Memória e emoções


(*) Dra. Flávia Schechtman Belham, PhD.

 

photo of toddler smiling
Foto por Alexander Dummer em Pexels.com

Existe alguma relação entre o que nossos alunos sentem e o que eles aprendem em sala? Se sim, será que essa relação pode ser explorada pelos professores para melhorar o aprendizado? Nesse artigo, eu tentarei responder a seguinte pergunta: como podemos usar as emoções para aprimorar o aprendizado e a memória em sala de aula?

 
 
 

COMO AS EMOÇÕES DESENVOLVEM EM JOVENS CRIANÇAS?

Um estudo clássico (1) pediu que crianças assistissem a uma história e relatassem quais emoções cada um dos personagens estava sentindo. Os resultados mostraram que as crianças mais velhas eram melhores em identificar quando um personagem estava triste, como medo ou com raiva.

Em contrapartida, não houve diferença quanto à identificação de emoções positivas. Ou seja, crianças pequenas, de 3 anos de idade, já eram plenamente capazes de identificar quando o personagem estava feliz. Esse resultado sugere que o processamento de emoções positivas se desenvolve mais cedo que o de emoções negativas.

 

O LINK ENTRE EMOÇÕES E MEMÓRIA

Pesquisas recentes (2) feitas com crianças de 10 a 12 anos mostrou que elas tinham uma memória melhor para vídeos de conotação positiva, em comparação a vídeos de conotação negativa. Um resultado semelhante (3) foi encontrado com crianças mais jovens, quando sua memória foi testada para as palavras de uma história.

No geral, o que as pesquisas sugerem é que emoções positivas reduzem o risco de memórias falsas em crianças. Um estudo publicado recentemente (4) mostrou desenhos animados para crianças de 6 a 12 anos. Os desenhos poderiam ter um final positivo, negativo ou neutro. As crianças que viram o final positivo se saíram melhor no teste de memória do que as que viram os vídeos neutros ou negativos.

Ou seja, informações de cunho positivo são memorizadas em mais detalhes, reduzindo a probabilidade de falsas memórias. Similarmente, outro estudo (5) mostrou que as crianças não apenas se saem melhor quando precisam memorizar palavras positivas, mas também são menos propensas a erros quando a informação a ser lembrada é positiva.

Mas como professores podem usar essas descobertas para melhorar o aprendizado em sala?

 

MELHORANDO A MEMÓRIA AO REAVALIAR AS INFORMAÇÕES

As pesquisas descritas aqui sugerem que é importante não apenas criar um ambiente de aprendizagem positivo, mas também adicionar emoções positivas ao conteúdo que está sendo ensinado. Uma jeito de se fazer isso é usar uma estratégia conhecida como “reavaliação positiva”.

A reavaliação positiva acontece quando os alunos reinterpretam um evento como mais positivo do que era inicialmente. Em um estudo (6), um grupo de crianças assistiu a um filme triste. Metade delas teve que reavaliar o final do filme e dar-lhe uma conotação positiva. Em seguida, todas as crianças assistiram a um filme educacional. Ao final do experimento, todas as crianças foram testadas sobre o conteúdo do filme educacional. As crianças que haviam reavaliado o primeiro filme apresentaram melhor memória para o filme educacional, em comparação com o grupo controle. Esse resultado sugere que pensar em algo sob uma luz positiva pode melhorar o aprendizado.

Na sala de aula, sempre que os alunos estão tendo dificuldade para memorizar algo, eles podem ser instruídos a adicionar positividade a essas informações. Por exemplo, eles podem usar aquele termo em uma frase engraçada ou vinculá-lo a algo que eles gostam.

 

MELHORANDO A MEMÓRIA AO GERAR CURIOSIDADE

Outra maneira de usar emoções positivas para aprimorar o aprendizado é investir em curiosidade. Há alguns anos, um estudo (7) mostrou que o sentimento de expectativa antes de aprender algo interessante melhora a memória. Nesse estudo, os participantes memorizaram não apenas as informações para as quais tinham curiosidade, mas também se lembraram melhor dos outros fatos que foram apresentados durante o período de antecipação.

 

CONCLUSÃO

As crianças parecem aprender melhor em meio a emoções positivas. Um ambiente positivo pode ajudar, aprimorar e acelerar o aprendizado. Explorar curiosidade natural das crianças ou instruí-las a reavaliar o material de uma maneira positiva também são estratégias com alto potencial.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. Borke, H. (1971) Interpersonal Perception of Young Children, Developmental Psychology 5(2):263-269.
  2. Paz-Alonso, PM., Goodman, GS. (2016) Developmental Differences across Middle Childhood in Memory and Suggestibility for Negative and Positive Events, Behavioral Sciences & The Law 34(1):30-54.
  3. Bishop, SJ., Dalgleish, T., Yule, W. (2004) Memory for emotional stories in high and low depressed children, Memory 12(2):214-30.
  4. Melinder, A., Toffaline, E., Geccherle, E., Cornoldi, C. (2017) Positive events protect children from causal false memories for scripted events, Memory 25:1366-1374
  5. Brainerd, CJ., Holliday, RE., Reyna, VF., Yang Y., Toglia MP. (2010) Developmental Reversals in False Memory: Effects of Emotional Valence and Arousal, J Exp Child Psychol 107(2):137-154.
  6. Davis, EL., Levine, LJ. (2013) Emotion regulation strategies that promote learning: reappraisal enhances children’s memory for educational information. Child Development 84(1):361-74.
  7. Gruber, MJ., Gelman, BD., Ranganath, C. (2014) States of Curiosity Modulate Hippocampus-Dependent Learning via the Dopaminergic Circuit. Neuron 84(2):486-496.

 

SUGESTÕES DE LEITURA

Pinto, AC. (1998) O impacto das emoções na memória: Alguns temas em análise. Psicologia Educação e Cultura, 2(2), 215-240. Disponível em: <https://www.fpce.up.pt/docentes/acpinto/artigos/11_memoria_e_emocoes.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.

Silvestre, RLS., Vandenberghe, L. (2013). Os benefícios das emoções positivas. Contextos Clínicos 6(1): jan-jun. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v6n1/v6n1a07.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.

Santos, RF., Stein, LM. (2008). A influência das emoções nas falsas memórias: Uma revisão crítica. Psicologia USP, 19(3), 415-434. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v6n1/v6n1a07.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.

Manglano, Júlia (2017). Você sabe como se forma a memória emocional das crianças? O Estado de São Paulo, acesso em 10 de outubro de 2019. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v6n1/v6n1a07.pdf&gt;. Acesso em 10/10/2019.
 


Flavia-phdA Dra. Flávia Schechtman Belham é a Cientista Chefe da Seneca JÁ (www.senecaja.com/professores), uma plataforma de ensino-aprendizagem gratuita, embasada por pesquisas científicas.Flávia foi professora da rede pública do DF antes de concluir seu doutorado em Neurociências Cognitivas na University College London. Twitter: @seneca_ja @FlaviaBelhamPhD

(*) Este blog publica artigos de terceiros, desde que originais e dentro da linha editorial do blog, mas não se responsabiliza e nem endossa suas opiniões.

 

(*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

BELHAM, Flávia Schechtman. Memórias e emoções, Professor Digital, SBO, 10 out. 2019. Disponível em: <https://professordigital.wordpress.com/2019/10/10/memoria-e-emocoes>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem o colchetes].

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