” nas aulas pois, aquilo que é proibido e raro (como o uso atual dos smartphones e tablets na sala de aula) é muito atrativo e dispersivo, mas o uso regular desses aparelhos acaba retirando deles o “gosto pelo pecado” e os torna apenas materiais didáticos usuais, porém, mais divertidos e inteligentes;
  • criar novas dinâmicas de aula que incluam o uso da internet e de recursos de multimídia e computacionais como ferramentas banais, mas que podem tornar suas aulas mais completas e interessantes;
  • reduzir significativamente o peso e o volume de materiais didáticos e de apoio que os alunos trazem para a escola em suas mochilas e, com isso, estará também contribuindo para a saúde deles. E procure perceber que você também acabará reduzindo o peso que carrega na bolsa e na consciência;
  • criar em si mesmo e nos alunos a expectativa de que muito mais pode ser feito, muito mais há para se saber sobre essa nova forma de ensinar e aprender e, por fim, terá plantado uma sementinha onde antes havia apenas poeira velha e repisada de paradigmas capengas.

Bom, então, divirta-se!

Referências e sugestões na Internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Alivie o peso da sua consciência e da mochila do seu aluno com tecnologia, Professor Digital, SBO, 15 ago. 2012. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2012/08/15/alivie-o-peso-da-sua-consciencia-e-da-mochila-do-seu-aluno-com-tecnologia>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

A Lousa Digital Interativa chegou! E agora?


Elas estão chegando!

Há cerca de uma década os professores se espantavam com a chegada dos computadores à escola. Depois foi o projetor multimídia e a internet e mais recentemente os aparelhos móveis (smartphones, tablets, netbooks e notebooks). Agora é a vez da lousa digital interativa.

Lousas Digitais
Elas estão aí. Não adianta tentar fugir.

Muitas escolas já possuem uma ou mais lousas digitais interativas. O ideal é que elas estivessem presentes em todas as salas de aula, nos laboratórios, nas bibliotecas, nas salas de reuniões e na sala dos professores. Mas, como o seu custo ainda é elevado, essa implantação tende a ser vagarosa (como quase tudo na Educação).

Quando o professor se vê diante da lousa digital interativa pela primeira vez é bem comum um certo ar de espanto e indignação. Afinal, é espantoso que tenham inventado uma “lousa digital” unindo o que há de mais antigo, a lousa, com o que há de mais moderno: a tecnologia digital. E, por outro lado, parece absurdo que governos e escolas invistam altas somas na aquisição de dispositivos digitais modernos e, ao mesmo tempo, se recusem a investir mais e melhor na carreira do professor, na sua formação inicial e continuada, na manutenção dos equipamentos que as escolas já dispõem e no suporte técnico e pedagógico para o uso dessas novas tecnologias.

Seja lá qual for o grau de espanto ou de indignação do professor, o fato concreto é que começa a cair em seu colo “mais uma encrenca” (ou “possibilidade”, conforme a ótica com que se vê a situação): como usar essa “coisa”, geralmente branca, sem muitos botões e aparentemente “vazia”?

O objetivo desse artigo é desmistificar esse apetrecho tecnológico de maneira que o professor que sempre se desviou da lousa, ao passar por perto dela, possa agora aproximar-se mais e utilizá-la, descobrindo alguns de seus possíveis usos.

O bicho não morde!

A primeira coisa a saber sobre a lousa digital é que ela não morde, mas você pode até fazê-la latir se você souber apertar os botões corretos. 🙂

Quebrando computadores
Computador sem uso é computador quebrado.

A lousa digital interativa não é um aparelho frágil a ponto de quebrar se você tocar nela. Na verdade ela foi construída justamente para ser tocada. Não existe o risco de você “estragá-la usando-a” (sobre esse tema, “estragar usando”, veja um artigo meu de junho de 2008, “Quebrando computadores“, que tratava justamente da questão da falta de uso dos computadores da sala de informática sob a alegação de que “usá-los os quebrariam” e que, apesar de passada meia década, ainda continua sendo um artigo atual para algumas escolas). E, por fim, por incrível que pareça, a lousa digital interativa é mais fácil de lidar do que a lousa comum usada com o giz ou com o pincel atômico.

Embora já exista no mercado diversos modelos de lousas digitais com diferentes tecnologias, o funcionamento básico de todas elas é muito parecido. Mais ou menos como são parecidas as lousas tradicionais, que podem ser verdes, pretas, azuis, brancas, de madeira, de “pedra”, etc., mas funcionam sempre da mesma forma e para o mesmo propósito.

Em alguns modelos você pode interagir com a lousa usando os próprios dedos, em outros usa-se uma caneta especial e, em outros ainda, pode-se usar qualquer objeto. Há lousas de diversos tamanhos, mas normalmente elas têm mais de 70 polegadas (na diagonal). Cada tipo/marca/fabricante de lousa costuma ter um ou mais softwares que facilitam o seu uso, mas todos esses softwares de controle também são parecidos em suas funcionalidades.

Traduzindo para um bom português: quem já viu uma, já viu todas.

Como funciona?

As lousas digitais mais comumente encontradas nas escolas são ligadas a um computador (por cabo ou via wirelles) e a um projetor multimídia (o velho “datashow”). Na verdade a lousa digital pode ser entendida como esse conjunto de três componentes: a lousa propriamente dita, um computador e um projetor multimídia. Algumas lousas já estão incorporando o computador em seu próprio corpo, mas todas elas precisam de um computador para funcionar.

Lousa digital - funcionamento
A lousa digital interativa é na verdade um conjunto de três elementos: lousa, projetor e computador.

E é justamente aí que está o “pulo do gato”: a lousa, em si, não faz nada, quem realmente “trabalha” o tempo todo é o computador. Assim, para efeitos comparativos, a lousa nada mais é do que um “monitor + mouse + teclado” que serve para você se comunicar com o computador exatamente da mesma forma como faria usando esses três elementos em um desktop ordinário.

Outra comparação interessante pode ser feita com os smartphones. Se você já manuseou um smartphone com tela full touch (aquela de tocar e mover ícones com os dedos na tela), então você já usou uma lousa digital em miniatura.

De qualquer forma, como você pode ver pelos exemplos acima, a lousa digital pode ser usada com um esforço de aprendizagem muito pequeno por todos aqueles que já usam normalmente um computador ou um smartphone. No caso da lousa digital, o mouse é seu dedo ou a caneta especial (quando a lousa usa uma dessas) e o teclado é virtual, como nos smartphones.

Você pode fazer na lousa digital tudo aquilo que já faz no computador (e mais ainda!). Tudo aquilo que você fizer na lousa aparecerá na tela do computador (se ele estiver ligado a um monitor) e todos os programas do computador podem ser executados a partir da lousa. Bom, mas se é assim, então qual é a vantagem da lousa digital? Porque simplesmente não usamos um computador acoplado a um projetor multimídia?

A grande vantagem da lousa digital é justamente o fato de ela ser uma “lousa”! Dessa forma você pode escrever nela, fazer anotações sobre imagens projetadas, executar e mostrar filmes, músicas e animações ou simulações e, principalmente, interagir com a lousa como interage com seu computador, mas sem precisar ir até o computador para fazer isso.

Ter uma lousa digital na sua casa não seria nada vantajoso porque na sua casa você usa o computador para si mesmo. A lousa digital é para ser usada para, e com, os seus alunos, então, ela só é uma ferramenta vantajosa em situação de aula.

Para que serve?

A lousa digital serve para facilitar o trabalhado do professor, permitindo que ele faça melhor aquilo que já faz com uma lousa comum e estendendo esse uso de forma a incorporar mais facilmente as TIC, o uso da internet e de novas práticas pedagógicas mais interativas, eficazes e atraentes para os alunos.

Para o aluno a lousa digital também pode ser muito vantajosa, dependendo do uso que o professor fizer dela. A lousa digital não serve para transformar uma aula chata em uma aula atraente, ela não faz com que um professor “ruim” fique “bom”, ela não transforma o livro, o laboratório e outros materiais didáticos de apoio em “coisas obsoletas” e não melhora a qualidade da educação por si mesma. A qualidade do professor é fundamental para uma boa aula e, portanto, a única coisa que uma lousa digital pode fazer pela educação é dar ao bom professor mais ferramentas para que ele se torne ainda melhor.

Aula chata
Nada é capaz de “salvar” uma aula chata.

Por isso, antes de pensar em como você vai usar uma lousa digital interativa, é bom pensar em como você já usa a sua lousa tradicional, com giz. No artigo “Uso pedagógico do giz (do giz???)” você encontrará alguns elementos para refletir sobre o uso de lousas “analógicas”.

Há, literalmente, infinitas possibilidades de uso da lousa digital interativa, mas para quem nunca experimentou uma delas, aqui vão algumas (poucas) sugestões por onde se pode começar:

Escrevendo na lousa digital

Escreva nela! Sim, escreva. A lousa digital também serve para escrita, seja com letra cursiva ou como texto digitado por meio do teclado virtual ou do teclado físico acoplado ao computador. Na lousa digital você pode escrever da mesma forma como faria em uma lousa comum, usando giz. E qual é a vantagem disso? São várias:

  • você dispõe de ferramentas de apoio à escrita, como a possibilidade de desenhar figuras geométricas, linhas, setas, etc. de forma perfeita;
  • alguns softwares usados em lousas digitais transformam sua letra manuscrita em caracteres de uma fonte que você escolher, como essa fonte que foi usada para escrever esse texto, tornando assim a sua letra “mais legível” e “mais bonita”;
  • junto com seu texto e seus esquemas você pode adicionar elementos que não poderia em uma lousa comum (sem uma boa dose de sacrifício), como fotos, esquemas, ilustrações e até mesmo músicas e filmes;
  • e agora vem a melhor parte: você não se lambuza de giz e pode apagar sua lousa toda (ou qualquer parte dela) com um único “clique”. Não é fantástico?

Aula pronta
Nem sempre é preciso escrever nela.

Traga suas lousas prontas para a aula! Sim, é muito fácil! Aquela aula que você preparou em casa com tanto carinho, mas que teve que “copiar novamente” na sala ou, pior ainda, repetir a mesma lousa em várias salas para várias turmas, pode agora ser trazida pronta de casa sem que você tenha que despender tempo e esforço copiando-a várias vezes.

  • as lousas digitais interativas geralmente vêm acompanhadas de softwares que o professor pode usar em sua casa ou em outros computadores da escola, durante seu tempo de preparação de aulas, que permitem que a lousa seja toda “montada” antes do professor entrar na sala;
  • a aula “pré-montada” pode ser alterada durante a aula real. Lembre-se que você pode escrever, apagar, modificar, acrescentar ou fazer o que bem entender durante a aula e ainda pode “salvar e gravar” a aula modificada como uma nova versão (as vezes pode ser interessante ter diversas versões para diversas salas, já que as aulas “reais” raramente são idênticas em salas diferentes);
  • preparando antecipadamente a aula (como deve ser, com ou sem lousa digital), e trazendo a lousa pronta para a sala (essa é a novidade!), você certamente terá mais tempo para explorar e acrescentar recursos multimídia, como imagens, clipes, simulações, etc, no próprio espaço de tempo da aula. Além disso, as aulas podem sempre ser “reaproveitadas” em outras salas, em outros anos ou em outros cursos. Com o tempo você pode construir seu próprio material didático multimídia com recursos exclusivos e com a facilidade de poder modificá-lo, ano a ano;
  • assim como você, outras pessoas também prepararão e trarão aulas prontas para a sala de aula e, usando as redes sociais, os repositórios de recursos educacionais abertos, etc., você poderá compartilhar e utilizar aulas, ou trechos de aulas, preparadas por outros professores, otimizando ainda mais o seu tempo. A riqueza por trás dessas possibilidades é gigantesca!

Alunos na lousa digital
A lousa é deles!

Leve os alunos para a lousa! Sim, eles gostam de ir para a lousa, principalmente se a lousa for digital! Lembre-se que a interatividade da lousa digital não deve ser entendida apenas como um recurso para o professor. Essa interatividade pode potencializar muitas aprendizagens dos alunos e, portanto, é com os alunos que ela desempenha seu principal papel como ferramenta de apoio ao ensino e à aprendizagem. 

  • os alunos podem usar a lousa de forma individual, como o professor, ou em duplas, trios ou grupos ainda maiores. Para o uso múltiplo e simultâneo é preciso que a lousa possua a tecnologia adequada e um software de controle que permita o uso simultâneo por várias pessoas. Nessas lousas os alunos podem trabalhar de forma cooperativa, participar de jogos e outras atividades que podem ser feitas em grupo.
  • nas lousas que não possuem esse recurso de uso simultâneo é possível levar os alunos para diversas atividades, como: escrever (em turmas de alfabetização, por exemplo), corrigir tarefas, resolver problemas, interagir com simulações, apresentar trabalhos, construir textos coletivos, etc.
  • além daquilo que os alunos podem fazer em uma lousa comum, a lousa digital adiciona recursos que só estão disponíveis em um computador. Pense no que seus alunos poderiam fazer em um computador comum para aprenderem o que você quer que eles aprendam e você terá uma boa ideia do que eles podem fazer para aprender usando a lousa digital.

Registre e compartilhe suas lousas com os alunos! Sim, eles vão amar poder prestar atenção às suas explicações e depois receberem uma cópia das suas lousas ao invés de despenderem um longo tempo e um grande esforço tentando copiar as suas lousas e, ao mesmo tempo, prestar atenção no que você explica.

Copiando a lousa
Novos paradigmas!

  • “copiar a matéria da lousa” é tão moderno quanto copiar à mão uma notícia do jornal para depois enviá-la pelo correio normal para um amigo. Hoje em dia existem métodos muito mais eficientes para se “copiar lousas”. Um deles é a simples “fotografia” da lousa. No entanto, com uma lousa digital você mesmo pode “fotografar suas lousas” (salvando-as como imagem no computador acoplado à lousa) e distribuí-las para seus alunos publicando-as em uma galeria de imagens ou no seu blog. Sim, tenha um blog!
  • você pode registrar também as atividades que os alunos fizerem na lousa, trabalhos apresentados nelas, etc. Tudo o que for mostrado na lousa pode ser gravado, arquivado e distribuído.
  • se você organizar essas lousas em um blog ou em uma galeria de imagens, os alunos, os pais dos alunos e quaisquer outros interessados poderão consultar as “anotações de aula” em qualquer tempo e em qualquer lugar. Isso é incrível! Os alunos poderão rever os assuntos estudados de forma mais organizada (como você os organizou!) e você terá suas aulas devidamente documentadas.
  • quando os alunos dispõem de dispositivos móveis, como notebooks, é possível também compartilhar as lousas diretamente nesses notebooks e vive-versa, ou seja, você pode “conferir a tarefa do aluno” diretamente na sua lousa e ele pode “copiar sua lousa” diretamente para o dispositivo dele.

Não dê aulinhas, dê um show! Sim, é possível! E você não precisa ser um artista mais artista do que já é quando tenta prender a atenção de alunos “elétricos e desatentos”. Basta um pouco de “tempero” nas aulas.

Faça seu show
Faça seu show! O professor é o artista.

  • use e abuse dos recursos gráficos. Ao invés de esquemas confusos, use mapas mentais (há softwares que ajudam nisso); ao invés de desenhar gráficos sofríveis, faça-os em um software próprio e os leve prontos (ou construa em tempo real, junto com os alunos).
  • inclua imagens (fotos, ilustrações, etc.) nas suas aulas. Quando for falar de um personagem histórico, apresente rapidamente sua foto e um trecho da sua biografia (que pode ser encontrado facilmente na internet) e forneça o link para os alunos encontrarem o recurso. É bastante provável que sua lousa digital esteja conectada à internet e, assim, você poderá usar seus recursos diretamente a partir da lousa.
  • use trechos de filmes, clipes e trechos de músicas. Lembre-se que você pode incluir qualquer recurso da internet na sua “aula digital”. O YouTube e outras fontes (muitas!) podem proporcionar imensas possibilidades de enriquecimento para praticamente qualquer conteúdo, competência ou habilidade que você esteja trabalhando com os alunos.
  • se sua escola não tem um laboratório de ciências, ou o laboratório não possui muitos recursos, use softwares e simuladores que permitam fazer as experiências “virtualmente”. Isso amplia muito as possibilidades do uso de experimentação para a compreensão de conceitos e fenômenos, além de reduzir bastante o custo dessas atividades.

Deixe os alunos trabalharem! Tem um ditado que diz que “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza!“. Não se prenda à lousa (digital ou à lousa com giz), deixe os alunos trabalharem individualmente e em grupos, inclusive na lousa.

  • não é porque você tem agora uma lousa digital que ela precisa ser usado o tempo todo. A lousa digital é muito legal, mas a interação humana ainda é muito melhor. Use a lousa com responsabilidade, criatividade e inteligência.
  • quando planejar sua aula, pense como o diretor de um filme de sucesso ou de uma peça teatral onde a platéia também interaja. Faça um bom roteiro, quebre a monotonia, intercale suas ações com o trabalho dos alunos. Não monopolize o cenário e nem o uso da lousa.

Tudo bem, mas por onde eu começo?

Por onde eu começo?
Nunca é tarde para começar.

Bom, “comece pelo começo”: você já é um Professor Digital? Se não for, não tem problema, mas tenha em mente que será preciso se tornar um deles.

Tenho algumas sugestões que poderão ajudá-lo a se tornar um Professor Digital e, consequentemente, lhe permitirão um bom uso das lousas digitais interativas. Elas podem não ser as melhores sugestões do mundo, e nem todas podem ser adequadas para você, mas, se é para começar de algum ponto, experimente essas dicas:

  • comece a usar o computador de forma regular para digitar textos, fazer gráficos, navegar na internet, trocar e-mails com colegas e parentes, participar de grupos de discussão e redes sociais, ler revistas e jornais, enfim, para atividades que fazem parte do seu dia a dia.
  • visite blogs de outros professores e veja o que eles estão fazendo, como usam a internet, que sugestões e dicas eles dão para seus leitores, etc. Visite também sites ligados à Educação (da sua rede escolar, do seu município, do seu estado, do governo federal, de outros países) e procure por textos que falem sobre o uso pedagógico das TIC.
  • entre na web 2.0; descubra ferramentas/sites de compartilhamento (de textos, fotos, filmes, planos de aula, etc.). Descubra o Google, o YouTube, o Facebook, o Twitter, o MySpaces, o Skype, etc., etc. E se você não sabe do que estou falando, comece a digitar esses nomes na busca do Google, por exemplo, e descubra do que se trata.
  • entenda que os computadores e a internet são seus aliados.  Pergunte-se porque os alunos gostam tanto de computadores e da internet e eles lhe dirão que “é muito divertido”. Sim, é mesmo! Aprenda a se divertir também! Não se preocupe em se tornar “imediatamente” um Professor Digital, comece se tornando um “usuário digital”.
  • procure um “mentor” para lhe ajudar nos primeiros passos. Você tem muitos amigos que sabem usar computadores e a internet. Talvez tenha filhos e eles certamente sabem! Mesmo na sua escola haverá outros professores que já sabem lidar com as TIC e poderão lhe ajudar tirando dúvidas, dando sugestões e, principalmente, lhe mostrando que a tecnologia é divertida, fácil de lidar e, além disso, poderá vir a ser uma ferramenta incrível na sua profissão.
  • não espere se sentir um expert em tecnologia e computadores para, só então, experimentar a lousa digital. Use-a como parte das ferramentas de aprendizagem. Ninguém sabe tudo e, na verdade, nós todos sabemos cada vez menos. Tecnologia se aprende usando.
  • a escola também é um lugar para o professor aprender. Para ser professor hoje em dia é preciso ser um eterno aprendiz. Não podemos mais parar de aprender ou nos recusarmos a continuar aprendendo. É isso que ensinamos aos nossos alunos e é isso que precisamos fazer também.
  • não desanime quando as coisas parecerem não dar certo. Lembre-se de suas próprias aulas: quase sempre elas não dão certo para todos os alunos. É errando que se aprende. Se você se recusar a levantar logo depois dos primeiros tombos nunca vai aprender a caminhar “em pé”. Faça com você mesmo aquilo que você gostaria que seus alunos fizessem para aprender mais em suas aulas.
  • não tenha vergonha de aprender com seus alunos. É muito provável que eles sejam usuários mais proficientes das novas tecnologias em geral e, possivelmente, da própria lousa digital, do que você mesmo. Eles não tem o seu medo de errar e gostam de tentar até acertar. Peça ajuda a eles sempre que precisar. Trabalhe em conjunto com eles. Deixe que eles lhe ensinem o que sabem. Eles vão amar e você vai descobrir que nessa jornada pelas TIC há atalhos que só eles conhecem.
  • concentre sua energia e seus esforços para preparar e executar boas aulas. A lousa digital e as demais tecnologias disponíveis serão naturalmente incorporadas na sua prática na medida em que ela mesma for se modificando. Isso não é imediato, mas é um movimento natural de aprendizagem. Você, professor, tem poder de ver mais longe. Use a tecnologia como uma luneta para seus próprios projetos de inovação.

Conclusão

As lousas digitais estão chegando e provavelmente você se verá diante de uma delas um dia desses. Não fuja! Encare porque o bicho é manso.

Coelho digital
O coelho está aprendendo que é um mamífero lagomorfo da família dos leporídeos (graças a ajuda da Wikipédia). Coisa difícil de se fazer sem uma lousa digital. 🙂

Depois de algum tempo inserido no mundo das TIC e, tendo usado uma lousa digital interativa, é bem provável que você fique tentado a repetir uma frase que eu tenho ouvido de vários professores ao longo de anos de formações que já dei em oficinas de uso das TIC: “Puxa, como eu pude viver tanto tempo sem ter usado isso?!”.

Boa jornada!

Referências e sugestões na internet:

  • DOSTÁL, Jirí. Reflections on the Use of Interactive Whiteboards in Instruction in International Context. The New Educational Review. 2011. Vol. 25. No. 3. p. 205 – 220. ISSN 1732-6729. Disponível em: <http://goo.gl/30kc6>. Acesso em: 12/07/2012. – Artigo interessante do prof. Jiri Dostál, da República do Cazaquistão.
  • The Interactive Whiteboards, Pedagogy and Pupil Performance Evaluation: An Evaluation of the Schools Whiteboard Expansion (SWE) Project: London Challenge. Disponível em: <http://goo.gl/gg6dt>. Acesso em: 12/07/2012. – Pesquisa da School of Educational Foundations and Policy Studies, Institute of Education, University of London.
  • Para saber um pouco mais sobre o que é e como funciona a lousa digital, consulte esse artigo da Wikipédia (em português) ou esse outro (em inglês e com mais referências).
  • O uso pedagógico da lousa digital associado a teoria dos estilos de aprendizagem. Revista Estilos de Aprendizaje, nº4, Vol 4 octubre de 2009.Disponível em: <http://goo.gl/oPf0b>. Acesso em: 12/07/2012. – Nesse artigo a lousa digital e tratada como um instrumento tecnológico interativo, que possibilita a elaboração de atividades pedagógicas, associadas à Teoria dos Estilos de Aprendizagem.
  • 13 mitos sobre a lousa digital. Muito bom para quem tem dúvidas sobre o funcionamento da lousa digital.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. A Lousa Digital Interativa chegou! E agora?, Professor Digital, SBO, 01 ago. 2012. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2012/08/01/a-lousa-digital-interativa-chegou-e-agora/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].