Alivie o peso da sua consciência e da mochila do seu aluno com tecnologia


Já há algum tempo eles deixaram de ser meros telefones ou brinquedinhos. Está na hora de começar a levá-los mais a sério: os mobiles já estão na sua sala de aula, mesmo que escondidinhos, e não vão mais sair de lá!

Tablets e Smartphones
Tablets e Smartphones: eles podem ajudar a melhorar a qualidade de vida de alunos e professores

Um dos grandes problemas das escolas jurássicas é a estreiteza de visão de gestores e educadores sobre o impacto e a extensão da aplicação de novas tecnologias no processo educacional.

Já estamos todos cansados de repetir e concordar que nosso modelo escolar é ruim e precisa ser reinventado (só tapar o sol com a peneira já não dá mais). Já há um consenso muito bem estabelecido de que as novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) têm um papel fundamental nessa reconstrução. Porém, os falsos paradigmas da escola jurássica e o apego quase nostálgico a práticas e hábitos ultrapassados ainda sobrevivem e impedem que gestores e educadores promovam mudanças.

Em outros artigos [1][2][3] já discuti extensivamente o uso pedagógico dos mobiles (smartphones, tablets, minitablets, etc.) como meios de transformar a maneira como se ensina e propiciar novas formas de aprendizagem, de forma que o ensino se aproxime mais da dinâmica como o aluno aprende atualmente. Porém, há muito mais que podemos fazer pelos nossos alunos, e por nós mesmos, ao incorporar as novas tecnologias em nossa prática de ensino.

O uso das TDIC causa impacto dentro e fora da sala de aula e abrange algumas questões que raramente nos chamam a atenção, mas que se relacionam diretamente com as nossas práticas em sala de aula e na escola de maneira mais geral. Essas questões que, aparentemente, extrapolam o universo da sala de aula, são igualmente fundamentais se pretendemos uma escola feita para alunos e não apenas para professores e gestores terem um local para trabalhar.

Nesse artigo eu volto ao tema dos móbiles, mas com um enfoque que extrapola a prática de sala de aula para abarcar também a qualidade de vida dos nossos alunos. Como não poderia deixar de ser, retomo também o uso pedagógico dos móbiles e tento apontar alguns caminhos possíveis que eu mesmo e muitos outros estamos tentando trilhar.

A primeira proposta é simples: vamos rever o material escolar de nossos alunos e aliviar o peso de suas mochilas?

A segunda é mais complexa: vamos refletir sobre nossa capacidade de aplicar a nós mesmos as teorias que aprendemos na faculdade (Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, etc. etc) e tentar uma ação concreta?

Mochilas escolares, dores e problemas posturais

Mochila escolar
A mochila escolar não pode pesar mais do que 10% do peso da criança.

Diversos estudos já mostraram que as mochilas escolares podem causar problemas posturais e quadros de dores nos ombros, costas e outras partes do corpo sensíveis a sobrecarga de peso transportado.

Segundo esses estudos a carga máxima que uma criança deveria transportar em sua mochila não deve ultrapassar 10% de seu peso. A conta é simples:

Carga máxima = 100 x (peso da mochila)/(peso da criança)

Se o resultado dessa conta for maior do que 10 isso quer dizer que a criança está transportando um peso excessivo e, provavelmente, terá problemas de saúde como consequência.

Há várias maneiras de tentar contornar o problema do sobrepeso das mochilas. Algumas são indicadas no final do artigo, nas referências de pesquisa na internet. Porém, a maneira mais simples de resolver o problema é simplesmente reduzir a quantidade de itens transportados.

Mas, que itens são transportados em uma típica mochila de criança do ensino fundamental ou médio? Vamos listar alguns:

  • livros: livros didáticos e apostilas, livros de literatura, gibis, revistas, dicionários de português e outras línguas, etc.
  • cadernos: caderno de várias disciplinas, cadernos de caligrafia, caderno de desenho, agenda.
  • materiais de apoio à escrita: lápis, caneta, lápis e canetas para desenhar e pintar, borracha, corretivo, régua e outros apetrechos de desenho, estojo para armazenar.
  • materiais variados: relógio, adesivos, tesouras, brinquedos, chaveiros, instrumentos musicais, calculadora, jogos, etc.

Se olharmos com atenção veremos que as mochilas são mini-papelarias ambulantes e mesmo retirando delas todos os itens supérfluos ainda restarão muitos itens pesados, sendo que, geralmente, estes são os mais importantes.

Estudos também mostram que o peso das mochilas aumenta conforme a idade e a série escolar de forma desproporcional ao aumento de peso das crianças. Nas séries finais no Ensino Fundamental as mochilas pesam bem mais porque os alunos transportam mais cadernos, dicionários e livros de diversas disciplinas.

Proposta 1: Aliviando o peso da mochila com tecnologia

Enquanto alguns professores ainda gritam desesperados para seus alunos desligarem seus smartphones e tablets e pegarem seus livros e cadernos, porque simplesmente não pedem que os alunos abram seus livros e cadernos no smartphone ou no tablet?

  • Em um único tablet, com pouco mais de meio quilograma, é possível armazenar todos os livros didáticos que o aluno utilizará, todos os dicionários que precisar, todas as enciclopédias sugeridas para consulta, tradutores, agendas, e milhares de outros materiais “escritos” para consulta.
  • Os tablets possuem aplicativos para produção de texto formatado, planilhas, gráficos, figuras, apresentações, ferramentas de desenho, ferramentas de escrita caligráfica, corretores ortográficos, etc. etc.
  • Com um tablet não há necessidade de dezenas de lápis coloridos, borrachas, tesouras, canetas, calculadoras, relógios, corretivos líquidos, réguas, compassos, etc. etc.
  • De brinde os tablets ainda levam em si máquinas fotográficas, filmadoras, aparelhos de som, televisores, calculadoras, cronômetros, jogos e aplicativos para todo tipo de coisa que se queira.
  • Com os tablets é possível fazer experiências sem ter laboratório na escola, simular situações que seriam impossíveis ou extremamente difíceis no mundo real, consultar professores virtuais, interagir com alunos de outras classes e escolas, etc. etc. É uma lista interminável!

Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que quase tudo que um aluno carrega em sua mochila pode ser colocado em um tablet ou mesmo em um smartphone (com algumas restrições devido ao tamanho da tela) com uma redução de peso e de volume absurdamente grande.

E o mais impressionante nisso tudo, e razão pela qual eu afirmo que os falsos paradigmas ainda sobrevivem na escola e nos atrasam cada vez mais, é que em muitas mochilas já encontramos um item muito bem escondidinho, porque é odiado por professores e gestores, mas muito importante: o tablet ou o smartphone!

Não adianta fingir: sua consciência anda abalada por causa das TDIC

Oras, convenhamos, se não fôssemos educadores diplomados e cultos, portanto inteligentes e sempre abertos às novas idéias, alguém que nos visse proibindo os alunos de usarem seus tablets na sala de aula nos acharia “um tanto desprovidos de bom senso” (para ser bem sutil).

Porque gestores e professores resistem de forma quase ingênua, para não dizer tola, à incorporação dessas tecnologias de forma natural em suas salas de aula? Porque querem que os alunos copiem suas lousas à mão e no caderno se eles podem simplesmente fotografá-las? Porque os alunos precisam levar livros pesados se esses livros e muitos outros poderiam estar digitalizados de maneira a não ocupar nenhum espaço e nem ter peso algum? Porque o aluno tem que escrever sobre uma folha de papel em seu caderno (parte de um cadáver de uma pobre árvore derrubada para essa finalidade) se eles podem escrever e desenhar da mesma forma, ou melhor ainda, sobre uma tela digital?

Fotografando a lousa
Fotografar a lousa é uma forma inteligente de copiá-la.

Há tantos porquês de difícil resposta nessa questão que é mais fácil refletirmos sobre o conjunto deles todos: Será que não estamos teimando em continuar na idade da pedra lascada sem nenhuma razão evidente que justifique isso? Porque nos apegamos tanto a paradigmas, práticas e idéias completamente obsoletas? Como podemos dormir em paz sabendo, lá no fundo de nossa consciência, que estamos agindo errado e de forma proposital?

Já está mais do que claro que além do usos pedagógicos que potencializam o ensino e a aprendizagem, os tablets e smartphones são escolhas saudáveis e inteligentes para substituírem uma infinidade de itens que de fato não precisamos mais ter dentro da mochila.

Porém, os tablets e smartphones também provém recursos para que não precisemos mais de uma série de práticas pedagógicas que também já não cabem mais em nossas salas de aula: nossa mochila pedagógica está cheia de entulho!

Aliás, porque ainda temos “salas” de aula e grades nas portas e janelas? Porque nossos alunos precisam ficar sentadinhos enfileirados como militares ou prisioneiros em formação? Porque temos horários rígidos e campainhas que nos empuram daqui para ali, como nas fábricas ou nas prisões? Porque a escola parece uma indústria-prisional de lavagem cerebral se ela se destina a gerar cidadãos livres e libertários, criativos e conscientes? São tantos porquês…

Proposta 2: Aliviando o peso da sua consciência com tecnologia

Proponho, além da reflexão sobre esses “porquês inexplicáveis”, uma ação concreta que nos permita passar de elementos passivos ou observadores críticos para atores criativos: vamos “chutar o balde”? Mesmo que você acredite (e não saiba racionalmente porque acredita) que o uso de tablets e smartphones é mais prejudicial do que benéfico, aceite o desafio de usá-los por dois meses (um bimestre!).

Combine com seus alunos que tragam para a aula seus smartphones, tablets, netbooks e notebooks e comece a propor que eles sejam usados em atividades rotineiras da aula como: copiar a lousa, escrever textos, pesquisar palavras em dicionários, assuntos em enciclopédias ou na internet, etc. Explore as possibilidades!

No princípio você estará bastante inseguro sobre “onde isso vai nos levar”. Afinal, é algo novo, e sempre nos sentimos inseguros diante de coisas que não dominamos, não conhecemos profundamente e nem somos capazes de controlar de forma absoluta (Ei, espere aí, a vida toda é assim, não é?).

Claro que para “chutar o balde” e passar de elemento passivo ou observador crítico para ator criativo, é preciso antes ter uma boa conversa com os gestores, os pais e os alunos. Afinal, somos educadores e não vamos propor que os alunos “tragam um novo brinquedo para a sala de aula”, mas sim que passemos a usar novas ferramentas para potencializar a aprendizagem e promover mudanças comportamentais importantes (para a aprendizagem, para a saúde, para a cidadania em um mundo moderno e tecnológico e para nosso próprio benefício, na medida que podemos desenvolver aulas mais produtivas e obter melhores resultados com menores esforços).

Também não pense que tudo sairá como planejado inicialmente, pois um dos novos paradigmas com os quais você terá que ir se acostumando é que nesse novo mundo, em constante e rápida transformação, todos os processos são dinâmicos e pouco controláveis, requerendo ajustes constantes e uma atenção contínua ao desenvolvimento.

Nem pense em contar com a adesão de todos à sua volta, pois o diferente ainda é visto como “estranho e perigoso”. Muitos colegas dirão que você está “conturbando a escola” (e estará mesmo!), que isso dificulta o trabalho deles (bobagem!) e, principalmente, que você perderá o controle (o que seria verdade se realmente alguém tivesse o “controle” nos dias de hoje).

Muitos alunos podem não ter esses recursos, então você também não poderá migrar 100% de sua prática para esse novo modelo. Mas também não é esse o objetivo aqui. O objetivo é iniciar agora mesmo, na sua escola e nas suas classes, uma mudança que já está em andamento em todo lugar e que não será freada por esforços retrógrados: a incorporação natural das novas tecnologias nas práticas de ensino e o desenvolvimento de novas práticas baseadas em um novo estilo de aprendizagem e comportamento manifestado pelas gerações de nativos-digitais.

Se o desafio lhe parecer “impossível ou muito improvável”, tenha em mente que já existem professores fazendo isso em salas de aula reais no mundo todo e, inclusive, no Brasil (ok, eu também sou um deles) e, segundo relato deles mesmos, tem dado certo! Todos os problemas e dificuldades listados acima podem ser contornados ou superados.

Se aceitar o desafio não se esqueça de

  • planejar antes de executar qualquer atividade e, durante a atividade, esteja preparado para lidar com todo tipo de imprevisto. Portanto, tenha na manga um plano B, C, D e uma boa dose de paciência e persistência;
  • sonhe alto, mas caminhe devagar e dê um passo de cada vez. As grandes obras se constroem lentamente. Na sala de aula as conquistas são incrementais, ocorrem aos poucos, nem sempre com todos ao mesmo tempo e, por fim, nem sempre terminam onde planejamos no início;
  • seja muito persistente; acredite de verdade que está construindo algo melhor do que já temos;
  • observe tudo atentamente e analise em tempo real as ações, comportamentos e mudanças na sua própria prática e na prática do aluno. Procure localizar as mudanças que planejou, mas tenha olhos para ver outras mudanças não planejadas que ocorrerão;
  • coloque-se no lugar do seu aluno. Mude seu ponto de vista. Tente aprender com eles as melhores maneiras de usar as ferramentas tecnológicas para atingir de forma mais eficiente os objetivos que você tem como professor;
  • procure outras pessoas que estão tentando usar os mobiles em sala de aula; a rede está cheia delas. Procure “aliados” na própria escola. Compartilhe, interaja e se insira na rede mundial, nos grupos de discussão, nas comunidades virtuais;
  • no final desse “bimestre experimental”, reavalie com seus alunos a possibilidade de continuar tentando inovar no próximo bimestre, e no próximo ano, e pelo resto da sua vida.

Se depois desse bimestre você concluir que não valeu a pena e resolver desistir (não recomendo mesmo!), tranquilize-se, pois pelo menos você terá saído de sua zona de conforto, terá sentido um desequilíbrio cognitivo que o levará a explorar sua zona de desenvolvimento proximal, terá desenvolvido novas habilidades em direção à aquisição de novas competências e, para todos os fins, terá exercitado na prática o novo paradigma de aprender a aprender.

Se resolver continuar adiante, terá aprendido que aprender sempre e aprender com novas tecnologias é divertido e desafiador e, por isso mesmo, os alunos também preferem aprender assim. Além disso, quando os mobiles, enfim, deixarem de ser vistos como vilões e passarem a ser vistos como essenciais na Educação, você já estará pronto para desenvolver novas metodologias para as próximas tecnologias que estarão surgindo, e não mais como agora, na incômoda situação de ter que lidar com algo que desconhece por completo, que nunca experimentou e, mesmo sabendo que é bom, não gosta (parece criança que não quer comer brócolis, não?).

Acredito que após dois meses persistindo no uso dos mobiles você poderá ter conseguido:

  • alunos mais produtivos, que agora terão mais tempo para se dedicar ao aprendizado e às suas explicações do que à tarefas ridiculamente ultrapassadas como “fazer cópias de lousa”;
  • criar uma rotina de uso em que o aluno (e você mesmo) passe a ver o tablet ou smartphone como uma ferramenta de trabalho escolar tão banal quanto o antiquíssimo caderno, porém mais divertida e funcional;
  • um menor nível de “indisciplina”, “desatenção” e “desinteresse” nas aulas pois, aquilo que é proibido e raro (como o uso atual dos smartphones e tablets na sala de aula) é muito atrativo e dispersivo, mas o uso regular desses aparelhos acaba retirando deles o “gosto pelo pecado” e os torna apenas materiais didáticos usuais, porém, mais divertidos e inteligentes;
  • criar novas dinâmicas de aula que incluam o uso da internet e de recursos de multimídia e computacionais como ferramentas banais, mas que podem tornar suas aulas mais completas e interessantes;
  • reduzir significativamente o peso e o volume de materiais didáticos e de apoio que os alunos trazem para a escola em suas mochilas e, com isso, estará também contribuindo para a saúde deles. E procure perceber que você também acabará reduzindo o peso que carrega na bolsa e na consciência;
  • criar em si mesmo e nos alunos a expectativa de que muito mais pode ser feito, muito mais há para se saber sobre essa nova forma de ensinar e aprender e, por fim, terá plantado uma sementinha onde antes havia apenas poeira velha e repisada de paradigmas capengas.

Bom, então, divirta-se!

Referências e sugestões na Internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Alivie o peso da sua consciência e da mochila do seu aluno com tecnologia, Professor Digital, SBO, 15 ago. 2012. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2012/08/15/alivie-o-peso-da-sua-consciencia-e-da-mochila-do-seu-aluno-com-tecnologia>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

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TICs, telefones celulares e a escolassaura


Jurássico e tecnológico
Qual dos dois você acha que representa a escola?

A escola é, talvez, a instituição mais jurássica de todos os tempos (por que vivo repetindo isso?). Embora ela tenha o compromisso de educar a geração atual para um mundo futurista que nem nasceu ainda, e nem sabemos como será, ela mesma ainda vive na pré-história em diversos sentidos e não tem o menor desejo de “evoluir”, pelo menos o suficiente para chegar perto dos tempos atuais. Mas antes de concordar com isso, pense bem, caro leitor amigo: a escola não se encerra nos limites de seus próprios muros, ela se estende por toda a sociedade, e você, caríssimo leitor, também é responsável por essa escola jurássica e suas idiossincrasias.

Enquanto escrevo esse artigo, tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei 2806/2011. Esse projeto é uma “extensão” de um projeto anterior que proibia o uso de telefones celulares em todo o país e, agora, “modernizado”, o projeto prevê a proibição de qualquer aparelho eletrônico portátil em todas as escolas e em todos os níveis de ensino, do infantil ao superior.

No Estado de São Paulo, na cidade do Rio de Janeiro, no Ceará e em Rondônia (e talvez também em outros estados e municípios, pois as más idéias se espalham rápido) já há leis específicas proibindo o uso de telefones celulares e outros aparelhos eletrônicos pelos alunos.

Ao invés de entrar em uma polêmica tola sobre “se devemos permitir ou proibir o uso de celulares, games e outros brinquedinhos eletrônicos em sala de aula”, eu lhes pergunto algo bastante simples e objetivo: em que momento algum professor, alguma escola, algum pai de aluno ou algum governo defendeu ou defenderá que os alunos devam ir à escola apenas para jogar videogame, assistir vídeos no Youtube, bater papo no MSN ou fotografar o professor tirando caca do nariz para depois publicar no seu fotolog?

A mim, e espero que a você também, parece evidente que a escola não é apropriada para esse tipo de “diversão”, assim como não esperamos o mesmo comportamento em uma missa ou em um enterro (olha, eu juro que tentei comparar com outras situações, mas a escola está mais para missa e enterro do que para festa de casamento).

Por outro lado, faça um esforço e tente se lembrar de sua infância… Agora pense: se quando você era criança e estava na escola você tivesse um telefone celular onde pudesse jogar videogame, fazer filmes sacanas do professor ou dos colegas, trocar mensagens e fofocas instantâneas, ouvir música, etc., etc., será que você não o faria?

Eu não posso responder por você, mas posso responder por mim mesmo. Eu faria sim, às vezes. E sei que seria punido por fazê-lo (mas mesmo assim faria!). Hoje eu não faço mais, mas hoje eu sou adulto e, como agravante, sou professor, tenho sempre que dar exemplo de “bom comportamento” e, a bem da verdade, de qualquer forma essas coisas já não me interessam mais.

Pois bem, o mundo mudou, a tecnologia se espalhou por todas as partes, as possibilidades são imensas mas, mas, mas… As crianças e adolescentes de hoje continuam sendo crianças e adolescentes como nós mesmos fomos um dia! A tecnologia só lhes fornece novos meios de fazerem suas traquinagens, e eles as farão até que se tornem adultos e, talvez, acabem como pessoas “xaropes” como eu e você.

Alguns adultos parecem que se esqueceram que já foram crianças e agora não entendem mais nada sobre a infância e a adolescência. Esses adultos acreditam que publicando leis poderão mudar a estrutura neurológica, os hormônios e a psicologia das crianças e dos adolescentes. Isso é tão ridículo que parece traquinagem de adolescente que possui um brinquedinho novo de “assinar leis”.

Fato: mais da metade das crianças entre 7 e 9 anos de idade possui um telefone celular. Quase metade dessas crianças não recebe nenhuma orientação de uso desse brinquedinho tecnológico por parte de seus pais ou de seus professores!

Pergunta: se crianças e adolescentes possuem celulares (que ganham dos pais!) e não possuem orientação alguma, nem da família nem da escola, sobre como utilizá-los em diversos ambientes e situações e, além de tudo, são crianças e adolescentes e não adultos xaropes, como se pode esperar deles que não levem seus brinquedinhos à escola e, estando lá, não brinquem com eles?

Smartphone Optimus Black
Eles são úteis aos alunos e aos professores

Em outro artigo publicado nesse blog, Uso pedagógico do telefone móvel (Celular), eu já tratei de diversas possibilidades de fazer um uso adequado desses aparelhinhos em sala de aula, então agora só quero compartilhar algumas experiências que talvez possam ser úteis para que professores possam conviver melhor com esses “monstrinhos divertidos” ao invés de apostarem em leis caducas que não serão cumpridas e entrarão para a história como a lei de Jânio Quadros que proibia o uso do biquini nos concursos de miss (pode rir agora, mas à época também havia polêmica e defensores da proibição).

Você não precisa de novas leis

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) estabelece os direitos e deveres de todos os agentes envolvidos no processo Educacional. Estados e municípios também possuem legislações próprias garantindo direitos e deveres desses agentes.

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) reforça a garantia à todos os alunos do direito à aprendizagem e, portanto, confere aos professores o dever de garantir esse direito em suas salas de aula.

Toda escola tem um regimento escolar interno que já estabelece direitos e deveres para alunos e professores.

Todo professor pode e deve estabelecer um regimento de conduta em suas aulas (o que chamamos vulgarmente de “combinados”) com os alunos.

Isto posto, fica claro que nenhum aluno pode, à revelia de todos os “combinados”, regimentos e leis, fazer o que bem entende na sala de aula, e isso inclui qualquer atividade que coloque em risco sua própria aprendizagem ou a aprendizagem dos seus colegas. Obviamente que aí se inclui qualquer brincadeira ou distração que não faça parte das atividades pedagógicas propostas pelo professor, quer seja ela feita com “brinquedos eletrônicos”, quer seja feita com brinquedos não eletrônicos (como jogar futebol dentro da sala, jogar baralho no fundão, andar de skate, etc.).

O que é fundamental aqui é que o professor esclareça seus alunos sobre seus direitos e, consequentemente, deixe claro as regras a que todos estarão submetidos para que se possa ter um ambiente saudável de aprendizagem onde esses direitos sejam respeitados por todos.

Não é óbvio para os alunos que eles têm que ter seu direito à aprendizagem garantido pelo professor e que, por causa disso, é o professor que pode e deve estabelecer quais usos são admitidos ou não para qualquer aparelho, objeto ou material presente na sala de aula.

No caso específico dos telefones celulares o professor deve deixar claro as situações em que esse aparelho será útil e aquelas onde ele deverá permanecer desligado.

É evidente que nem sempre os alunos seguirão as regras (Lembra-se? Eles são crianças e adolescentes e não adultos xaropes!) e toda vez que algum deles fizer uma transgressão ele deverá sofrer uma sanção proporcional à sua transgressão. Aqui é fundamental ter bom-senso e entender que ocorrerão várias transgressões, que será preciso ter paciência e compreender com naturalidade a natureza dessas transgressões e, por fim, que a autoridade do professor não pode ser abandonada em momento algum, da mesma forma que não pode ser transformada em autoritarismo. É preciso educar o aluno para o bom uso do celular e não brigar com ele quando ocorre um mau uso.

Minha experiência com o uso de telefones celulares em classe

A quase totalidade dos meus alunos possui telefones celulares e uma porcentagem considerável possui smartphones.

Em minhas aulas os alunos podem e devem trazer o telefone celular e usá-los dentro dos limites e regras que são discutidos, explicados e acordados logo no início do ano. Eu optei por permitir e estimular o uso pedagógico dos telefones celulares nas minhas aulas pelos seguintes motivos:

  • A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, para qual trabalho como professor, não possui condições para prover a escola de recursos materiais em quantidade suficiente para atender todos os meus alunos e, em contrapartida, a quase totalidade deles dispõe dos seguintes recursos próprios em seus telefones celulares:
    • calculadora;
    • agenda eletrônica;
    • bloco de anotações;
    • câmera fotográfica digital;
    • filmadora digital;
    • gravador de áudio digital;
    • acesso à internet;
    • dispositivo digital de reprodução multimídia (sons, imagens, filmes e animações);
  • Eu tenho um compromisso com a qualidade do ensino oferecido aos meus alunos que não me permite abrir mão de todos esses recursos oferecidos pelos telefones celulares;
  • O uso dos telefones celulares pelos meus alunos favorece sua aprendizagem permitindo práticas, dinâmicas e atividades que seriam inviáveis sem eles. Além disso, o uso dos celulares melhora a produtividade da aula permitindo ganhos de tempo e qualidade da aprendizagem;
  • Entendo que é parte do meu ofício como professor orientar meus alunos quanto aos bons usos do telefone celular de maneira a permitir-lhes que exercitem esse bom uso em atividades escolares cotidianas para que, por extensão, também o façam fora dos limites da escola (no seu trabalho, na sua casa e em diferentes meios de convívio). E eu não poderia fazer isso de forma efetiva sem que eles usassem os telefones celulares em minhas aulas.

Meus alunos usam telefones celulares regularmente para:

  • fazer contas usando a calculadora;
  • agendar tarefas e provas na agenda do celular;
  • fotografar as minha lousas (eu sugiro esse método, ao invés da cópia da lousa no caderno, porque são alunos do Ensino Médio, porque isso garante maior fidelidade da informação, porque isso é uma atividade sustentável que evita o uso de papel e porque o celular permite armazenar as lousas do ano todo em parte insignificante de sua memória). Eu mesmo fotografo minhas lousas para ter o registro exato do que foi trabalhado em cada classe;
  • fotografar materiais didáticos indisponíveis para toda a classe, como páginas de um dado livro que a escola não dispõe para a classe toda;
  • registrar por meio de filmes e imagens as atividades práticas no laboratório ou fora da sala de aula;
  • desenvolver atividades no laboratório ou fora da sala de aula usando recursos de multimídia e outros disponíveis no celular (áudios/entrevistas, vídeos, imagens, apresentações, calculadora, cronômetro, etc.)
  • pesquisar conteúdos na internet (para os que têm smartphones);
  • usar como fonte de material de consulta em “provas com consulta” (podendo usar o conteúdo da memória do celular ou o obtido via internet ou redes sociais).

Meus alunos não usam o telefone celular em classe para:

  • fazer ou receber ligações na sala de aula (isso eles podem fazer quando saem para ir ao banheiro);
  • jogar videogame, assistir vídeos, ouvir música, participar de redes sociais, navegar pela internet ou fazer qualquer outro uso que não tenha sido explicitamente solicitado por mim como parte de alguma atividade pedagógica;
  • produzir qualquer tipo de material (áudio, imagem, vídeo, etc.) não solicitado explicitamente por mim;
  • participar de redes sociais ou manter comunicações com outras pessoas, exceto quando isso faz parte de uma atividade e foi solicitado por mim.

Além disso:

  • Procuro orientar meus alunos sobre o uso seguro dos celulares e da internet de forma geral;
  • Discuto com meus alunos questões envolvendo ética, direitos autorais e violação dos direitos privados dos colegas;
  • Oriento-os a estabelecerem contratos de uso dos celulares com todos os demais professores, esclarecendo que cabe a cada professor determinar a forma como os telefones celulares podem ou não ser usados em suas aulas.

O número de vezes que tenho que intervir para garantir o uso correto dos celulares cai progressivamente ao longo do ano nas classes dos primeiros colegiais e é mínimo nas classes onde os alunos já me conhecem.

Nunca houve nenhum caso de mau uso do celular onde as sanções precisassem passar do nível da advertência verbal e discreta.

Os relatos de experiências de professores com os quais tenho contato em projetos que participo, nas redes sociais e em oficinas de formação onde atuo como formador dão conta de resultados bem parecidos com os meus. Logo, não apenas a “teoria” sobre o uso pedagógico do telefone celular, como também a prática, têm mostrado que é possível, viável e recomendável que ele seja usado cada vez mais em nossas aulas.

Finalmente, aos professores que imaginam que proibir o uso do telefone celular por meio de leis, ou da proibição do aluno levá-lo à escola, poderá ser um meio “mais fácil” de lidar com o problema do seu mau uso, eu deixo aqui uma pergunta bastante razoável: não seria mais “profissional” da parte do professor educar ao invés de proibir?

Referências na internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. TICs, telefones celulares e a escolassaura, Professor Digital, SBO, 30 jan. 2012. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2012/01/30/tics-telefones-celulares-e-a-escolassaura/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Educação, TICs e diversão


Smartphone Optimus Black
Um microcosmos de possibilidades

As novas tecnologias digitais de informação e comunicação, e suas tecnologias associadas, nos tornaram mais preguiçosos, sem a menor dúvida. Veja, por exemplo, o controle remoto. Quem, em sã consciência, o dispensa para levantar da poltrona e ir até a televisão, apertar botões para mudar de canal?

E o que dizer do telefone celular atual, que evoluiu a tal ponto que pode ser usado até mesmo como controle remoto da televisão, ou ainda, incorporar em si mesmo a própria televisão?!

Se olharmos atentamente ao nosso redor veremos que estamos bem mais próximos do mundo dos Jetsons (para quem não sabe do que se trata, veja esse vídeo de 1 minuto: http://youtu.be/rGFTOoU62BA) do que do mundo dos Flintstones (confira aqui: http://youtu.be/2PPf3aaZmUw).

E nem adianta criticar esse “mundo novo” porque na maioria das vezes a crítica acaba sendo hipócrita, como a crítica do professor que condena seus alunos por levarem o telefone celular na escola, mas que não tira o próprio celular da bolsa porque sabe o quanto ele é útil e divertido. Que critica o aluno que não faz tarefas de casa, e ao invés disso fica horas na internet, mas, ele mesmo, não prepara muito aulas e passa horas no Orkut, cuidando de sua “colheita feliz” ou atirando passarinhos contra obstáculos.

Na verdade todos somos usuários das novas tecnologias e nem sempre o fazemos apenas de forma “profissional” ou “madura”. A tecnologia digital é cômoda e divertida. Por isso nos atrai tanto. Por isso nos distrai tanto!

A tecnologia não pode ser encarada como uma espécie de “aberração” em nossas vidas. Ela é uma consequência natural da inteligência e da criatividade humana. Abrir mão da tecnologia não deixa de ser, guardadas as devidas proporções aos mais puristas, abrir mão de nossa própria humanidade. Usá-la bem ou mal também depende muito mais da nossa “humanidade” do que da tecnologia por si mesma.

Diante desse cenário há quem queira parecer desolado, abatido diante das inexoráveis evidências de que o mundo mudou mesmo; mas, também há os hipócritas reacionários, os primitivistas e os deslumbrados. Felizmente, a meu ver, cresce cada vez mais a turma dos positivistas pragmáticos, a qual grosso modo me alinho, que vê na tecnologia possibilidades de um futuro melhor se aprendermos a usá-la de uma forma positiva.

E o que esse blá-blá-blá tem a ver com o contexto da Educação, da escola e dos nossos capengas paradigmas didáticos? Talvez tivesse pouca relação, se a escola fosse uma entidade sobrenatural existente em algum outro universo ou dimensão, porém, não é esse o caso. A escola onde aprendemos e ensinamos (ou não fazemos nem um nem outro) está toda ela embebida nessa tecnologia e, principalmente, nessa preguiçosa práxis tecnológica, exceto nos momentos de hipocrisia ou ingenuidade.

Alunos e professores todos os dias levam telefones celulares para a sala de aula (com ou sem lei que os proíbam). Os filmes, as músicas, os jogos, as relações interpessoais mediadas pelos protocolos da rede (física, lógica e social), estão presentes na escola, nas salas de aula, nos banheiros, nos corredores, nos pátios… Só não estão muito presentes, ainda, na didática dos professores, nos materiais didáticos e nas aulas de prática de ensino das universidades que formam os professores.

E porque será que é tão difícil incorporar na prática pedagógica essas ferramentas que já estão incorporadas no dia a dia de alunos e professores?

Talvez a resposta seja mais objetiva do que simplesmente culpar os bodes expiatórios de sempre: professores despreparados e desmotivados, alunos desinteressados e sem expectativas, governos incompetentes e mal intencionados, etc. A resposta pode estar bem diante dos nossos olhos. Talvez seja a mesma resposta que demos para justificar o desenvolvimento da própria tecnologia: inteligência e criatividade.

Incorporar as TICs nas práticas pedagógicas requer mais que oficinas de capacitação para uso de ferramentas (softwares e equipamentos) ou lavagem pedagogico-cerebral, tentando algum tipo de “convencimento” do professor. Talvez essa incorporação requeira um novo modo de olhar o mundo, novas competências criativas e, infelizmente, talvez isso não esteja ao alcance de todos professores, mas eu não gostaria de ter que tomar isso como premissa. Acho que ninguém gostaria de supor que exista uma “geração perdida de professores” e que, talvez, essa geração seja a nossa.

Vamos exemplificar isso tudo: um dia, talvez inspirado pelas “calçadas rolantes” do Jetsons, alguém inventou a “escada rolante”. Ela é muito útil para mover um número grande de pessoas simultaneamente, para cima ou para baixo, e substitui com grande vantagem as escadas convencionais e mesmo os elevadores. As encontramos em metrôs, shopping centers, grandes lojas, etc.

A escada rolante é um excelente exemplo de uma tecnologia que nos torna preguiçosos, pois embora as escadas convencionais sejam mais saudáveis (para a maioria das pessoas) é muito mais cômodo usar as escadas rolantes. Basta observar o movimento em um metrô, ou num shopping center, para confirmar que a grande maioria das pessoas opta pelas escadas rolantes quando têm a opção de escolher entre elas e as escadas convencionais.

Um professor “convencional”, desmotivado, mau pago e desacreditado, diria que o problema é que as pessoas hoje em dia tem uma péssima educação, não têm motivação para serem saudáveis e tendem sempre à vadiagem, optando assim pela escada rolante. Ele não perderia seu tempo tentando convencer ninguém a usar as escadas comuns ao invés das escadas rolantes, a menos que pudesse de alguma forma “obrigá-las” a isso. Já um professor deslumbrado com a tecnologia diria que as escadas rolantes são mesmo a melhor opção, pois poupam tempo, evitam desgastes nas juntas dos joelhos e ainda permitem que durante o percurso a pessoa fique “parada” e possa acessar o twitter ou o facebook . Ele jamais obrigaria alguém a “voltar no tempo” para fazer um trajeto “mais saudável”.

Assim, nenhum desses dois professores aceitaria a tarefa de fazer com que as pessoas escolhessem, algumas vezes e sempre espontaneamente, a escada convencional. Para ambos isso seria uma bobagem. Se recebessem essa tarefa, fracassariam (e encontrariam culpados facilmente, mesmo tendo argumentos opostos).

O professor que precisamos, no entanto, não é um que seja capaz de desistir diante do primeiro obstáculo, mas sim aquele que não recusaria essa tarefa e que seria capaz de mobilizar seus conhecimentos, sua inteligência e criatividade para executá-la, ainda que ela não seja trivial. Esse professor é o mesmo que consegue ensinar seus alunos a somarem e subtraírem, apesar de todas as dificuldades, com ou sem calculadoras e, acima de tudo, que consegue que seus alunos aprendam sem serem “obrigados”.

Causar essa “mudança de hábito” que pode levar o aluno a “aprender espontaneamente”, ao invés de optar por “não aprender” (que parece ser o caminho mais fácil), é possível e, se você já está impaciente para saber como, veja o vídeo abaixo e depois continue a leitura do texto.

Interessante, não? Tudo bem que isso não acontecerá em todas as escadas do mundo, não é simples e nem barato para se fazer e, ao fim e ao cabo, se a escada rolante for retirada as pessoas também subirão pelas escadas normais a um custo bem inferior. Mas não é isso que está em questão aqui. O que está no foco desse artigo é a “escada conceito” baseada naquilo que os criadores dessa campanha publicitária chamaram de “The fun theory” (Teoria da diversão) e que baseia-se numa premissa aparentemente sólida: é possível mudar o comportamento das pessoas tornando as coisas mais divertidas.

Ninguém mostrado no vídeo teve que ouvir palestras chatas sobre porque subir escadas pode promover uma saúde melhor, ninguém foi obrigado a subir pelas escadas convencionais porque lhe proibiram subir pela outra. Todos podiam optar pela escada rolante, se quisessem, e só não quiseram subir por elas aqueles que acharam “mais divertido subir pela escada piano”.

Em um paralelo com a sala de aula é como se fosse possível construir uma “aula conceito” mais divertida, interessante e instigante, que levasse o aluno a “desejar aprender aquele assunto”, mesmo não entendendo muito bem qual é a importância daquela aprendizagem para sua vida atual ou futura. Um “aula divertida”, nesse contexto, não é apenas uma aula “para se distrair”, mas sim para aprender. Certamente essa aula também não dever ser “fácil de ser criada”, envolve custos (de tempo e esforço, talvez dinheiro) e pode não ser assim em todas as aulas de um curso. Mas que tal pelo menos algumas?

Não é fácil ter uma idéia criativa como essa, mas se você consegue tê-la pode usar a própria tecnologia a seu favor para torná-la possível. Ai, talvez, as TICs tenham um papel decisivo. Também não é fácil para o professor ensinar o aluno a somar e subtrair (se fosse fácil, para que precisaríamos de professores?), mas é possível que alguns professores tenham idéias brilhantes sobre como fazê-lo. E talvez essas idéias sejam mais “inteligentes e criativas” se incorporarem as TICs.

Pode ser mais divertido jogar um videogame com adições e subtrações no telefone celular (aparentemente apenas para se divertir) do que copiar continhas da lousa e fazer no caderno centenas de operações de somar e subtrair, aparentemente também sem nenhuma razão e com o agravante de não ter nenhuma diversão; talvez as somas e subtrações possam ser contextualizadas, mesmo sem muita tecnologia digital; talvez possam estar inseridas em situações-problema do cotidiano do aluno…

Só o professor que não desiste sem antes tentar é que poderá ter a oportunidade de descobrir qual é o melhor caminho para isso fazendo uso de toda tecnologia que dispuser. E fazer bom uso das TICs para ensinar mais e melhor é exatamente o que podemos chamar de um “bom uso pedagógico das TICs”.

O uso pedagógico das TICs pode ser um caminho promissor para tornar o aprendizado escolar algo menos enfadonho e, talvez assim, consiga resgatar em alguns momentos a “diversão de aprender”. Pode não ser fácil encontrar soluções inteligentes e criativas o tempo todo, mas, podemos compartilhar as boas idéias de maneira a construirmos um conhecimento em rede. É a isso que chamamos de Sociedade do Conhecimento (não uma sociedade que conhece tudo, mas uma sociedade que constrói e compartilha conhecimento de forma eficaz por meio de redes sociais  interativas).

Ao professor também cabe construir tecnologia e compartilha-la. Não estamos falando de aparelhinhos tecnológicos, mas sim de tecnologias de ensino que possam tornar o aprendizado mais divertido, interessante, criativo e inteligente. Afinal, há uma boa chance de que um novo ensino, inteligente e criativo, ajude a desenvolver essa nova geração, preguiçosa como a nossa, mas também muito inteligente e criativa, para que a seu tempo ela possa assumir a condução dessa sociedade estranhamente tecnológica onde vivemos hoje.

Que tal começar a projetar a “sua escada”? Uma apenas, que seja. Depois você pode compartilhá-la com outros professores e, quem sabe, outros fazendo a mesma coisa e compartilhando com todos, um dia teremos muitas aulas-escadas por onde possamos elevar a qualidade do nosso ensino.

(*) Esse artigo foi revisto e reeditado em 15/05/2012.

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Educação, TICs e diversão, Professor Digital, SBO, 08 janeiro 2012 – revisto em 15 de maio de 2012. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2012/01/08/educacao-tics-e-diversao/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Uso pedagógico de apresentações de slides digitais


Do projetor de slides ao datashow e ao “ppt”

O velho projetor de slides
O velho projetor de slides

Se você for um professor que nunca viu um mimeografo (hã???), então talvez também não tenha conhecido o fascinante projetor de sides.

O projetor de slides foi, e ainda é, uma tecnologia incrível, capaz de levar imagens de qualidade que enriquecem muito os conteúdos abordados nos livros didáticos e permitem ao professor ilustrar conceitos, apresentar esquemas, pranchas, mapas, etc., de uma forma bem mais prática e agradável do que fazendo uso apenas da lousa e do giz.

As únicas dificuldades de uso do projetor de slides, que eu me lembre, eram preparar os slides (era preciso comprá-los prontos ou pagar para um estúdio fotográfico fazê-los para você) e lembrar qual deveria ser a posição correta para colocá-los de maneira que não fossem projetados invertidos. Também é verdade que a lâmpada do projetor queimava fácilmente e não custava muito barato.

Retroprojetor
Retroprojetor

Projetores de slides são conteporâneos do famoso e esquecido (ou quase) retroprojetor.

Retroprojetores foram bastante usados para projetar em uma tela, ou na própria parede, imagens, textos ou qualquer registro gráfico que pudesse ser impresso em uma transparência.

Ao contrário dos projetores de slides, os retroprojetores permitiam também que o professor fizesse anotações, em tempo real, sobre as transparências.

O retroprojetor também era fácil de usar e não era preciso comprar transparências preparadas, pois podia-se prepará-las usando uma lâmina transparente apropriada e canetinhas coloridas especiais (que hoje usamos para escrever em CDs e DVDs). Assim como o projetor de slides, o retroprojetor também tinha uma lâmpada que vez por outra queimava e sempre custava caro.

Muitas escolas ainda possuem retroprojetores, e algumas ainda conservam o projetor de slides. Mas pouquíssimos professores utilizaram essas TICs em suas práticas pedagógicas cotidianas e desses são raros os que ainda as utilizam.

Datashow
Projetor multimídia e telão

De fato, há boas razões para abandonarmos o projetor de slides e o retroprojetor: agora temos os computadores e os programas geradores de apresentações de slides e, além disso, as apresentações podem ser projetadas com um projetor multimídia (datashow) ou podem ser convertidas para o formato de vídeo e apresentadas em um televisor acoplado a um DVD Player.

Nesse artigo vamos falar um pouco das apresentações de slides digitais e sobre como podemos utilizá-las em nossas práticas pedagógicas.

Por que o professor deveria se interessar por apresentações de slides  digitais (feitas em computador)?

Uma apresentação de slides digital tem muitas utilidades para o professor. Abaixo listamos algumas possibilidades:

  • ela permite a apresentação do resumo de uma aula de forma organizada e pode, portanto, servir de roteiro de estudo para o aluno;
  • é possível apresentar esquemas, desenhos, ilustrações ou qualquer outro tipo de imagem digitalizada;
  • além das imagens, a apresentação de slides digital permite que se agregue som e movimento, ou seja, é possível até mesmo inserir filmes em uma apresentação digital;
  • os diversos recursos de formatação e de criação de efeitos especiais dão à apresentação um aspecto profissional e dinâmico que pode ser bastante didático e agradável para os alunos;
  • as apresentações feitas em computador podem ser armazenadas, modificadas, reaproveitadas, distribuídas e compartilhadas na internet;
  • o custo (em tempo e dinheiro) para produzir apresentações de slides digitais é muito pequeno e o benefício de utilizá-las pode ser bem grande;
  • para produzir uma boa apresentação de slides digital não é preciso nenhum conhecimento sobre computadores além do necessário para produzir um texto formatado em um editor de textos comum;
  • há vários softwares para gerar apresentações digitais que são gratuítos e, na internet, há serviços da web 2.0 que também podem gerá-las, armazená-las e distribuí-las sem nenhum custo;
  • as apresentações de slides são também ferramentas de autoria, tanto para professores quanto para alunos, e são ótimas ferramentas para apresentação de trabalhos escolares;
  • os alunos atuais precisam ter contato com essa tecnologia para se capacitarem melhor para o mundo do trabalho ou para o prosseguimento de seus estudos em níveis superiores, onde as apresentações de slides digitais são muito comuns;
  • já existe uma variedade enorme de objetos educacionais na forma de apresentações de slides digitais disponíveis e compartilhadas na internet, e esse número cresce a cada dia;
  • apresentações podem ser usadas em aula, em reuniões de pais, em conselhos de classe e em eventos da escola.

Aula com apresentação de slides digital
Um exemplo simples de “resumo” para apoiar uma aula de física.

Além dessas possibilidades, ainda há muito espaço para a criatividade de professores e alunos que poderão descobrir muitas outras possibilidades. Se você conhece alguma outra possibilidade de uso pedagógico das apresentações de slides digitais, envie como sugestão nos “comentários” deste artigo. Aproveite e comente sobre sua experiência com o uso desse recurso.

Requisitos pedagógicos para uma boa apresentação de slides digital

Quer você produza suas próprias apresentações, quer você as obtenha na internet, antes de usá-las é bom saber que:

  1. Uma apresentação de slides digital com fins educacionais precisa ter “conteúdo” e esse conteúdo precisa ter qualidade. É imprescindível que os conceitos e as informações apresentadas sejam corretas, estejam atualizadas e sejam apresentadas em uma linguagem clara, objetiva, precisa e concisa;
  2. A apresentação deve ter o papel de guia e ser acompanhada de uma discussão e de uma reflexão sobre os assuntos tratados. Uma apresentação não pode se esgotar em si mesma ou ser vista como uma “página de conteúdo do livro didático”. Apresentações são resumos de idéias organizados de forma didática;
  3. Para que uma apresentação de slides digital possa substituir com vantagens um resumo escrito em lousa, é preciso que ela incorpore elementos que dificilmente poderiam ser apresentados em lousa, como sons e imagens, por exemplo;
  4. O tempo de apresentação dos slides e a quantidade de conceitos e informações apresentadas, bem como o tamanho total da apresentação, devem ser dimensionados de maneira que se possa tratá-los dentro do espaço da aula, sem criar descontinuidades e sem exigir um número excessivo de aprendizagens;
  5. A apresentação não substitui o trabalho do professor e nem deve ocupar um tempo muito grande da aula, podendo ser intercalada com intervenções do professor e dos alunos ou com o uso de outros recursos (como a lousa, demonstrações, atividades dos alunos, etc.);
  6. A sequência de slides, as imagens, sons e outros recursos incorporados à apresentação devem ser didaticamente válidos, ou seja, tudo o que for apresentado deve ter um objetivo educacional claro e premeditado;
  7. Para toda apresentação de slides deve haver uma avaliação correspondente onde se possa averiguar a aprendizagem do aluno. Em alguns casos essa avaliação pode ser proposta como parte da própria apresentação;
  8. É importante fornecer as fontes de pesquisa usadas para gerar a apresentação e dar os créditos necessários para todos os autores, coautores e colaboradores;
  9. As apresentações devem ser disponibilizadas, preferencialmente na internet, para que os alunos e outros professores possam acessá-las em qualquer momento futuro;
  10. Como a apresentação de slides é uma ferramente essencialmente “visual”, é preciso um cuidado especial com o design e o uso de fontes, cores, imagens e efeitos especiais. Uma apresentação com caráter pedagógico não deve ser apenas um show pirotécnico de efeitos especiais.

Aspectos técnicos de uma boa apresentação

Há um certo consenso de que uma boa apresentação de slides deve possuir algumas características técnicas que a torne agradável, acessível e eficiente como ferramenta de comunicação. Seguem abaixo algumas características técnicas que uma boa apresentação de slides digital deve possuir:

  • A apresentação deve ser visível por todos na sala. Posicione o telão em um local que permita sua visualização por todos os presentes e faça sua exposição ao lado e não na frente do telão. Se for obrigado a ficar um pouco mais distante do telão, use um apontador laser para apontar; se estiver próximo ao telão e este for pequeno, use um apontador do tipo “vareta”;
  • A letra utilizada para os textos dos slides deve ter uma tamanho suficientemente grande para que todos possam ler os textos, mesmo aqueles que estão mais distantes do telão. Evite usar fontes com tamanho menor do que 20. Especialistas recomendam o uso de fontes com tamanho 30;
  • Procure usar apenas as fontes (tipos de letras usadas pelo computador) mais comuns e disponíveis em todos os computadores (Arial, Verdana, Times New Roman). Uma fonte “sofisticada” pode não existir no computador onde a apresentação será executada e, nesse caso, seu texto pode ficar desconfigurado;
  • Evite usar cores de fundo ou imagens de fundo escuras, com muito contraste ou muito detalhadas. As cores claras, ou mesmo o fundo branco, permitem uma visualização melhor para quem está distante do telão e evitam problemas de contraste com as cores das letras ou problemas de interpretação das cores pelo projetor. Além disso, a iluminação local também pode afetar as cores mostradas no telão;
  • Evite usar letras coloridas e use-as apenas quando quiser  destacar uma palavra ou frase importante. Textos coloridos raramente causam um bom impacto visual, as cores do projetor nem sempre são iguais as cores vistas na tela do computador e a escolha infeliz da cor da letra e do fundo da apresentação podem tornar a visualização do slide difícil ou mesmo muito desagradável;
  • Use apenas os dois terços superiores do espaço do slide, pois em muitas salas o público mais distante não consegue enxergar a área total do telão e têm dificuldade para ver o terço inferior do slide;
  • Procure não usar imagens reduzidas demais. É preferível que uma imagem seja apresentada em um slide próprio, acompanhada apenas de um título e de sua legenda, do que inserida no meio de um texto. O mesmo vale para gráficos e figuras em geral;
  • Efeitos de transição de slides dão um aspecto mais dinâmico à apresentação e a tornam menos “monôtona”, mas não têm nenhum impacto na aprendizagem dos conteúdos do slide;
  • As animações de objetos (textos e figuras que entram em cena de determinada forma e em momentos distintos de um mesmo slide) devem ser usados com bastante parcimônia. Use efeitos de animação apenas quando quiser apresentar itens de forma sequencial e evite “efeitos pirotécnicos” que podem contribuir mais para a desatenção do que para a atenção do seu público sobre o conteúdo exposto;
  • Evite listar mais do que três itens (parágrafos) em um mesmo slide. O excesso de informações concentradas em um mesmo slide prejudica a compreensão do conteúdo exposto e causa a impressão de “complexidade do assunto”. Preferencialmente coloque nos slides apenas as idéias principais e não explicações ou detalhes;
  • Evite apresentações de slides com muitos slides. Uma apresentação com mais de 30 slides causa muito mais a sensação de ser um livro do que de ser uma apresentação multimídia propriamente dita. Especialistas recomendam no máximo 10 slides;
  • Antes de propor-se a apresentar slides com sons ou vídeos inseridos nos slides, verifique se o local utilizado possui caixas de som capazes de criar sons audíveis em todo o ambiente. É muito desagradável assistir um vídeo com som sem poder ouvir corretamente as falas ou a música;
  • Sempre que for inserir um filme em um slide, escolha a opção de apresentá-lo em tela cheia. Vídeos apresentados em áreas pequenas são de difícil visualização e tornam praticamente impossível a leitura de legendas quando elas estão presentes;
  • Numere os slides (isso pode ser feito de forma automática) de sua apresentação, preferencialmente na forma “slide N de Ntotal”. Isso dá ao seu público e a você mesmo uma boa percepção de tempo e de rítmo da apresentação;
  • Se tiver dificuldade para visualizar o telão ou a tela do computador da posição onde você se encontra durante a apresentação, tenha em mãos uma cópia impressa dos slides que serão apresentados;
  • Sempre inclua uma página de abertura, uma página de índice e uma página final de créditos em suas apresentações. Na página de créditos forneça seu e-mail para contato e evite incluir sua “biografia” nesse slide;
  • Evite fazer suas falas sentado durante a apresentação; procure não ficar nunca de costas para o público para apontar slides; mantenha um tom de voz audível e não monótono e evite a todo custo “ler os slides” (pois o público geralmente já sabe ler);
  • Antes de fazer uma apresentação pública pela primeira vez, execute a apresentação no seu computador ou, preferencialmente, usando um projetor de slides multimídia (datashow) para se certificar de que os slides aparecerão conforme você planejou;
  • Faça sempre um “ensaio” da apresentação e cronometre o tempo que gastará em suas falas, ajustando a apresentação e suas falas para o espaço de tempo real de que você disporá quando fizer a apresentação para seu público. Especialistas recomendam um tempo máximo de apresentação de 20 minutos.

Encontrando apresentações na internet

Existem milhares de apresentações de slides digitais compartilhadas na internet que você poderá baixar e usar com seus alunos. Essa facilidade só existe porque muitas pessoas compartilham suas apresentações com os demais. Faça o mesmo com as apresentações que você mesmo criar.

Uma forma extremamente simples de encontrar apresentações prontas na internet consiste em usar um buscador como o Google. Tomando com exemplo esse buscador, experimente digitar o assunto que está procurando e acrescente a expressão “filetype:ppt” no final do seu texto (algo como “fotossíntese filetype:ppt”, sem as aspas). Aparecerão centenas de links para apresentações no formato usado pelo PowerPoint (extensão “ppt”) sobre o tema fotossíntese. Além da extensão “ppt” também há outra extensão de arquivo bastante utilizada para apresentações: o “pps”. Nesse caso sua frase de busca seria algo como “fotossíntese filetype:pps”, sem aspas.

Slideshare
O Slideshare é um dos locais mais famosos para se hospedar ou obter gratuitamente suas apresentações.

Também é uma boa idéia procurar apresentações voltadas à educação em sites que fornecem objetos educacionais ou em serviços de compartilhamento de apresentações, como SlideShare, por exemplo. Nos links sugeridos para aprofundamento, no final desse artigo, há boas informações sobre onde e como compartilhar ou obter apresentações de slides digitais.

Criando e compartilhando apresentações de slides digitais

Para criar uma apresentação de slides digital você precisa de um software de criação de apresentações. O mais comumente usado talvez seja o PowerPoint, que vem geralmente no pacote de softwares de escritório Microsoft Office. O único inconveniente do PowerPoint é que ele é parte de um pacote de softwares pago. Mas você também pode usar um software muito semelhante e gratuíto, o Impress, que é instalado com o pacote de escritório OpenOffice, ou com a versão brasileira do OpenOffice, o BrOffice. O Impress é totalmente gratuito e tem as mesmas funcionalidades que o PowerPoint.

Há também opções de serviços da web 2.0 que fornecem softwares para criação de apresentações digitais. A vantegem de usar esses serviços é que você não precisa baixar e instalar nenhum software no seu computador e pode gerar suas apresentações diretamente pela internet e depois baixá-las para seu computador. Um ótimo serviço desse tipo é oferecido pelo Google por meio do GoogleDocs. Com esse serviço você pode criar, armazenar e compartilhar suas apresentações de slides no próprio GoogleDocs (veja o artigo sobre o “Uso pedagógico do GoogleDocs“).

Para aprender a usar esses softwares de gerações de apresentação há milhares de apostilas, tutoriais e apresentações na internet que tratam desse assunto. Mas há dois recursos muito pouco explorados pelos professores e que podem ajudá-los imensamente:

  1. A ajuda do próprio software: todo software vem acompanhado de uma “Ajuda” que pode ser acessada diretamente no próprio software e que é um manual completo sobre como fazer cada coisa. Consultando a ajuda do próprio software geralmente se resolve mais de 90% das dúvidas sobre como usar o software;
  2. A aprendizagem colaborativa: embora professores gostem que seus alunos trabalhem em grupos de forma colaborativa, poucos usam esse recurso para seu próprio aprendizado tecnológico. Sentar-se ao lado de um colega que já tem alguma experiência, ou dos próprios alunos, e solicitar ajuda, ainda é um dos meios mais eficazes para aprender a usar as novas tecnologias.

Ao usar ou adaptar uma apresentação feita por outra pessoa, mesmo que você a modifique bastante, dê ao autor original o crédito pela apresentação que você modificou. Faça isso na página de créditos onde você colocará também a sua informação de contato. Faça a mesma coisa quando criar uma apresentação baseada em textos de blogs, livros ou outras fontes, procurando sempre citar corretamente as fontes utilizadas.

Referências de consulta na internet

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico de apresentações de slides digitais, Professor Digital, SBO, 17 jul. 2010. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2010/07/17/uso-pedagogico-de-apresentacoes-de-slides-digitais/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

O uso pedagógico da Sala de Informática da escola


Desde o início da década de noventa alguns governos vêm investindo continuamente no aparelhamento das escolas públicas com a implantação de Salas de Informática, também chamadas de Laboratórios de Informática dentre outras denominações. No mesmo período as escolas particulares também começaram a investir pesadamente na montagem dessas salas e em equipamentos de multimídia, como datashows e telões.

A partir do início dessa década, lá por 2002, muitas escolas já dispunham dessas salas e de um histórico de uso das mesmas, quase sempre ruim. Agora, no final dessa primeira década, já temos condições de fazer um bom balanço desse processo e dos resultados advindos dele. E o balanço é bastante negativo.

A implantação de Salas de Informática nas escolas se baseou, na maioria das vezes, no pressuposto errado de que “faltava apenas o computador” para que o processo de modernização das escolas e do ensino se desse de forma natural, como se isso fosse um processo simples e automático. Além disso, como nossos gestores políticos entendem muito pouco de educação, mas adoram fazer “investimentos”, as Salas de Informática configuraram-se como uma ótima oportunidade para se gastar o dinheiro público com reformas e equipamentos, mas sem uma preocupação verdadeiramente pedagógica por trás do investimento.

Quebrando computadoresAinda no início da década passada já encontrávamos diversas escolas onde esses computadores estavam quebrados, desatualizados, sucateados e sem nenhuma manutenção. Agora, já praticamente fechando a primeira década do terceiro milênio, a situação continua muito parecida em muitos lugares. Computadores que custaram caro, pois o poder público é expert em gastar mal o nosso dinheiro, continuam depreciando em centenas de escola sem nenhum uso por parte dos alunos. Sobre a depreciação desses computadores e a necessidade econômica (além de pedagógica) de seu uso, veja o artigo “Quebrando computadores“, escrito originalmente no início de 2005 e republicado aqui nesse blog em 2008.

Paralelamente à falta de inteligência dos gestores públicos, vimos uma generalizada falta de vontade de educadores que resistiram bravamente ao uso dos computadores, mesmo quando estes estavam em plenas condições de serem usados. Sob argumentos que iam do “não preciso disso” até o “não sei como usar”, foram poucos os professores que se dispuseram a aprender a usar os computadores de forma pedagógica ou mesmo a repensar suas práticas pedagógicas diante da necessidade de inserir seus alunos no universo digital onde eles, os alunos, e o próprio professor, já vivem há muito tempo.

Agora, passadas duas décadas desde o início desse processo de inserção das novas tecnologias na escola, já não faz mais nenhum sentido discutir se vale ou não a pena usar os computadores, a internet e as TICs de forma geral. O mundo, independentemente da falta de vontade de alguns professores e da má vontade da maioria dos políticos, já definiu que não poderá continuar existindo sem essas novas tecnologias. É simplesmente impossível conceber um mundo e uma escola sem essas tecnologias, a menos que se faça a opção por uma vida eremita.

Nesse contexto, o uso da Sala de Informática deixa de ser uma possibilidade a mais e passa a ser uma necessidade que se impõe tão fortemente quanto a necessidade da lousa e do giz, que ainda existirão por um bom tempo. Mas como promover esse uso?

Este artigo não pretende justificar a necessidade de se usar os computadores e a Sala de Informática, mas ao invés disso pretende apontar algumas possibilidades de uso desse ambiente de maneira que  o professor,  mesmo aquele que ainda não se sente seguro para desenvolver atividades diretamente na Sala de Informática, possa dar aos seus alunos alguma possibilidade de usá-la, independentemente dele usá-la também, se for o caso.

Pré-condições mínimas para o uso da Sala de Informática

Não faz sentido falar em uso da Sala de Informática se a escola não dispuser de, pelo menos, alguns requisitos básicos que permitam esse uso:

  1. A Sala de Informática deve se encontrar em condições físicas de uso (possuir mobiliário adequado, instalação elétrica compatível, etc.) e, pelo menos, um computador funcionando, podendo ou não estar conectada à internet;
  2. Os alunos devem ter acesso permitido à Sala de Informática no contraturno do período em que estudam e não apenas no período de suas aulas;
  3. Deve haver um conjunto de regras de uso da Sala de Informática, visível na própria Sala de Informática, e previamente apresentado, discutido e acordado com os alunos;
  4. Se a escola não tiver um funcionário que possa cuidar do acesso à Sala de Informática, deve ser montada uma equipe de alunos monitores que se encarregarão dessa tarefa;
  5. A escola deve possuir alguma forma de garantir a manutenção de software (configuração dos computadores) e, preferencialmente, também deve possuir alguma manutenção de hardware e condições de substituir peças que podem se estragar naturalmente, como mouses e teclados.

Uma boa Sala de Informática deveria ter em torno de 40 computadores conectados à internet por banda larga de pelo menos 4 Mb, possuir periféricos (como impressoras, scanners, fones de ouvido e webcan) e um datashow ou uma lousa digital. Porém, não é necessário que se tenha uma Sala de Informática como essa para que se possa fazer um algum uso pedagógico dela, pois mesmo com as pré-condições mínimas descritas acima é possível usar a Sala de Informática em diversas situações.

Pós-condições mínimas para o uso da Sala de Informática

Havendo uma Sala de Informática que atenda esses requisitos mínimos, falta agora saber se há na escola ao menos um professor disposto a cumprir seu papel de educador e não apenas o seu compromisso de “dadador de aulas”. Na verdade todos os educadores deveriam ter uma preocupação razoável com a inserção de seus alunos no mundo tecnológico onde se encontram, mesmo que esses mesmos professores já tenham jogado a toalha no que diz respeito à sua própria capacidade de continuar aprendendo.

Um único professor, que seja, que proponha ou execute atividades para as quais o computador seja uma ferramenta, já possibilita o uso da Sala de Informática de forma pedagógica. Um grupo de cinco professores fazendo uso intensivo das TICs já satura a capacidade da Sala de Informática. Portanto não é preciso convencer aquele professor que só está preocupado em contar os dias para a sua aposentadoria ou aquele outro que dá 60 aulas semanais em cinco escolas e se diz sem tempo para fazer outra coisa que não seja escrever na lousa.

Usando a Sala de Informática sem nunca entrar nela

Desde que a escola disponha de uma estrutura que permita o acesso dos alunos à Sala de Informática no contraturno (por meio de um funcionário encarregado de disponibilizá-la ou mesmo de um grupo de alunos monitores) é sempre possível propor atividades para os alunos com o uso dos computadores, mesmo que o professor se sinta constrangido em adentrar a um ambiente onde ele é, muitas vezes, o mais ignorante dos presentes.

Todas as atividades listadas abaixo podem ser realizadas pelos alunos sem a necessidade de um professor que os acompanhe:

  • Pesquisa na internet: os alunos já fazem pesquisas na internet quando seus professores lhes pedem “trabalhos”. O fato de muitos deles devolverem trabalhos que são meramente cópias descaradas de sites, ou mesmo trabalhos já publicados na internet, depende muito mais da incapacidade do professor em propor uma boa pesquisa do que da disponibilidade de sites e trabalhos prontos na internet ou da “desonestidade” dos alunos. Para propor uma boa pesquisa o professor não precisa sequer entrar na Sala de Informática, bastando apenas que ele seja realmente um professor que saiba propor pesquisas (com ou sem internet) e não um “dadador de aulas” que ao fim e ao cabo espera mesmo que o aluno lhe entregue um punhado de papel e não que ele aprenda algo com isso. Aqui mesmo nesse blog você encontrará alguns subsídios para compreender melhor o mecanismo de pesquisa na internet (veja, por exemplo, o artigo “Pesquisa escolar na Internet: Ctrl+C & Ctrl+V versus Cópia Manuscrita“) e sobre como propor boas pesquisas.
  • Digitação de textos e elaboração de apresentações: Ao invés de solicitar que os alunos criem cartazes e os pendurem nas paredes da escola, o professor pode propor que eles apresentem seus trabalhos usando um projetor multimídia (se a escola dispuser de um) ou mesmo usando uma TV com aparelho de DVD. Se o professor não faz idéia de como criar uma apresentação de slides e então apresentá-la em um datashow ou em um formato de DVD, não tem problema algum, pois seus alunos, que também não sabem, aprenderão sozinhos, mesmo que o professor não se disponha a ajudá-los a aprender ou a aprender com eles. A maioria dos alunos de hoje em dia é bem mais autônoma do que seus professores e, por isso, conseguem aprender a fazer coisas que seus professores não conseguem;
  • Uso de softwares de criação e edição de imagens, vídeos e arquivos sonoros: os alunos são capazes de ilustrar um trabalho com um vídeo produzido por eles mesmos, usando seus celulares, e posteriormente editado no computador da Sala de Informática, ou usar o mesmo celular para gravar uma entrevista e depois editá-la no computador, transcrevê-la para um documento de texto e até mesmo publicar esse documento na web. Não é preciso que o professor saiba nada disso, e mesmo se ele não quiser ou não se sentir capaz para aprender, ainda assim ele pode solicitar isso a seus alunos e certamente eles o farão, enriquecendo assim sua aprendizagem;
  • Busca e uso de materiais didáticos alternativos: a internet é uma biblioteca literalmente infinita onde os alunos podem encontrar informações e materiais didáticos sobre qualquer assunto ou disciplina. Mesmo o professor que vive limitado aos seus poucos livros, às vezes apenas um, deve ter consciência de que seu aluno obterá muito mais informação na internet do que nas suas aulas e, portanto, não deve dispensar esse recurso como fonte de informação para seus alunos. Evidentemente esperar-se-ia que um bom professor fosse capaz de indicar os melhores sites para consulta,  os links para bons materiais jornalísticos, etc., mas mesmo aquele professor que mal sabe para si mesmo ainda pode indicar de forma “genérica” que seus alunos busquem mais informações sobre os temas da aula no “Google”. O hábito de pesquisar informações e conteúdos na internet tende a se intensificar cada vez mais e em breve poderemos aposentar enfim os professores cuja única utilidade continua sendo copiar e colar na lousa os conteúdos pobres que ele dispõe de um ou dois livros didáticos apenas;
  • Aprendizagens colaborativas, redes sociais e multimeios: na Internet o aluno pode fazer amigos, discutir assuntos de seu interesse, paquerar e surfar por temas que não tem nenhuma relação com os conteúdos escolares, mas ele também pode participar de grupos de discussão, pode tirar dúvidas com professores que não se sentem “velhos, acabados e desestimulados” e que se dispõem a ajudar alunos que nem mesmo são seus. Nas redes sociais também se podem formar grupos de estudo, pode-se paquerar ou fazer a lição de casa “à distância”, pode-se matar o tempo vendo vídeos engraçados ou assistindo a experimentos e demonstrações que muitas vezes seus professores se negam a fazer por “falta de tempo ou de recursos”. Enfim, a internet também é, em muitos casos, uma escola bem mais útil para o aluno do que a velha sala de aula chata onde uma voz monótona repete parágrafos copiados de livros velhos;

Evidentemente há ainda muitas outras possibilidades para se abandonar seu aluno na Sala de Informática e, mesmo assim, conseguir dele uma melhor aprendizagem do que a que ele obtém apenas copiando aquilo que o próprio professor copia dos livros. E, evidentemente, também há riscos e problemas diversos decorrentes desse abandono. Mas é melhor deixar que seu aluno usufrua desses recursos na Sala de Informática do que privá-lo deles só porque o professor se sente incompetente para acompanhá-lo nessa jornada. Se o professor sente que “não aguenta”, que ele deixe que seu aluno vá sozinho, ao invés de puxá-lo junto consigo para as profundezas do atraso.

Usando e estando presente na Sala de Informática

Para professores que não se sentem constrangidos em aprender e que se dispõem a participar mais efetivamente do processo de ensino e aprendizagem com seus alunos, a presença na Sala de Informática poderá não apenas enriquecer, e muito, a aprendizagem dos alunos mas, principalmente, enriquecer a sua própria aprendizagem.

Ao propor uma pesquisa aos alunos e se dispor a acompanhá-los na Sala de Informática, o professor tem a oportunidade de avaliar conjuntamente a qualidade, pertinência e eficácia das informações encontradas nos vários sites pesquisados. Estando presente o professor pode interferir e redirecionar o processo, pode corrigir, acrescentar, modificar e, acima de tudo, aprender muito mais sobre o conteúdo que ele está ensinando.

Questões transversais mas de suma importância, como ética, preceitos morais e legais, regras de comunicação e convivência, cuidados com a privacidade própria e alheia, cidadania e responsabilidade, são temas presentes e recorrentes em toda navegação pela web. Quando o aluno trabalha sozinho ele tem que aprender também a lidar sozinho com essas questões, mas estando acompanhado por um professor, que se supõe poder orientá-lo nessas questões, ele poderá construir melhor seu caráter e seus valores enquanto lida com “conteúdos e comandas de trabalho”.

Além disso, estar presente com os alunos durante a atividade não significa ter a responsabilidade de saber usar os computadores, os periféricos, os softwares ou o de deter conhecimentos elaborados sobre os usos e recursos da internet. Assim como os próprios alunos, o professor será sempre um eterno aprendiz das novas tecnologias e recursos. O papel do professor na Sala de Informática não é nem nunca foi o de “ensinar informática”, mas sim e tão somente o papel que ele tem fora da Sala de Informática: o papel de atuar como professor de sua disciplina e como educador no que diz respeito à formação integral do indivíduo sob sua tutela educacional!

Levar uma classe inteira para a Sala de Informática também requer alguns desafios, mas que nada têm a ver com a informática em si, e sim com a otimização do uso dos recursos disponíveis:

  • trabalhando em grupos: é a forma mais racional de contornar a falta de equipamentos. Mesmo assim, quando não for possível agrupar os alunos em um número de até no máximo quatro por computador, divida a turma em dois ou mais blocos e enquanto um bloco utiliza os computadores (em grupos de até quatro alunos), os demais blocos realizam outras atividades que não requerem o uso do computador, alternando-se os grupos durante o espaço da aula;
  • organizando os tempos: é a forma mais racional de otimizar o uso da Sala de Informática de maneira a garantir o uso dos equipamentos por todos os alunos. As atividades realizadas na Sala de Informática com a presença do professor e da classe toda devem ser dimensionadas de maneira a permitir sua execução dentro do período da aula;
  • preparando previamente a atividade: é a forma mais racional de garantir a aprendizagem efetiva dos alunos. Assim como em uma aula tradicional, se o professor entrar na sala de aula sem um plano de aula previamente elaborado, e permitir que cada aluno faça o que bem quiser, não haverá aprendizado algum.
  • permitindo a aprendizagem colaborativa: é a forma mais racional de se obter produtividade em um ambiente onde alguns sabem mais que outros e onde o professor geralmente não é o mais capacitado para responder as perguntas específicas sobre o uso de equipamentos e softwares. Os alunos se ajudam e compartilham seu conhecimento, se sujeitam a aprenderem com os colegas e se interessam por aprender tanto quanto os mais experientes. Embarque nessa idéia!

O gerenciamento da disciplina na Sala de Informática segue os mesmos preceitos do gerenciamento em sala de aula normal quando se tem trabalhos em grupos. As regras de convivência, respeito mútuo, preservação do patrimônio público e privado, respeito aos preceitos éticos, morais e legais, devem ser as mesmas da sala de aula tradicional. Mas, se na sala de aula tradicional seus alunos sobem nas carteiras, escrevem nos tampos das mesas e atiram papéis uns nos outros, é muito provável que também o farão na Sala de Informática. De onde decorre naturalmente que, tendo equipamentos caros na Sala de Informática, não é mesmo recomendável que professores que não têm competência para administrar suas turmas as levem para esse novo ambiente (ou para qualquer outro lugar). Nesse caso a experiência mostra que a ausência do professor oferece menos riscos para o patrimônio da escola do que sua presença!

Extrapolando o uso da Sala de Informática

No cenário mais promissor temos, enfim, um professor que consegue realizar atividades com seus alunos na Sala de Informática e que propõe atividades que os alunos possam realizar nesse ambiente no contraturno, como tarefas de casa, trabalhos, pesquisas e outras possibilidades. Evidentemente os alunos também podem fazer essas atividades em suas casas, desde que disponham de computadores e acesso a internet, mas mesmo assim eles tendem a vir para a Sala de Informática para fazer algumas dessas atividades quando elas são propostas para grupos ou como parte de trabalhos multidisciplinares.

Nesse cenário, raro, mas já visível em vários locais, o professor usa os recursos da web 2.0 de forma compartilhada com seus alunos, troca e-mails com eles, bate papo no MSN, participa de comunidades do Orkut, de grupos do Yahoo e Google, mantém um blog compartilhado, usa materiais e recursos da rede e propõe atividades on-line, síncronas e assíncronas.

Para um professor nesse nível de inserção com as TICs, a Sala de Informática já deixou de ser um ambiente “extraclasse” e passou a ser uma extensão da sua sala de aula e esta, muitas vezes, já extrapolou até os muros da escola e se estendeu pela rede, na forma de EAD e comunidades virtuais de ensino e aprendizagem. Para esses professores esse artigo é, obviamente, inútil, mas para todos os outros talvez haja algo que possa ser repensado e , quem sabe, “pelo menos tentado”.

Um breve relato de estudo de caso de acesso facilitado à Sala de Informática

Em uma certa escola a Sala de Informática ficou fechada por muitos anos por falta de professores que a utilizassem com os alunos e por miopia pedagógica da gestão local que preferia mantê-la trancada para evitar “danos” do que abri-la para os alunos e permitir que, pelo menos eles, a usassem. O resultado disso foi que ao longo de meia década a sala ficou sem uso e, quando foi reaberta, por pressão de um professor que queria muito utilizá-la, seus equipamentos já estavam danificados pelo envelhecimento natural, seus softwares estavam ultrapassados e a configuração das máquinas já não era suficiente para atender às novas necessidades dos softwares.

Mesmo assim o professor abriu a Sala, recuperou os computadores, fez upgrade do hardware e dos softwares onde era possível e passou a utilizá-la. Um ano depois a gestão da escola foi trocada e a nova gestão aceitou com bons olhos o uso da Sala de Informática, mas não havia nenhum funcionário disponível para garantir o acesso dos alunos.

A solução encontrada foi criar um grupo de alunos monitores cuja função básica era a de abrir e fechar a Sala de Informática, registrar o uso dos computadores e manter a organização geral de agendamentos de uso, além, é claro, de ajudar os colegas naquilo que sabiam. Mas nenhum desses monitores tinha capacitação técnica para realmente “gerenciar” uma sala de informática ou dar suporte técnico para os demais alunos além do básico.

Nos quatro anos seguintes a Sala de Informática funcionou normalmente e não houve uma única ocorrência de vandalismo, depredação ou mesmo de mau uso dos equipamentos. Todos os defeitos apresentados nas máquinas deveram-se ao envelhecimento e ao desgaste natural, como mouses quebrados, monitores pifados, teclados com defeito ou mesmo placas de rede queimadas.

Nesse período todos os alunos utilizaram a Sala de Informática  nos períodos da manhã e da tarde, onde havia monitores, quase sempre sem a presença de algum professor ou funcionário da escola. Eles mesmos passaram a cuidar da manutenção do software das máquinas, da limpeza e conservação da sala e, alguns com conhecimentos mais técnicos, se ofereceram para pequenos consertos. Não se registrou nem mesmo um único rabisco no mobiliário.

Com o tempo mais professores passaram a usar a Sala de Informática com seus alunos, ou propondo atividades que poderiam ser potencializadas com o uso da Sala de Informática de maneira autônoma pelos alunos. Aos poucos a cultura de uso e conservação da Sala de Informática foi sendo construída e todos os mitos provenientes da ignorância e da preguiça (“os alunos são vândalos e quebrarão as máquinas”, “vão usar a sala para tudo, menos para aprender”, etc.) foram sendo abandonados diante da realidade nua e crua de que a Sala de Informática é um patrimônio da comunidade escolar e não uma caixinha de brinquedos da gestão local ou uma grande caixa de Pandora, de onde sairão todos os monstros dos pesadelos de professores descomprometidos.

Então, será que já não é tempo de quebrar esses cadeados das portas das Salas de Informática e das mentes retrógradas de alguns gestores e professores e devolvermos aos alunos o patrimônio que é verdadeiramente deles?

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. O uso pedagógico da Sala de Informática da escola, Professor Digital, SBO, 08 maio 2010. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2010/05/08/o-uso-pedagogico-da-sala-de-informatica-da-escola/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

Uso pedagógico do telefone móvel (Celular)


Contextualizando

O primeiro telefone móvel (celular)
Martin Cooper, da Motorolla, e o primeiro telefone celular.

O telefone móvel, ou celular, foi lançado em 1973, em Nova Iorque. Na época ele era gigantesco, pesava o equivalente a dúzias de celulares modernos e tinha uma área de abrangência muito restrita, além de ser analógico (*1) e não digital (*2).

Somente uma década mais tarde, em 1983, chegaria ao mercado o primeiro modelo comercialmente viável, o DynaTAC 8000x, da Motorola, pesando apenas 794,16 gramas.

Você pode encontrar um pouco da história dos celulares nos links sugeridos no final deste artigo.

O meu primeiro celular, foi um “tijolinho” da Motorola que inaugurou a linha de microcelulares, o Microtac. Na época (década de 90) ele custava caríssimo e só funcionava em uns poucos lugares “iluminados”, pois a maior parte do país ainda era uma área de sombra (*3) para a telefonia móvel incipiente de então.

Meu primeiro telefone celular
Meu primeiro celular foi um Motorola Microtac. O mais leve da categoria em sua época, pesando apenas 290 gramas!

Confesso que na época eu mesmo não via nenhuma outra utilidade no telefone celular que não fosse a de poder falar de diferentes lugares com um mesmo telefone. O celular era então apenas um telefone e somente adultos dispostos a investirem uma quantia razoável, e que tivessem uma boa razão para tal, se dispunham a comprá-lo.

Hoje em dia o telefone celular é um dos aparatos tecnológicos mais comuns. Segundo pesquisa do Núcleo Gestor da Internet no Brasil, em 2008 52% da população do Brasil já possuía telefone celular. Nos grandes centros urbanos já é quase impossível encontrar alguém com mais de 14 anos que não tenha um telefone celular.

Celular moderno
Celular moderno, com tela giratória e com capacidade para HDTV.

Os telefones celulares atuais são pequenos, leves, tem baterias duradouras, funcionam em quase todos os lugares e há muito deixaram de exercer apenas a função de telefone. Hoje em dia os telefones celulares são verdadeiras centrais multimídias computadorizadas (*4) onde se pode telefonar (Sim! Os telefones celulares ainda servem para telefonar!), ouvir rádio, mp3, assistir TV, tirar fotos, fazer filmes, gravar voz, jogar videogame, mandar e receber e-mails ou arquivos e acessar a Internet, dentre outras muitas funções.

E é justamente por serem centrais multimídias computadorizadas que os telefones celulares deixaram de ser apenas telefones e passaram a ter múltiplas finalidades. E é claro que entre os muitos usos que podemos fazer deles, alguns também podem ser pedagógicos!

Desfazendo alguns mitos

Antes de propor usos pedagógicos para o telefone móvel celular atual é preciso desfazer alguns mitos sobre a presença do celular na escola e o principal deles é o que diz que o telefone celular é desnecessário na escola e, além disso, atrapalha o andamento das aulas.

Alguns professores se queixam que os telefones celulares distraem os alunos. É verdade. Mas antes dos telefones celulares eles também se distraiam. A única diferença é que se distraiam com outras coisas; como aliás, continuam fazendo nas escolas onde os telefones celulares foram proibidos. O que causa a distração nos alunos é o desinteresse pela aula e não a existência pura e simples de um telefone celular. Exemplo claro disso é que em muitas escolas e em muitas aulas os alunos não se distraem com seus celulares, apesar de estarem com eles em suas mochilas, nos bolsos ou mesmo sobre as carteiras.

Alguns afirmam que os alunos usam celulares para colar. Bom, é provável que sim. Alunos colam sempre que estão diante de provas e atividades que permitam ou estimulem a cola. Essas provas e atividades são geralmente pobres e requerem apenas uma resposta “decorada” ou que se assinalem alternativas, coloque-se verdadeiro ou falso ou se forneça um número como resposta. Nesses casos colar é a solução mais inteligente como resposta a uma avaliação pouco inteligente. Em avaliações onde o aluno precisa pensar, construir respostas próprias ou realizar “ações”, praticamente não há como colar, nem com celular, nem sem celular. Além disso, como todo professor sabe muito bem, a “tecnologia da cola” é muito anterior à do celular.

Aviozinhos de papel
Se proibirmos o uso de cadernos acabaremos com os aviozinhos de papel na classe?

Há quem diga que os alunos usam os telefones celulares para, propositalmente “zoarem” nas aulas, com o professor ou com os colegas. É verdade! E eles também zoariam nessas mesmas aulas sem os celulares: jogando aviõezinhos, bolinhas de papel, fazendo piadinhas e outras milhares de traquinagens possíveis. Não é o celular que incentiva o aluno à indisciplina e sim o desejo dele de confrontar o professor. A solução para esses casos não tem nenhuma relação com o telefone celular, assim como não tem nenhuma relação com os aviõzinhos de papel (ou também proibiremos os alunos de trazerem cadernos na escola porque eles tiram folhas e fazem aviõzinhos de papel?).

Assim como se argumenta que a Internet permite que os alunos tenham acesso a materiais impróprios e façam uso indevido dela, também há quem diga que os telefones celulares permitem uma série de “violações” às regras e normas éticas e morais. Na verdade também nunca foi preciso ter telefone celular para violar essas regras e a escola serve, entre outras coisas, para ajudar na formação ética e moral de seus alunos, e isso não se faz com imposição, omissão ou simples proibição. Ética e valores são conteúdos transdiciplinares que devem estar presentes sempre, inclusive ao lidarmos com as novas tecnologias.

Também se argumenta que é constrangedor para os alunos que não têm celular conviverem com outros que os têm. Provavelmente também seja verdade, mas também é igualmente verdadeiro para os tênis que eles usam, para a calça jeans, para o caderno de capa dura, para o estojo, para o relógio, etc., etc. Na escola temos que aprender, todos nós, a conviver com as diferenças e compreender a realidade que as produz. Não podemos simplesmente decretar que todos usem as mesmas roupas (apesar da exigência de uniformes em algumas escolas), que tenham os mesmos materiais escolares, que façam uso do mesmo vocabulário, dos mesmos brinquedos e principalmente, que tenham as mesmas idéias.

Enfim, todos os argumentos que costumo ouvir defendendo a proibição dos celulares nas escolas são argumentos pouco refletidos, onde os problemas reais que são apontados dizem respeito à forma de gestão de aula do professor ou a maneira como a própria escola idealiza o aluno e não ao aparelho de telefone celular propriamente dito. Antes do telefone celular esses mesmos argumentos eram usados para proibir o walkman, o baralho de cartas, os jogos de tabuleiro, as revistas, o rádio de pilhas, a calculadora, etc. etc. Na verdade às vezes eu tenho a impressão de que alguns professores gostariam que seus alunos ficassem nus, amarrados às carteiras e com uma mordaça na boca.

Além desses todos, também há um argumento bastante recorrente para justificar a proibição dos celulares na escola: eles não ajudam o professor em nada, então para que permiti-los? Vamos refletir um pouco mais sobre isso?

  • Você, professor, já usou um rádio, rádio-gravador ou um aparelho de reproduzir sons em sala de aula?
  • Já usou alguma vez uma calculadora, em alguma aula?
  • Já usou uma TV, um videocassete ou um DVD em alguma atividade?
  • Já manteve contato com os alunos por e-mail, pela Internet ou por outro dispositivo que permita comunicação à distância?
  • Já fez alguma atividade onde fosse necessário tirar fotos ou gravar um filme?
  • Já propôs alguma entrevista que fosse gravada e depois transcrita?
  • Já usou jogos eletrônicos (videogames) com seus alunos?
  • Costuma comunicar datas de provas e de entregas de trabalho para seus alunos e pede que eles anotem?
  • Já pediu alguma vez aos seus  alunos que copiassem suas anotações feitas na lousa?
  • Já lhes disse alguma vez: “Preste muita atenção na explicação que vou dar agora!” ou algo semelhante a isso?
  • Já consultou a hora para saber quanto falta para o término da aula ou já usou um cronômetro para lhe avisar quando faltarem cinco minutos para o final da sua aula?

Bom, se você já fez pelo menos uma das atividades ou ações descritas acima, então saiba que ela poderia ter sido feita de forma equivalente com o uso de telefones celulares modernos e, não raro, de forma até bem mais eficaz!

Usando o celular na escola

Vou contar uma breve historinha:

O MEC envia livros para as escolas, mas nem sempre há livros para todos. Em 2009 deparei-me com uma situação destas, em que uma classe ficou sem livros e foi necessário então compartilhar os livros entre duas classes. Porém isso impedia os alunos de levarem os livros para casa para poderem estudar… O que fazer?

Em outros tempos eu pediria aos alunos que copiassem as partes mais importantes do livro usadas em cada aula e diríamos que isso era a “matéria para ser estudada”. Isso demanda muito tempo de aula gasto inutilmente, pois não temos esse tempo disponível, temos? Além disso, a menos que o objetivo da aula seja treinar caligrafia ou chatear os alunos, fazer cópias de livros e mesmo da lousa é algo realmente “inútil”. Também existe a possibilidade de fotocopiarmos algumas páginas, mas isso tem um custo com o qual poucas escolas públicas podem arcar.

Mas não precisamos mais fazer nada disso. Agora basta pedir aos alunos que peguem seus celulares e FOTOGRAFEM as páginas importantes do livro! E foi justamente isso que os alunos fizeram.

Fotografando e gravando com o celular
O Celular como ferramenta de registro

O mesmo vale para a lousa e mesmo para as pesquisas bibliográficas na biblioteca. Quando algum aluno me pergunta hoje em dia se precisa copiar minhas anotações da lousa, eu logo lhe recomendo que faça algo mais inteligente: fotografe a lousa! E eles fazem!

Essa brevíssima historinha, que é apenas uma dentre muitas,  já me permite então listar algumas sugestões para o uso pedagógico dos telefones móveis celulares modernos em sala de aula e fora dela:

  1. Se você em algum momento faz cálculos em suas aulas e solicita que os alunos os façam, e a menos que por alguma boa razão eles devam fazer esses cálculos com algoritmos específicos e usando papel e lápis, então considere fortemente a possibilidade de usar os celulares como calculadoras. Além disso, se você é professor de matemática e quer ensinar seus alunos como resolver expressões aritméticas obedecendo as regras de precedência de operadores, considere que o uso de calculadoras, e portanto celulares, consiste em um método bastante eficaz de fazê-lo, pois as máquinas seguem a ordem que nós determinamos para as operações; o telefone celular é uma calculadora também;
  2. Se você marca datas de provas, entregas de trabalho ou outras datas que considera importante que os alunos se lembrem, peça-lhes que anotem essas datas. Não no caderno, mas sim na agenda do celular! Eles andam com o celular no bolso o tempo todo e só estão perto do caderno quando estão na escola, confere? O telefone celular é uma agenda que tem até mecanismo de alerta;
  3. Já é possível criar um serviço de envio de mensagens de aviso por e-mail ou via torpedos. Pelo celular é possível receber atualizações de sites, blogs e até mesmo de mensagens do Twitter, bem como fazer o caminho oposto. Se quiser dar um passo adiante você pode criar um serviço desses e disponibilizar para seus alunos; o telefone celular também é um serviço de leitura de notícias e de publicação de notícias;
  4. Os celulares atuais gravam sons, imagens (fotos) e ambos (filmes). Todos esses recursos servem para “registro”. Permita, e mesmo incentive, que seus alunos fotografem sua lousa ao invés de copiá-la no caderno. Isso lhes permite prestar atenção em você, enquanto você fala e escreve, ao invés de repartirem a atenção entre o que você diz e o que eles estão copiando nos cadernos. O mesmo vale para as suas explicações importantes que podem ser gravadas como sons ou como filmes. Imagine o quanto é mais interessante para o aluno “assisti-lo” ou mesmo “ouvi-lo” na hora de estudar do que apenas conferir anotações, nem sempre fiéis, feitas nos cadernos! Use, você mesmo, esses recursos para registrar atividades feitas com os alunos; o telefone celular é uma câmera fotográfica digital, uma filmadora digital e um rádio-gravador digital;
  5. Proponha o uso dos celulares como ferramentas para os alunos desenvolverem seus trabalhos. Como foi dito acima, com o celular eles dispõem de gravador de voz, imagem e vídeo, muito embora eles mesmos não tenham o hábito de registrar suas atividades. Isso é o que chamamos de “making-off” das atividades e, ao fim e ao cabo, é esse o único registro que nos interessa e não o resultado final da atividade. Por exemplo, se eles têm que confeccionar uma maquete, porque não fotografar todas as etapas e depois transformar isso em um filme (animação) que pode ser incluído como parte da própria atividade? O telefone celular é uma ferramenta de registro, edição e publicação.
Aparelho de celular moderno
Siemens SK65 – celular ou computador?

Há uma infinidade de possibilidades de uso pedagógico dos telefones celulares modernos em sala de aula e fora dela. Quais lhe interessam? Isso certamente depende da forma como você, professor, usa a tecnologia para si mesmo, em suas aulas e com os seus alunos. Quem não vê nenhum uso pedagógico para o rádio, a televisão, a máquina fotográfica, a filmadora, o gravador, a calculadora, a agenda, etc., então também não verá nenhuma utilidade para o celular, pois é isso que ele representa hoje em dia: não é mais um simples telefone, o celular é uma central de multimídia computadorizada.

Celulares na escola
Eles têm, eles trazem e eles usam… Porque não?

À propósito, sempre foi muito comum a falta de recursos tecnológicos nas escolas, principalmente nas escolas públicas. Com o telefone celular passamos a ter muitos desses recursos disponíveis não apenas pela escola, mas também pelos alunos! Isso deveria ser comemorado, mesmo que não concordemos que os alunos prefiram ganhar celulares dos seus pais do que enciclopédias, pois com os celulares eles também ganham diversas possibilidades de aprendizagem que antes não tinham porque a própria escola não dispunha desses recursos. Isso é fascinante, não é?

Alguns cuidados finais

Porém, antes de sair por aí reformulando todas as suas práticas e instituindo a obrigatoriedade do uso do telefone celular na escola, tenha em mente que ainda temos muitos alunos que não têm telefone celular ou que têm telefones celulares que não dispõem de todos os recursos mencionados aqui. Além disso, em alguns estados e municípios (e há uma lei tramitando com validade para o país todo) o celular é proibido na escola. Portanto, é preciso sempre:

  • propor atividades que envolvam o uso de celulares para grupos de alunos em que pelo menos um aluno do grupo disponha do celular com o recurso que será utilizado;
  • permitir que os alunos aprendam a usar o recurso antes de propô-lo como parte de uma atividade. Geralmente os alunos dominam os celulares melhor do que seus professores e aprendem rápido a usá-lo, por isso é uma boa idéia “deixar que eles mesmos ensinem e aprendam a usar o recurso entre eles mesmos” (e aproveite para aprender também!);
  • discutir as questões éticas e morais envolvidas no uso de imagens e registros, bem como o uso indevido dos celulares e de outros equipamentos de mídia;
  • estabelecer claramente no planejamento da sua atividade, e descrever em detalhes no seu planejamento de aula, os objetivos do uso do celular nas atividades propostas. Haverá sempre alguém para se indignar com o fato do celular estar sendo usado na sua aula, infelizmente;
  • e, por último, estabelecer claramente as regras de uso dos celulares na escola de maneira geral e, em particular, durante as aulas em que não estarão usando o celular “como parte da aula”, da mesma forma como estabelecemos as regras para o uso do baralho, dos jogos de tabuleiro, dos avioezinhos de papel e de todo o resto.

Veja que não é difícil negociar o que pode e o que não pode, quando se deve e quando não se deve usar o celular. Fazemos isso da mesma forma como estabelecemos outras regras de convivência na escola. Os conflitos mais comuns que surgem nas salas de aula devem-se justamente à falta de uma definição clara desses acordos e da crença em pressupostos perigosos, como o de que o aluno “deve saber naturalmente o que é certo e o que é errado”.

Também é importante discutir com os alunos os limites éticos e morais do uso do celular, e de outros instrumentos tecnológicos modernos, fora da escola. O celular é parte do cotidiano deles e ensiná-los a usá-lo com sabedoria é também parte da nossa tarefa como educadores. E esta é mais uma boa razão para usar os celulares na escola como ferramentas pedagógicas, pois com isso somos naturalmente levados ao contexto do seu uso responsável e podemos desempenhar nosso papel de educadores de forma natural.

Glossário:

(*1) Sinal Analógico: sinal contínuo que varia com o tempo. A informação é transmitida por meio dessas variações.

(*2) Sinal Digital: sinal transmitido da forma de “zero” e “um”, ou seja, a informação é transmitida na forma binária.

(*3) Área de sombra: região onde os telefones celulares não conseguem conexão com nenhuma torre de transmissão e, portanto, não funcionam.

(*4) Central multimídia computadorizada: este termo esta sendo usado aqui para descrever um aparato que disponibiliza diversas mídias (texto, rádio, TC, etc.) de maneira digital, isto é, controlada por um processador (computador).

Sugestão de outros textos disponíveis na Internet:

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico do telefone móvel (Celular), Professor Digital, SBO, 13 jan. 2010. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2010/01/13/uso-pedagogico-do-telefone-movel-celular/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

DynaTAC 8000x

E agora, Mestre Giz?


ApagadorHá duas décadas atrás, lá pelo final da década de 80, Mestre Giz reinava na escola e era a última palavra depois do livro didático. Tinha um enorme orgulho, aliás, de conhecer o livro didático, seu mestre, de cabo a rabo. Suas aulas eram impecáveis e se você perdesse uma delas na sexta série A, poderia assistir a mesma aula na sexta série B, pois Mestre Giz tinha uma aula tão “redondinha” que até as piadinhas eram perfeitamente encaixadas no contexto da aula. Absolutamente tudo sem imprevistos e nem improvisos.

Sada de InformáticaComo que por mágica, Mestre Giz deu uma cochilada numa bela e preguiçosa tarde, logo depois do almoço, e viu-se transportado no tempo para uma década adiante, lá pelo final dos anos 90, na virada para 2000. Acordou babado e meio assustado com o que viu: uma sala cheia de computadores, com uma Internet meio capenga e dezenas de cadeados por todos os lugares possíveis. Era a escola tecnológica chegando.

CadeadosMestre Giz logo desconfiou daquela parafernália toda e concordou de imediato com a gestão da escola de que era preciso colocar muitos cadeados nas portas e impedir os mortais comuns de mexerem naquelas coisas, evitando assim quebrá-las. Também concordou que seria preciso muito treinamento, formação e projetos inovadores nos próximos anos para que se pudessem usar aquelas coisas e, acima de tudo, era preciso saber para que se usariam aquelas coisas. Se era para ensinar, ele não precisava, pois já sabia fazer isso.

Surfando na netDias, semanas, meses e anos se passaram e os alunos revoltosos continuavam querendo usar aquelas maquininhas. Mas para quê? Mestre Giz até foi obrigado a fazer um curso sobre como usar um tal de Word e outro Excel, mas já havia esquecido tudo e, além disso, ele não precisava realmente daquilo. Alguns colegas, até mais velhos do que ele, já tinham computadores em sua casa e os usavam, até para “surfar” na Internet, e ele mesmo já havia comprado um para sua filha, mas na escola as coisas eram diferentes porque faltava alguma coisa a mais para poder usar os computadores: faltava um motivo!

Lan HouseCerta vez um professor metido a diferente levou a classe até a Sala de Informática, mas quebrou a cara porque os computadores estavam muito velhos e desatualizados e a Internet nem funcionava em alguns computadores. Além disso, os alunos usavam as Lan Houses do bairro e dispunham de máquinas muito melhores em suas próprias casas. Mestre Giz não pôde esconder um certo sorriso de satisfação ao ver comprovada a sua tese de que aquelas maquininhas eram mesmo inúteis na escola.

Como o tempo é o grande carrasco das verdades absolutas, um dia aquele professor teimoso, de tanto teimar, conseguiu fazer algo dar certo na Sala de Informática. Não foi nada de muito sofisticado, apenas uma pesquisa rápida na Internet e um texto, digitado naquele tal de Word. Pura perda de tempo, concluiu logo Mestre Giz. A cena se repetiu outras vezes e até mesmo com outros professores, mas a grande pergunta de Mestre Giz continuava sem resposta: e para que EU preciso disso?

Giz e lousaHoje cedo Mestre Giz levantou da cama pelo mesmo lado que sempre levanta, pisou com o pé direito primeiro, como sempre, e tomou seu café com leite e pão com manteiga antes de ir para a escola. Escola que, aliás, parece cada dia pior. Os alunos já não têm mais tanto respeito como antes e nem demonstram muito interesse pelas suas aulas que, à propósito, continuam “redondinhas” como há duas décadas! “Azar o deles”, sentencia Mestre Giz.

Professor ConectadoAlguns colegas professores andam com notebooks ao invés de cadernos, e usam um tal de data-show de vez em quando, ao invés do projetor de slides. Parece que é melhor, mas dá muito trabalho fazer alguma coisa no computador para depois ter que usar o notebook da escola e o data-show e, além disso, não há ninguém na escola para fazer toda essa montagem para os professores. Os professores têm que, eles mesmos, colocarem as imagens no computador e ligar tudo no data-show. Assim fica muito difícil, conclui para si mesmo Mestre Giz, com um certo ar de espanto com aqueles professores que conseguem fazer essas coisas sozinhos e sem cursos ou formações especiais.

Giz e lousa com corNa hora do intervalo, Mestre Giz fez as contas para sua aposentadoria e descobriu que agora falta pouco. Ainda bem, pensou ele, afinal a escola mudou muito e está cada dia mais difícil ensinar. Ele tem pena desses professores mais novos que são obrigados a usarem computadores, Internet, data-show, DVD e outras porcarias para poderem ensinar suas disciplinas. Ele nunca precisou de nada disso. É pena também que os alunos não saibam dar o merecido valor às suas aulas e não entendam que ele já sabe tudo o que os alunos precisam saber. É pena que a juventude ache que pode escolher o que aprender só porque tem uma tal de Internet e que passem tanto tempo nos computadores ao invés de estarem mergulhados nos livros.

Quando estava saindo para o almoço uma aluna lhe perguntou se não podia entregar em um CDROM a pesquisa que ele passou como tarefa, ou mandar por e-mail. É claro que ele respondeu que não. E como esses alunos estão a cada dia mais atrevidos, a garota lhe perguntou com a maior inocência “porque não?”.

CriançasSacando como sempre de sua arma mais poderosa, a razão, Mestre Giz disparou na aluna o mesmo petardo que vem disparando há duas décadas em todos aqueles que lhes questionam o porquê dele simplesmente se negar a usar as novas tecnologias na educação: “Ora, minha cara, eu não preciso de nada disso para lhe ensinar minha matéria”. Mas, desta vez, ao invés do silêncio que costuma receber em resposta,  a garota, atrevida que é, parece que resolveu retrucar com algo que até então Mestre Giz ainda não havia compreendido muito bem: “Eu sei que VOCÊ não precisa, professor, mas EU preciso e PRECISAREI A VIDA TODA. Porque não posso usar então?”.

E agora, Mestre Giz?

(*) Este texto é uma fábula. Ele é totalmente fictício. Mestre Giz, ou professores que acreditam que não precisam usar as novas tecnologias na escola porque são capazes de ensinar sem elas, e que desconhecem a necessidade que os alunos têm de aprender com elas, são personagens inexistentes na vida real. Qualquer semelhança entre os personagens dessa fábula e a realidade cotidiana de uma escola é mero fruto da sua própria imaginação.
 

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

ANTONIO, José Carlos. E agora, Mestre Giz?, Professor Digital, SBO, 18 set. 2009. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2009/09/18/e-agora-mestre-giz/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].